Curiosidades

Os recordes de permanência no espaço (e o que o corpo sofre)

437 dias seguidos, 1.111 dias acumulados: quem são os recordistas de tempo no espaço e o que a microgravidade faz com ossos, músculos, olhos, coração e DNA.

Publicado em 6 min de leitura
Astronauta no módulo Tranquility da Estação Espacial, onde ficam a esteira e a máquina de musculação
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. Os recordes
  2. O que a microgravidade faz, sistema por sistema
  3. O estudo dos gêmeos
  4. E depois de dois ou três anos?
  5. Vale a pena?

O corpo humano evoluiu por milhões de anos sob a gravidade da Terra. Tire essa gravidade, e ele começa a se desfazer devagar: ossos que se dissolvem, músculos que encolhem, olhos que mudam de formato. Mesmo assim, algumas pessoas passaram mais de um ano seguido em órbita, e uma passou mais de três anos somando missões. Aqui estão os recordes de permanência no espaço, quem os detém e o que o corpo dessas pessoas sofreu, segundo os estudos que a NASA e a Rússia fizeram com elas.

Os recordes

Recorde Quem Quanto Quando
Missão única mais longa Valeri Polyakov (Rússia) 437 dias 1994 a 1995, na estação Mir
Tempo total acumulado Oleg Kononenko (Rússia) 1.111 dias em 5 missões Recorde batido em 2024
Missão única mais longa de um americano Frank Rubio 371 dias 2022 a 2023, na ISS
Missão única mais longa de uma mulher Christina Koch 328 dias 2019 a 2020, na ISS
Tempo acumulado de uma mulher Peggy Whitson (EUA) 675 dias em 4 missões Recorde batido em 2023
Missão mais longa não planejada Suni Williams e Butch Wilmore 286 dias 2024 a 2025, após falhas na nave Starliner

O caso de Polyakov é o mais impressionante: 14 meses seguidos na Mir, uma estação bem menos equipada que a ISS, com o objetivo declarado de provar que humanos podem aguentar uma viagem a Marte. Ele saiu da cápsula andando, contra as recomendações médicas, para demonstrar isso.

Frank Rubio não planejava bater recorde: sua missão era de seis meses, mas a Soyuz que o levaria de volta teve um vazamento de refrigerante em 2022 e a substituta só chegou meses depois. Williams e Wilmore foram para uma missão de oito dias e ficaram nove meses, pelo mesmo tipo de problema em outra nave.

O que a microgravidade faz, sistema por sistema

Ossos: 1% a 1,5% por mês

Na Terra, o esqueleto se refaz o tempo todo em resposta ao peso que carrega. Sem peso, o corpo entende que não precisa de tanto osso e começa a dissolvê-lo. A perda é de 1% a 1,5% da massa óssea por mês, concentrada nos quadris, na coluna e nas pernas. Uma missão de seis meses equivale a uma década de envelhecimento ósseo. O cálcio liberado vai para o sangue e para a urina, o que aumenta o risco de pedras nos rins.

As duas horas e meia de exercício diário com pesos, descritas em a rotina de um astronauta na ISS, reduzem a perda pela metade, mas não a eliminam. Um ano após o retorno, a maioria recupera a massa, mas a estrutura interna do osso nunca volta exatamente ao que era.

Músculos: até 20% em duas semanas

Sem resistência, os músculos das pernas e das costas atrofiam rápido: até 20% nos primeiros 5 a 11 dias sem exercício. Com exercício, a perda é menor, mas ainda relevante. Ao pousar, astronautas de missões longas não conseguem ficar de pé sozinhos e levam semanas para caminhar normalmente. O coração, que também é músculo, encolhe e fica mais esférico.

Olhos: a síndrome que preocupa a NASA

Cerca de 70% dos astronautas em missões longas apresentam alterações nos olhos: achatamento do globo ocular, inchaço do nervo óptico e mudança na visão, geralmente para hipermetropia. O nome é síndrome neuro-ocular associada ao voo espacial (SANS). A causa provável é o deslocamento de fluidos para a cabeça, que aumenta a pressão dentro do crânio. Na maioria, a visão volta ao normal em meses; em alguns, a mudança é permanente. É considerado o maior risco médico não resolvido para uma missão a Marte.

Astronauta pedalando em bicicleta ergométrica na Estação Espacial com equipamentos ao redor
Duas horas e meia de exercício por dia reduzem a perda óssea pela metade, mas nenhum astronauta volta de uma missão longa com o corpo intacto. Foto: NASA/JSC

Fluidos: o rosto inchado

No primeiro dia, cerca de 2 litros de fluido sobem das pernas para a cabeça. O rosto incha, as pernas afinam (o "efeito perna de galinha"), o nariz fica congestionado e o paladar embotado. O corpo interpreta o excesso de fluido na parte de cima como excesso total e elimina líquido pela urina. Os astronautas voltam à Terra desidratados e com menos sangue, o que causa tontura e desmaios ao ficar de pé.

Sistema imune e micróbios

O sistema imune fica menos eficiente, e vírus latentes, como o herpes, reativam em cerca de metade dos astronautas. Bactérias, por sua vez, ficam mais resistentes em microgravidade. Feridas cicatrizam mais devagar.

Radiação

A ISS fica dentro do campo magnético da Terra, mas ainda recebe cerca de 10 vezes mais radiação que a superfície. Em seis meses, um astronauta acumula a dose equivalente a centenas de radiografias de tórax. Isso aumenta o risco de câncer ao longo da vida em alguns pontos percentuais e é o fator que limita o número de missões de uma carreira. Fora da proteção da Terra, a caminho de Marte, a dose é maior, tema de quanto tempo leva para chegar a Marte.

Cérebro e equilíbrio

O ouvido interno, que usa a gravidade para perceber a posição da cabeça, para de funcionar como referência. O cérebro se adapta em dias, mas na volta precisa se readaptar: astronautas relatam que curvas parecem inclinar o mundo e que fechar os olhos no chuveiro causa queda. Exames mostram que o cérebro sobe fisicamente dentro do crânio e que a estrutura de algumas regiões muda, com efeitos ainda em estudo.

O estudo dos gêmeos

Entre 2015 e 2016, Scott Kelly passou 340 dias na ISS enquanto seu irmão gêmeo idêntico, Mark, também astronauta, ficou na Terra. A NASA comparou os dois em dez estudos simultâneos. Os achados:

  • Os telômeros de Scott, as pontas dos cromossomos que encurtam com a idade, ficaram mais longos no espaço e voltaram ao normal em dias na Terra. Ninguém sabe por quê.
  • A expressão de mais de mil genes mudou em órbita, a maioria relacionada a reparo de DNA, sistema imune e formação óssea. Cerca de 7% das mudanças persistiam seis meses após o retorno.
  • As habilidades cognitivas de Scott caíram levemente após o pouso e demoraram meses para se recuperar.
  • Houve espessamento da artéria carótida e sinais de inflamação, que regrediram.

Nada disso foi grave, mas mostrou que um ano em órbita deixa marcas moleculares mensuráveis.

E depois de dois ou três anos?

Ninguém sabe. O máximo contínuo é de 437 dias. Uma missão a Marte levaria de dois a três anos, com a maior parte em microgravidade ou na gravidade de 38% de Marte, sobre a qual não existe nenhum dado. Os médicos da NASA consideram três frentes críticas: a síndrome dos olhos, a radiação e a saúde mental em isolamento prolongado. Gravidade artificial, por rotação da nave, resolveria boa parte dos problemas, mas ainda não foi testada com humanos.

Vale a pena?

Os astronautas que bateram recordes dizem que sim, e a maioria voltou para novas missões. O corpo se recupera em grande parte, e cada missão longa gera dados que não existem de outra forma. Se você quer saber o que é preciso para chegar lá, veja quanto ganha um astronauta da NASA e como é a seleção, e para o extremo oposto, o que acontece em segundos sem proteção, o que acontece com o corpo no espaço sem traje.

Perguntas frequentes

Quem ficou mais tempo no espaço?

Em uma única missão, o russo Valeri Polyakov, com 437 dias seguidos na estação Mir entre 1994 e 1995. Em tempo acumulado, o russo Oleg Kononenko, com 1.111 dias em cinco missões, recorde alcançado em 2024.

O que acontece com o corpo no espaço por muito tempo?

Perda de 1% a 1,5% da massa óssea por mês, atrofia muscular, alterações nos olhos que podem afetar a visão, deslocamento de fluidos para a cabeça, enfraquecimento do sistema imune, exposição à radiação e mudanças na expressão de genes. A maioria dos efeitos regride meses após o retorno.

Qual americano ficou mais tempo no espaço?

Frank Rubio, com 371 dias seguidos entre 2022 e 2023, após a nave que o levaria de volta sofrer um vazamento. Em tempo acumulado, Peggy Whitson, com 675 dias.

Os astronautas envelhecem mais devagar no espaço?

Pela relatividade, um astronauta na ISS envelhece cerca de 0,01 segundo a menos por ano, um efeito desprezível. Biologicamente, é o contrário: ossos, músculos, artérias e sistema imune mostram sinais de envelhecimento acelerado em órbita, que regridem em grande parte na volta.

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