Os filmes mostram duas versões: a pessoa explode ou congela instantaneamente. As duas estão erradas. Um ser humano exposto ao vácuo do espaço não explode, não congela na hora e não morre em um segundo. Ele tem cerca de 15 segundos de consciência, um minuto e meio em que ainda pode ser salvo, e depois disso, não. Aqui está o que a fisiologia e um acidente real dizem que acontece, na ordem em que acontece.
Segundo 0: o ar sai dos pulmões
O primeiro problema não é o frio nem a radiação. É a pressão. No vácuo, o ar dentro dos pulmões, que está a 1 atmosfera, quer sair com violência. Se a pessoa prender a respiração, os pulmões se rompem, como acontece com mergulhadores que sobem rápido demais sem exalar. O instinto correto, e o que os manuais da NASA orientam, é soltar todo o ar imediatamente. Isso dói, mas salva os pulmões.
O mesmo vale para ouvidos, seios da face e intestino: gases se expandem e tentam sair. Nada rompe, mas é desconfortável.
Segundos 1 a 10: o corpo incha
Sem pressão externa, a água nos tecidos começa a evaporar à temperatura do corpo. Esse fenômeno se chama ebulismo. Não é fervura por calor; é a água virando vapor porque não há pressão para mantê-la líquida. Ocorre primeiro na pele, nas mucosas e nos tecidos moles.
O resultado é que o corpo incha, chegando a quase o dobro do volume em um minuto, principalmente nos membros. Mas não explode: a pele é elástica e forte o suficiente para conter o vapor. Nas câmaras de vácuo em que animais foram expostos nos anos 1960, o inchaço regredia completamente após a repressurização.
A saliva na língua borbulha. Essa é a sensação que o único humano a viver isso relatou.
Segundos 10 a 15: a consciência acaba
O sangue não ferve. O sistema circulatório é fechado e a pressão arterial mantém o sangue líquido. Mas o oxigênio no sangue faz o caminho inverso do normal: em vez de entrar pelos pulmões, sai por eles, sugado pelo vácuo. Em cerca de 10 segundos, o sangue que chega ao cérebro está sem oxigênio. Entre 10 e 15 segundos, a pessoa desmaia.
Isso é, de certa forma, uma bênção: o que vem depois acontece sem consciência.

Segundos 15 a 90: ainda dá para salvar
O coração continua batendo por mais um ou dois minutos. Experimentos com chimpanzés na década de 1960, feitos pela Força Aérea americana para preparar as missões Apollo, mostraram que animais expostos ao vácuo por até 90 segundos se recuperaram completamente após serem repressurizados, sem danos neurológicos duradouros. Acima de dois minutos, os danos são graves e, em três a quatro minutos, irreversíveis.
Ou seja, um astronauta que perdesse o traje perto de uma escotilha teria uma chance real se alguém o puxasse para dentro em um minuto.
E o frio?
Aqui está o segundo mito. O espaço é "frio", mas o vácuo é um péssimo condutor de calor. Na Terra, você perde calor para o ar e para o que toca. No espaço, não há ar. O corpo só perde calor por radiação infravermelha, um processo lento. Uma pessoa exposta demoraria horas para congelar.
Na sombra, a pele esfriaria devagar. Ao Sol, sem a proteção da atmosfera, a radiação ultravioleta causaria uma queimadura solar grave em segundos, a ponto de formar bolhas. Os olhos, sem a camada de lágrima, que evapora, seriam atingidos pela luz direta.
E a radiação?
Em uma exposição de segundos, a radiação cósmica e solar não é o problema: a dose seria pequena demais para causar efeito imediato. Ela só importaria em uma exposição de horas ou dias, ou durante uma tempestade solar.
O caso real: Jim LeBlanc, 1966
Em 14 de dezembro de 1966, o técnico Jim LeBlanc testava um traje espacial em uma câmara de vácuo do Centro Espacial Johnson, em Houston. Uma mangueira de pressurização se soltou e o traje perdeu a pressão em segundos, expondo-o a um vácuo quase total, equivalente a 36 km de altitude.
LeBlanc contou depois que sentiu a saliva borbulhar na língua e desmaiou em cerca de 14 segundos. Um colega abriu a câmara em 25 segundos, quebrando o protocolo que exigia 30 minutos de repressurização gradual. LeBlanc acordou já no chão, com uma dor de ouvido e nenhuma outra sequela. Voltou ao trabalho e viveu até 2020. É o único caso documentado de um ser humano exposto a um vácuo próximo do espacial que sobreviveu para contar.
Os casos que não sobreviveram
Em 30 de junho de 1971, a tripulação da Soyuz 11, três cosmonautas soviéticos, morreu quando uma válvula de ventilação abriu acidentalmente durante a reentrada, a 168 km de altitude, e a cabine perdeu a pressão em menos de dois minutos. Eles não usavam trajes pressurizados, por falta de espaço na cápsula. São as únicas pessoas que morreram no espaço, e não na atmosfera. Desde então, todas as tripulações de lançamento e reentrada usam trajes.
O que o traje faz
O traje espacial é essencialmente um balão em forma de gente. Ele mantém uma pressão interna de cerca de 0,3 atmosfera de oxigênio puro, o mínimo para respirar e evitar o ebulismo, escolhido baixo porque quanto maior a pressão, mais rígido e difícil de mover o traje fica. Tem camadas contra micrometeoritos, isolamento térmico, um sistema de refrigeração líquida costurado à roupa de baixo e o suporte de vida na mochila, com oxigênio para até 8 horas. Antes de uma caminhada espacial, os astronautas respiram oxigênio puro por horas para eliminar o nitrogênio do sangue e não sofrer o mesmo mal dos mergulhadores.
Resumo em uma linha
Sem traje, você tem 15 segundos lúcido, incha mas não explode, não congela, pode ser salvo até um minuto e meio, e morre por falta de oxigênio, não por frio nem por pressão. Se isso te deixou com mais curiosidade sobre a vida lá em cima, veja como astronautas tomam banho e vão ao banheiro e o que o corpo sofre em missões longas.




