Marte e vida fora da Terra

Quatro pessoas passaram um ano fingindo estar em Marte

Quatro voluntários da NASA viveram 378 dias isolados num habitat impresso em 3D, em Houston. Eles saem em 31 de outubro. Veja o que o teste mediu.

Publicado em 7 min de leitura
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Os quatro tripulantes da missão CHAPEA 2, de macacão escuro, posando lado a lado diante da escotilha do habitat
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. O que é a CHAPEA, em uma frase
  2. Quem está lá dentro
  3. A regra que muda tudo: a conversa demora
  4. Por que o atraso é o experimento, não o cenário
  5. O que se planta num lugar fechado
  6. O que a simulação não consegue simular
  7. O que acontece em 31 de outubro

No dia 19 de outubro de 2025, quatro voluntários entraram num prédio do Centro Espacial Johnson, em Houston, e a porta se fechou. Eles passaram um ano inteiro fingindo que estavam em Marte: plantando comida, racionando água e energia, vestindo traje para "sair na superfície" e esperando até 45 minutos pela resposta de cada mensagem. A simulação de Marte da NASA se chama CHAPEA, e a tripulação sai no dia 31 de outubro de 2026. Este texto conta o que eles fizeram lá dentro e por que isso custa o dinheiro que custa.

O que é a CHAPEA, em uma frase

CHAPEA é a sigla em inglês de Crew Health and Performance Exploration Analog — algo como "teste equivalente de saúde e desempenho da tripulação". A palavra que importa é análogo: é um experimento montado na Terra para imitar, o mais perto possível, uma condição que ainda não dá para visitar.

O habitat tem 1.700 pés quadrados, ou cerca de 158 metros quadrados — o tamanho de um apartamento grande, para quatro adultos, por um ano, sem sair. Ele foi impresso em 3D, com áreas separadas para morar e para trabalhar, e fica dentro de um galpão em Houston, com uma área de areia do lado de fora que faz o papel da superfície marciana.

Esta é a segunda missão da série. A primeira durou de 25 de junho de 2023 a 6 de julho de 2024. A segunda, que termina agora, foi planejada para 378 dias.

Quem está lá dentro

A tripulação tem quatro pessoas, cada uma com uma função:

Tripulante Função na missão
Ross Elder comandante
Ellen Ellis oficial médica
Matthew Montgomery oficial de ciência
James Spicer engenheiro de voo

São voluntários de pesquisa, não astronautas de voo. O que eles entregam à NASA não é uma façanha: é dado. Peso, sono, humor, desempenho em tarefas, como o corpo e a cabeça reagem a um ano de rotina apertada com as mesmas três pessoas.

Três tripulantes rindo enquanto um deles, sentado numa cadeira envolta em plástico transparente, recebe um corte de cabelo dentro do habitat
11 de janeiro de 2026: o comandante Ross Elder corta o cabelo com a oficial médica Ellen Ellis (à esquerda) e o oficial de ciência Matthew Montgomery (à direita). Numa missão real a Marte, não existe a opção de chamar outra pessoa. Foto: NASA/JSC

A regra que muda tudo: a conversa demora

Em órbita da Terra, astronauta conversa com o controle quase como quem fala ao telefone. Em Marte, não. O sinal viaja na velocidade da luz, que é rapidíssima aqui dentro e lenta quando a distância é planetária.

A distância entre a Terra e Marte muda o tempo todo, porque os dois estão girando em torno do Sol em velocidades diferentes. Pela ficha de Marte do Centro Nacional de Dados de Ciência Espacial da NASA, ela vai de 54,6 milhões de quilômetros, no melhor caso, a 401,4 milhões, no pior. Dividindo pela velocidade da luz:

Situação Distância Mensagem de ida Ida e volta
Marte o mais perto possível 54,6 milhões de km 3,0 minutos 6,1 minutos
Marte o mais longe possível 401,4 milhões de km 22,3 minutos 44,6 minutos

Ou seja: no pior momento, você manda uma pergunta, ela demora 22 minutos para chegar, e a resposta mais rápida fisicamente possível volta outros 22 minutos depois. Quase 45 minutos entre a pergunta e a resposta: um tempo inteiro de jogo de futebol. Se você mandar a mensagem no apito inicial, a resposta chega no intervalo.

Vale uma observação de honestidade. O comunicado da NASA sobre a missão descreve atrasos "de até 45 minutos em cada sentido". A conta acima, feita com a distância publicada pela própria agência, mostra que 45 minutos é o tempo de ida e volta; cada sentido chega no máximo a uns 22 minutos. A espera total que o leitor imagina continua sendo a mesma, mas o número de cada perna é a metade. A conta planeta a planeta está em Quanto tempo o sinal leva da Terra até cada planeta?.

Dentro do habitat, isso tem uma consequência dura: durante um ano, os quatro falaram com a família só por e-mail, e com esse atraso embutido. Nada de ligação, nada de chamada de vídeo, nada de resposta na hora.

Por que o atraso é o experimento, não o cenário

É tentador achar que o atraso é só um detalhe de realismo. Não é: ele é uma das coisas que a NASA está ali para medir.

Com dezenas de minutos de espera, o controle da missão em Houston deixa de ser quem decide. Se um equipamento falha, quem resolve é a tripulação, com o que tem à mão, agora. A agência chama isso de autonomia, e diz que os dados da CHAPEA devem ajudar a construir sistemas de apoio à decisão para tripulações nessa situação.

Michael Stenger, cientista-chefe do Programa de Pesquisa Humana da NASA, resume assim o valor da missão: ela está começando a ensinar o que é preciso para missões de um ano, incluindo cuidado médico e psicológico através de atrasos de comunicação.

O que se planta num lugar fechado

Comida é peso, e peso é foguete. Levar da Terra tudo o que quatro pessoas comem em alguns anos é caro de um jeito que muda o projeto inteiro da missão — o mesmo raciocínio de Dá para plantar comida no espaço?.

Por isso a tripulação cultivou alimentos no próprio habitat, num sistema hidropônico — plantas que crescem com as raízes na água com nutrientes, sem terra. Em junho de 2026, eles fotografaram o resultado: pimentas vermelhas maduras penduradas sob lâmpadas roxas de cultivo.

Pés de pimenta carregados de pimentas vermelhas crescendo em bandejas sob uma barra de luzes roxas de cultivo
As pimentas colhidas no sistema hidropônico do habitat, em 10 de junho de 2026. A luz roxa é a mistura de vermelho e azul que a planta aproveita melhor; o verde ela reflete, e é por isso que folha é verde. Foto: NASA/JSC

A NASA diz que quer entender, com esses dados, como sistemas limitados de comida e de exercício afetam a capacidade da tripulação de cumprir os objetivos da missão — inclusive as caminhadas na superfície.

O que a simulação não consegue simular

Aqui é preciso ser honesto com o leitor, porque a palavra "simulação" esconde o que ficou de fora.

Em Houston, a gravidade é a da Terra. Em Marte, uma pessoa pesaria pouco mais de um terço do que pesa aqui, e isso mexe com osso e músculo de um jeito que nenhum galpão reproduz. A radiação também é a daqui, filtrada pela atmosfera e pelo campo magnético do planeta; no espaço entre os planetas ela é outra história, contada em Quanta radiação um astronauta recebe de verdade?.

E há o mais importante: em Houston, a porta abre. Se alguém quebrar uma perna ou tiver um problema de saúde sério, uma equipe entra. Numa missão real, o hospital mais próximo está a meses de viagem e a nave não dá meia-volta quando quer — as janelas de lançamento mandam, como explica Quanto tempo leva para chegar a Marte.

O que a CHAPEA testa de verdade, então, é a parte humana e operacional: convivência, rotina, decisão sem ajuda, comida contada, tédio. Que é justamente a parte que nenhum simulador de computador resolve.

O que acontece em 31 de outubro

A tripulação sai do habitat no sábado, 31 de outubro de 2026, numa cerimônia que a NASA vai transmitir. Eles reveem a família — pela primeira vez em mais de um ano sem conversa ao vivo — e começam duas semanas de avaliações e entrevistas com os cientistas da agência.

É nessa fase que a missão vira ciência. Grace Douglas, a pesquisadora principal da CHAPEA, disse que a equipe está orgulhosa do compromisso da tripulação ao longo do ano. O valor, porém, não está no feito em si: está nos exames, nos questionários e nos registros de desempenho que serão comparados com os da missão anterior e com os de astronautas de verdade, como os de Os recordes de permanência no espaço (e o que o corpo sofre).

Nenhum desses quatro vai a Marte. O que eles entregam é um ano de dados que ninguém tinha — e que, quando alguém for, vai estar embutido no projeto da nave, no cardápio e no manual de como se faz quando a resposta demora 45 minutos.

Perguntas frequentes

O que é a CHAPEA da NASA?

É uma série de missões análogas em que voluntários vivem, por cerca de um ano, num habitat fechado de 158 metros quadrados impresso em 3D, no Centro Espacial Johnson, em Houston, imitando as condições de uma estadia na superfície de Marte. A primeira missão foi de junho de 2023 a julho de 2024; a segunda começou em 19 de outubro de 2025 e termina em 31 de outubro de 2026.

Quanto tempo demora uma mensagem entre a Terra e Marte?

Depende de onde os dois planetas estão. Pela distância publicada pela NASA, a viagem de ida leva de cerca de 3 a 22 minutos. Como você precisa esperar a resposta, o tempo entre a pergunta e a resposta vai de aproximadamente 6 a 45 minutos.

Os voluntários da CHAPEA são astronautas?

Não. São voluntários de pesquisa selecionados pela NASA, com formação técnica e científica, que entram no habitat como voluntários de um estudo. O objetivo da missão é coletar dados de saúde e desempenho, não treinar tripulação de voo.

Eles podiam falar com a família?

Só por mensagem escrita, e com o atraso de comunicação de Marte embutido. Não houve ligação nem chamada de vídeo durante o ano inteiro.

O que a simulação não consegue reproduzir?

A gravidade reduzida de Marte, a radiação do espaço e a impossibilidade de socorro. O habitat fica na Terra, então o corpo continua sob gravidade terrestre e protegido pela atmosfera, e uma emergência médica grave pode ser atendida de fora.

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