É a pergunta que toda criança faz e todo adulto quer fazer: como os astronautas vão ao banheiro no espaço? E como tomam banho, escovam os dentes, cortam o cabelo? Sem gravidade, a água não escorre, o xixi não cai e nada fica no lugar. As soluções envolvem sucção, velcro, muito treino e uma máquina que transforma urina de ontem no café de hoje. Aqui está tudo, sem eufemismo.
O banheiro: sucção no lugar da gravidade
Na Terra, o vaso sanitário funciona com gravidade e água. No espaço, com fluxo de ar. O banheiro da Estação Espacial é uma cabine do tamanho de um armário, com ventiladores que puxam tudo para dentro dos coletores.
Para urinar, cada astronauta usa um funil pessoal conectado a uma mangueira com sucção. Homens e mulheres têm funis de formatos diferentes. Basta aproximar, e o fluxo de ar leva o líquido para um tanque.
Para as fezes, há um assento com uma abertura de apenas 10 centímetros de diâmetro, muito menor que um vaso comum. Precisão importa, e por isso os astronautas treinam em Houston em um vaso idêntico com uma câmera apontada para a abertura e um monitor à frente, para aprender a posição correta. No espaço, apoios para os pés e uma barra sobre as coxas mantêm a pessoa no lugar. Dentro do assento, um saco plástico recolhe o material; a sucção o mantém aberto e retira os odores. Ao terminar, o astronauta fecha o saco e o empurra para um contêiner que cabe cerca de 30 usos. Os contêineres vão para uma nave de carga que queima na atmosfera. Sim: algumas "estrelas cadentes" são isso.
O modelo atual do segmento americano, o Universal Waste Management System, custou 23 milhões de dólares e foi instalado em 2020. Ele é mais compacto, tem assento mais ergonômico e um sistema que pré-trata a urina com ácido para o reciclador.
A urina vira água potável
Aqui está a parte mais impressionante. Levar água para a órbita custa dezenas de milhares de dólares por litro, então a estação recicla cerca de 98% da água, incluindo a urina, o suor e a umidade do ar que a tripulação respira.
A urina passa por um destilador a vácuo que gira para simular gravidade, depois por filtros e por um reator catalítico que quebra compostos orgânicos. Desde 2023, um processador extra extrai água até da salmoura que sobrava. O resultado é água mais pura que a de muitas torneiras na Terra. Os astronautas brincam que o café de hoje é o café de ontem. A NASA responde que é exatamente isso e que o sistema é o protótipo do que uma missão a Marte vai precisar.

O banho: não existe
Não há chuveiro na ISS. Água solta em ausência de peso vira bolhas que flutuam, grudam em tudo e podem entrar nos equipamentos. O Skylab, nos anos 1970, tinha um chuveiro em forma de tubo dobrável, mas usá-lo levava mais de duas horas entre montar, ensaboar, aspirar cada gota e secar. Foi abandonado.
O banho atual é o banho de esponja: o astronauta espreme um pouco de água de um sachê sobre uma toalha ou direto na pele, onde ela fica grudada pela tensão superficial, passa um sabão que não precisa de enxágue e seca com outra toalha. O suor do exercício diário, que forma bolhas na pele em vez de escorrer, é retirado do mesmo jeito. Leva uns 10 minutos.
O cabelo é lavado com xampu sem enxágue, o mesmo usado em hospitais. Água na cabeça, xampu, massagem, pente, toalha. Cabelos longos ficam em pé, flutuando, e as astronautas costumam prendê-los. A umidade que evapora do banho é capturada pelo sistema de ar e vira, de novo, água potável.
Escovar os dentes
Pasta comum e escova comum, mas há um problema: não dá para cuspir. As opções são engolir a pasta, o que a maioria faz, ou cuspir em uma toalha. A água para enxaguar a boca vem de um sachê com canudo.
Barba e cabelo
Barbear-se é feito com aparelho elétrico acoplado a um pequeno aspirador, ou com lâmina e creme, limpando a lâmina em uma toalha para que os pelos não escapem. Cortar o cabelo usa a mesma lógica: uma máquina de cortar ligada a um aspirador que suga os fios cortados antes que flutuem para os filtros de ar. Os astronautas cortam o cabelo uns dos outros, e alguns ficam bons nisso.
Roupas: usa e joga fora
Não há máquina de lavar. Cada peça de roupa é usada até não dar mais: camisetas por uma semana, roupa de exercício por duas ou mais, cuecas por alguns dias, com a vantagem de que sem gravidade a roupa não gruda no corpo suado do mesmo jeito. Depois, vai para o lixo que queima na atmosfera. A NASA testa tecidos antimicrobianos e, em parceria com uma marca de sabão, uma fórmula para lavar roupa com pouca água, pensando em Marte.
Enjoo e outros detalhes
Nos primeiros dias, cerca de metade dos astronautas sente enjoo espacial, com vômito. Há sacos específicos para isso, com fecho e material absorvente. Espirrar exige cobrir o rosto, porque as gotículas viajam longe. E o famoso "os astronautas usam fralda?": sim, mas só durante o lançamento, a reentrada e as caminhadas espaciais, que podem durar oito horas dentro de um traje sem banheiro. O nome oficial é Maximum Absorbency Garment.
E na Lua e em Marte?
Com gravidade parcial, as coisas ficam mais fáceis: a água cai, ainda que devagar. Os trajes lunares do programa Artemis terão fraldas melhores, e os habitats terão vasos com sucção mas assento normal. A NASA lançou em 2020 um concurso público, o Lunar Loo Challenge, para projetar o banheiro lunar, e recebeu centenas de propostas. O que a rotina completa lá em cima envolve está em como é a rotina de um astronauta na ISS, e o que acontece com o corpo em meses de ausência de peso em os recordes de permanência no espaço.




