O corpo humano evoluiu por milhões de anos sob a gravidade da Terra. Tire essa gravidade, e ele começa a se desfazer devagar: ossos que se dissolvem, músculos que encolhem, olhos que mudam de formato. Mesmo assim, algumas pessoas passaram mais de um ano seguido em órbita, e uma passou mais de três anos somando missões. Aqui estão os recordes de permanência no espaço, quem os detém e o que o corpo dessas pessoas sofreu, segundo os estudos que a NASA e a Rússia fizeram com elas.
Os recordes
| Recorde | Quem | Quanto | Quando |
|---|---|---|---|
| Missão única mais longa | Valeri Polyakov (Rússia) | 437 dias | 1994 a 1995, na estação Mir |
| Tempo total acumulado | Oleg Kononenko (Rússia) | 1.111 dias em 5 missões | Recorde batido em 2024 |
| Missão única mais longa de um americano | Frank Rubio | 371 dias | 2022 a 2023, na ISS |
| Missão única mais longa de uma mulher | Christina Koch | 328 dias | 2019 a 2020, na ISS |
| Tempo acumulado de uma mulher | Peggy Whitson (EUA) | 675 dias em 4 missões | Recorde batido em 2023 |
| Missão mais longa não planejada | Suni Williams e Butch Wilmore | 286 dias | 2024 a 2025, após falhas na nave Starliner |
O caso de Polyakov é o mais impressionante: 14 meses seguidos na Mir, uma estação bem menos equipada que a ISS, com o objetivo declarado de provar que humanos podem aguentar uma viagem a Marte. Ele saiu da cápsula andando, contra as recomendações médicas, para demonstrar isso.
Frank Rubio não planejava bater recorde: sua missão era de seis meses, mas a Soyuz que o levaria de volta teve um vazamento de refrigerante em 2022 e a substituta só chegou meses depois. Williams e Wilmore foram para uma missão de oito dias e ficaram nove meses, pelo mesmo tipo de problema em outra nave.
O que a microgravidade faz, sistema por sistema
Ossos: 1% a 1,5% por mês
Na Terra, o esqueleto se refaz o tempo todo em resposta ao peso que carrega. Sem peso, o corpo entende que não precisa de tanto osso e começa a dissolvê-lo. A perda é de 1% a 1,5% da massa óssea por mês, concentrada nos quadris, na coluna e nas pernas. Uma missão de seis meses equivale a uma década de envelhecimento ósseo. O cálcio liberado vai para o sangue e para a urina, o que aumenta o risco de pedras nos rins.
As duas horas e meia de exercício diário com pesos, descritas em a rotina de um astronauta na ISS, reduzem a perda pela metade, mas não a eliminam. Um ano após o retorno, a maioria recupera a massa, mas a estrutura interna do osso nunca volta exatamente ao que era.
Músculos: até 20% em duas semanas
Sem resistência, os músculos das pernas e das costas atrofiam rápido: até 20% nos primeiros 5 a 11 dias sem exercício. Com exercício, a perda é menor, mas ainda relevante. Ao pousar, astronautas de missões longas não conseguem ficar de pé sozinhos e levam semanas para caminhar normalmente. O coração, que também é músculo, encolhe e fica mais esférico.
Olhos: a síndrome que preocupa a NASA
Cerca de 70% dos astronautas em missões longas apresentam alterações nos olhos: achatamento do globo ocular, inchaço do nervo óptico e mudança na visão, geralmente para hipermetropia. O nome é síndrome neuro-ocular associada ao voo espacial (SANS). A causa provável é o deslocamento de fluidos para a cabeça, que aumenta a pressão dentro do crânio. Na maioria, a visão volta ao normal em meses; em alguns, a mudança é permanente. É considerado o maior risco médico não resolvido para uma missão a Marte.

Fluidos: o rosto inchado
No primeiro dia, cerca de 2 litros de fluido sobem das pernas para a cabeça. O rosto incha, as pernas afinam (o "efeito perna de galinha"), o nariz fica congestionado e o paladar embotado. O corpo interpreta o excesso de fluido na parte de cima como excesso total e elimina líquido pela urina. Os astronautas voltam à Terra desidratados e com menos sangue, o que causa tontura e desmaios ao ficar de pé.
Sistema imune e micróbios
O sistema imune fica menos eficiente, e vírus latentes, como o herpes, reativam em cerca de metade dos astronautas. Bactérias, por sua vez, ficam mais resistentes em microgravidade. Feridas cicatrizam mais devagar.
Radiação
A ISS fica dentro do campo magnético da Terra, mas ainda recebe cerca de 10 vezes mais radiação que a superfície. Em seis meses, um astronauta acumula a dose equivalente a centenas de radiografias de tórax. Isso aumenta o risco de câncer ao longo da vida em alguns pontos percentuais e é o fator que limita o número de missões de uma carreira. Fora da proteção da Terra, a caminho de Marte, a dose é maior, tema de quanto tempo leva para chegar a Marte.
Cérebro e equilíbrio
O ouvido interno, que usa a gravidade para perceber a posição da cabeça, para de funcionar como referência. O cérebro se adapta em dias, mas na volta precisa se readaptar: astronautas relatam que curvas parecem inclinar o mundo e que fechar os olhos no chuveiro causa queda. Exames mostram que o cérebro sobe fisicamente dentro do crânio e que a estrutura de algumas regiões muda, com efeitos ainda em estudo.
O estudo dos gêmeos
Entre 2015 e 2016, Scott Kelly passou 340 dias na ISS enquanto seu irmão gêmeo idêntico, Mark, também astronauta, ficou na Terra. A NASA comparou os dois em dez estudos simultâneos. Os achados:
- Os telômeros de Scott, as pontas dos cromossomos que encurtam com a idade, ficaram mais longos no espaço e voltaram ao normal em dias na Terra. Ninguém sabe por quê.
- A expressão de mais de mil genes mudou em órbita, a maioria relacionada a reparo de DNA, sistema imune e formação óssea. Cerca de 7% das mudanças persistiam seis meses após o retorno.
- As habilidades cognitivas de Scott caíram levemente após o pouso e demoraram meses para se recuperar.
- Houve espessamento da artéria carótida e sinais de inflamação, que regrediram.
Nada disso foi grave, mas mostrou que um ano em órbita deixa marcas moleculares mensuráveis.
E depois de dois ou três anos?
Ninguém sabe. O máximo contínuo é de 437 dias. Uma missão a Marte levaria de dois a três anos, com a maior parte em microgravidade ou na gravidade de 38% de Marte, sobre a qual não existe nenhum dado. Os médicos da NASA consideram três frentes críticas: a síndrome dos olhos, a radiação e a saúde mental em isolamento prolongado. Gravidade artificial, por rotação da nave, resolveria boa parte dos problemas, mas ainda não foi testada com humanos.
Vale a pena?
Os astronautas que bateram recordes dizem que sim, e a maioria voltou para novas missões. O corpo se recupera em grande parte, e cada missão longa gera dados que não existem de outra forma. Se você quer saber o que é preciso para chegar lá, veja quanto ganha um astronauta da NASA e como é a seleção, e para o extremo oposto, o que acontece em segundos sem proteção, o que acontece com o corpo no espaço sem traje.




