Marte e vida fora da Terra

A pá nova que pode fazer um helicóptero voar 18 km em Marte

A NASA anunciou em 20 de outubro de 2026 um desenho de pá que estende o voo marciano de 700 metros para quase 19 km. O que mudou e por que é tão difícil.

Publicado em 7 min de leitura
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O helicóptero Ingenuity pousado no chão alaranjado de Marte, visto de cima, com uma das pás do rotor borrada pelo movimento e o painel solar por cima
Foto: NASA/JPL-Caltech/ASU
Neste artigo
  1. O ar de Marte é quase nada
  2. O que é um aerofólio, e por que a forma decide tudo
  3. A barreira do som chega mais cedo em Marte
  4. O outro inimigo: o estol
  5. Quem fez, e onde isso foi testado
  6. O que já está marcado: três helicópteros em 2028
  7. Por que 18 quilômetros mudariam a exploração de Marte

Em 20 de outubro de 2026, a NASA divulgou o resultado de um estudo feito no centro Ames, na Califórnia: um desenho novo de pá de helicóptero, batizado roamx-0201, que nas simulações estende um único voo contínuo em Marte de 0,7 quilômetro — a marca do Ingenuity — para até 18,7 quilômetros, e ainda carregando instrumentos científicos a bordo.

Em números redondos: de setecentos metros para quase dezenove quilômetros, sem mudar o planeta nem o tamanho da máquina. Só a forma da pá. Este texto explica por que uma mudança de forma rende tanto — e por que voar em Marte é um problema de engenharia tão cruel.

O ar de Marte é quase nada

A dificuldade toda está num número. Segundo as fichas planetárias da NASA, a densidade do ar na superfície de Marte é de cerca de 0,016 quilo por metro cúbico. Aqui, ao nível do mar, é de 1,217 quilo por metro cúbico.

Divida um pelo outro: o ar marciano tem pouco mais de 1% da densidade do nosso. A pressão conta a mesma história — 6,36 milibares contra 1.014 milibares daqui.

Isso importa porque uma hélice só sobe empurrando ar para baixo. Com 1% do ar disponível, cada volta da pá rende uma fração do empurrão que renderia na Terra. É como tentar nadar numa piscina com um palmo de água: a braçada é a mesma, só que não há o que empurrar.

A saída encontrada pelo Ingenuity foi atacar os dois lados: pás enormes para o tamanho do bicho e um corpo levíssimo. Os números da NASA dão a medida do exagero — 1,8 quilo aqui na Terra (e só 680 gramas em Marte, onde a gravidade é mais fraca), 1,2 metro de pá e rotores girando a cerca de 2.400 rotações por minuto, ou 40 voltas por segundo. Essa história inteira está em Ingenuity: o helicóptero que voou em Marte.

Quatro pás de fibra de carbono montadas em dois rotores girando sobre uma estrutura metálica dentro de uma câmara escura
Rotores da geração seguinte de helicópteros marcianos sendo testados em 15 de setembro de 2023 na câmara de vácuo do Simulador Espacial de 25 pés do JPL. Mais longas e mais resistentes que as do Ingenuity, essas pás chegaram a Mach 0,95 no ensaio — ou seja, a 95% da velocidade do som. Foto: NASA/JPL-Caltech

O que é um aerofólio, e por que a forma decide tudo

Aerofólio é o desenho do corte transversal de uma pá ou de uma asa: se você serrasse a pá ao meio e olhasse de frente, o contorno que aparece é o aerofólio.

Esse contorno é quem decide quanta sustentação a pá gera e quanto arrasto ela sofre ao atravessar o ar. Não é detalhe de acabamento — é o coração do negócio. Duas pás do mesmo tamanho, girando na mesma rotação, podem ter desempenhos completamente diferentes só por causa desse desenho.

A NASA descreve a roamx-0201 como mais fina e assimétrica que os aerofólios anteriores, com uma característica incomum: ela perturba o ar de propósito na borda da frente para gerar sustentação, e a agência diz que esse arranjo funciona melhor que os desenhos usados até agora nas condições marcianas.

O desenho não saiu da prancheta por tentativa e erro. Foi gerado por simulações de alta fidelidade e algoritmos ajustados especificamente para as condições de Marte — ar rarefeito, frio e de gás carbônico, nada parecido com o ar para o qual toda hélice do mundo foi pensada.

A barreira do som chega mais cedo em Marte

Aqui está o inimigo que quase ninguém imagina. Toda hélice tem um limite: a ponta da pá, que é a parte que gira mais rápido, não pode chegar perto da velocidade do som. Quando chega, o arrasto dispara de repente — o fenômeno tem nome, divergência de arrasto, e é o motivo pelo qual as pás de helicóptero não podem simplesmente girar mais rápido quando falta sustentação.

O problema é que em Marte a velocidade do som é mais baixa. As medições do rover Perseverance, publicadas em 2022, deram cerca de 240 metros por segundo para os sons graves e 250 metros por segundo para os agudos, contra aproximadamente 343 metros por segundo aqui na Terra. A causa é a atmosfera fina, gelada e feita quase só de gás carbônico — a temperatura média da superfície marciana é de 59 graus negativos.

Ou seja: o projetista marciano quer girar mais rápido para compensar a falta de ar, e o próprio planeta puxa o teto para baixo. O site tem um texto inteiro sobre esse resultado e seus parentes em Existe som no espaço? Por que ninguém ouve nada lá fora.

O quanto isso aperta dá para ver num ensaio anterior, de 2023: ao testar um rotor de nova geração na câmara de vácuo do JPL, os engenheiros subiram a rotação durante três semanas para ver se as pás aguentavam enquanto as pontas se aproximavam da velocidade do som. Elas chegaram a Mach 0,95 — 95% dessa velocidade — e o objetivo do teste era simplesmente descobrir se não se partiriam.

O ganho que a NASA atribui à pá nova é justamente aqui: ela aguenta velocidades mais altas antes de a divergência de arrasto aparecer. Em outras palavras, o teto subiu.

O outro inimigo: o estol

Estol é o que acontece quando a asa — ou a pá — é inclinada demais em relação ao ar que a atravessa. Até certo ângulo, inclinar mais gera mais sustentação. Passou desse ângulo, o ar deixa de acompanhar o contorno, se desprende, e a sustentação despenca de uma vez.

Para um helicóptero marciano, isso é vida ou morte. Em ar rarefeito, a pá trabalha o tempo todo perto do limite, e qualquer rajada ou manobra mais forte pode empurrá-la para o outro lado.

A NASA relata que, nas condições estudadas, as pás do Ingenuity perdiam desempenho de forma abrupta quando estolavam, enquanto a roamx-0201 se comporta muito melhor nessa hora. O resultado prático não é só voar mais longe: é poder voar numa faixa maior de ângulos sem risco, o que significa manobrar e enfrentar vento.

Quem fez, e onde isso foi testado

O estudo é do centro de pesquisa Ames, da NASA, no Vale do Silício, em parceria com o Imperial College London, no Reino Unido, e a Universidade de Nagoya, no Japão. Os resultados foram publicados em 22 de setembro deste ano numa revista do instituto americano de aeronáutica e astronáutica.

O caminho da verificação teve duas pernas: as tais simulações de computador e ensaios em túnel de vento, que é onde se descobre o que a simulação errou. A agência diz, com todas as letras, que os testes estão ajudando a fechar as diferenças entre o que o computador prevê e o que o ar faz de verdade.

E diz também o que falta: a tecnologia ainda não está pronta para Marte. Isso não é artigo de missão aprovada — é artigo de peça de missão futura.

O que já está marcado: três helicópteros em 2028

Enquanto a pá nova amadurece, existe uma missão com data. A SkyFall, com lançamento previsto para 2028, deve levar um trio de helicópteros a Marte, usando pás projetadas para a atmosfera fina do planeta — da mesma família do Ingenuity, não da roamx. A nave que leva esse trio é o assunto de O motor nuclear que vai levar 3 helicópteros a Marte.

A pesquisa das pás novas mira o que vem depois da SkyFall. É assim que funciona: a peça é testada em terra enquanto a missão anterior voa.

Marca Ingenuity Com a pá roamx-0201
Voo contínuo mais longo 0,7 km até 18,7 km (simulação)
Carga científica nenhuma instrumentos a bordo
Situação missão encerrada em 2024 em desenvolvimento

Vale repetir o que a tabela não diz: a coluna da direita é previsão de simulação, não voo feito. A da esquerda é história.

Por que 18 quilômetros mudariam a exploração de Marte

Um rover anda devagar e esbarra em tudo: pedra, areia fofa, ribanceira. Um helicóptero que cobre dezenove quilômetros de uma vez, levando instrumento, passa a ser outra coisa — um explorador que vai sozinho até onde o rover não chega e volta com dado.

O Ingenuity já tinha provado que dá para voar ali, mas em saltinhos: 72 voos, cerca de 17 quilômetros somados, nenhum deles longo. A conta que a NASA publica agora é de um único voo maior que a soma de toda a carreira dele.

Um drone capaz de voar de verdade em outro mundo não é ideia nova — está em construção para outro destino, como conta Dragonfly: o drone da NASA que vai voar em Titã. Só que lá o problema é outro: a atmosfera de Titã é espessa, e falta de ar não é o obstáculo. Em Marte, é o obstáculo inteiro.

Perguntas frequentes

Quanto um helicóptero consegue voar em Marte hoje?

O recorde prático é o do Ingenuity, que fez 72 voos entre abril de 2021 e janeiro de 2024 e somou cerca de 17 quilômetros no total, com voos curtos. A NASA usa 0,7 quilômetro como referência de voo contínuo mais longo ao comparar com os desenhos novos.

O que é a roamx-0201?

É o nome de um aerofólio, ou seja, do desenho do corte da pá, criado por pesquisadores da NASA e de universidades do Reino Unido e do Japão. Ele é mais fino e assimétrico que os anteriores e, nas simulações, permitiria voos marcianos de até 18,7 quilômetros carregando instrumentos.

Por que é tão difícil voar em Marte?

Porque o ar tem pouco mais de 1% da densidade do ar da Terra, e uma hélice só gera sustentação empurrando ar. Além disso, a velocidade do som em Marte é mais baixa que aqui, o que limita a rotação das pás antes que o arrasto dispare.

Essa pá nova já vai para Marte?

Não. A própria NASA diz que a tecnologia ainda não está pronta para voar. A missão com data é a SkyFall, prevista para lançar em 2028 com três helicópteros, e ela usa pás da geração anterior. Cronogramas espaciais mudam com frequência.

Qual é a velocidade do som em Marte?

Cerca de 240 metros por segundo para sons graves e 250 metros por segundo para os agudos, segundo as medições do rover Perseverance publicadas em 2022. Na Terra, é de aproximadamente 343 metros por segundo. A diferença entre graves e agudos é um efeito da atmosfera de gás carbônico.

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