Marte e vida fora da Terra

Quanto tempo leva para chegar a Marte

De 6 a 9 meses só de ida, e a viagem completa passa de dois anos. Por que demora, o que são as janelas de lançamento a cada 26 meses e como encurtar.

Publicado em 5 min de leitura
Planeta Marte visto do espaço, com a superfície alaranjada e a calota polar visível
Foto: NASA/JPL
Neste artigo
  1. Por que não dá para ir em linha reta
  2. As janelas de lançamento: a cada 26 meses
  3. A viagem completa: ida, estadia e volta
  4. O que a distância faz com a comunicação
  5. Dá para ir mais rápido?
  6. O que o corpo sofre nesse tempo
  7. Quando alguém vai fazer essa viagem

A distância entre a Terra e Marte varia de 55 milhões a 400 milhões de km, dependendo de onde cada planeta está em sua órbita. Mas nenhuma nave viaja em linha reta. A resposta prática: entre 6 e 9 meses só de ida, e uma missão tripulada completa levaria de dois a três anos. Aqui está o porquê, com os tempos reais das sondas que já foram, e o que pode mudar isso.

Por que não dá para ir em linha reta

A Terra orbita o Sol a 107 mil km/h e Marte, a 87 mil km/h. Uma nave que sai da Terra herda a velocidade dela. Para alcançar Marte, o jeito mais econômico é entrar em uma órbita elíptica ao redor do Sol que toca a órbita da Terra em um ponto e a de Marte no oposto. É a transferência de Hohmann, e ela leva cerca de 260 dias.

Dá para ir mais rápido gastando mais combustível, mas cada quilo de combustível a mais exige mais combustível para carregá-lo. Por isso as sondas seguem rotas próximas da Hohmann, com pequenos ajustes:

Missão Lançamento Chegada Duração
Mariner 4 (primeiro sobrevoo) 1964 1965 228 dias
Viking 1 1975 1976 304 dias
Curiosity 26 nov 2011 6 ago 2012 254 dias
MAVEN (orbitador) 2013 2014 308 dias
Perseverance 30 jul 2020 18 fev 2021 203 dias
Tianwen-1 (China) 23 jul 2020 10 fev 2021 (órbita) 202 dias
Hope (Emirados) 19 jul 2020 9 fev 2021 205 dias

O Perseverance fez uma das viagens mais rápidas, com 203 dias, porque a janela de 2020 foi particularmente favorável.

As janelas de lançamento: a cada 26 meses

Como os dois planetas se movem, o alinhamento certo para a transferência de Hohmann só acontece a cada 26 meses, em um período de algumas semanas. Perder a janela significa esperar mais de dois anos. Foi o que aconteceu com o rover europeu Rosalind Franklin, adiado de 2020 para 2022 e depois para 2028.

As janelas recentes e próximas:

  • Julho e agosto de 2020: três missões partiram (Perseverance, Tianwen-1 e Hope).
  • Setembro a outubro de 2022: nenhuma missão principal, por atrasos.
  • Outubro e novembro de 2024: a janela em que a missão ESCAPADE da NASA deveria partir; acabou lançada em novembro de 2025 em uma rota alternativa mais longa.
  • Novembro e dezembro de 2026: a janela atual, para a qual a SpaceX anunciou a intenção de enviar Starships sem tripulação, um plano que analisamos em o plano da SpaceX para colonizar Marte é possível?.
  • Fim de 2028 e início de 2029: próxima janela, alvo do rover Rosalind Franklin e da missão chinesa Tianwen-3 de retorno de amostras.

Nave espacial com painéis solares em trajetória pelo espaço rumo a Marte, em ilustração
As sondas seguem uma rota elíptica ao redor do Sol que leva de 6 a 9 meses. Ir em linha reta exigiria combustível que nenhum foguete carrega. Foto: NASA/JPL-Caltech

A viagem completa: ida, estadia e volta

Aqui a conta cresce. Depois de chegar, a tripulação não pode voltar quando quiser: precisa esperar a Terra e Marte se alinharem de novo para a viagem de retorno. Há dois tipos de missão:

Missão de conjunção (longa estadia). Cerca de 6 a 9 meses de ida, 500 dias em Marte esperando o alinhamento, e 6 a 9 meses de volta. Total: cerca de 900 a 1.000 dias, quase três anos. É o plano preferido da NASA, porque a estadia longa permite mais ciência e a trajetória exige menos energia.

Missão de oposição (curta estadia). Ida de 6 meses, 30 a 60 dias em Marte, e uma volta longa de até 11 meses, passando perto de Vênus para ganhar impulso. Total: cerca de 640 dias, quase dois anos. Menos tempo total, mas mais tempo no espaço profundo, com mais exposição à radiação e à microgravidade, e a passagem por Vênus aproxima a nave do Sol.

Nos dois casos, é uma ausência da Terra de dois a três anos, sem possibilidade de resgate e sem reabastecimento.

O que a distância faz com a comunicação

A luz leva de 3 a 22 minutos para ir da Terra a Marte, dependendo da posição dos planetas. Uma conversa por rádio tem atraso de ida e volta de até 44 minutos. Não há como controlar um veículo em tempo real, e a tripulação precisa resolver emergências sozinha. Além disso, a cada 26 meses o Sol fica entre os dois planetas por cerca de duas semanas, a conjunção solar, e a comunicação é interrompida.

Dá para ir mais rápido?

Sim, e há três caminhos em estudo:

Propulsão nuclear térmica. Um reator aquece hidrogênio e o expele, com eficiência duas vezes maior que a dos foguetes químicos. A NASA e a agência de defesa americana DARPA desenvolviam o demonstrador DRACO, com voo previsto para o fim da década, embora o projeto tenha sofrido cortes. Poderia reduzir a ida para 3 a 4 meses.

Propulsão nuclear elétrica. Um reator gera eletricidade para motores iônicos potentes, com empuxo pequeno mas contínuo. Mais eficiente ainda, mas lenta para acelerar; serviria para cargas, não para gente.

Mais combustível, menos economia. O Starship da SpaceX, com reabastecimento em órbita, poderia sair da Terra com muito mais velocidade que uma sonda convencional. A empresa fala em viagens de 80 a 150 dias. É possível em teoria, ao custo de dezenas de lançamentos de reabastecimento por viagem.

Nenhuma dessas tecnologias está pronta para tripulação. Para as missões das próximas duas décadas, a estimativa realista continua sendo de 6 a 9 meses.

O que o corpo sofre nesse tempo

Seis meses de microgravidade, os astronautas já enfrentam na Estação Espacial, e o efeito é conhecido: perda óssea, atrofia muscular, problemas de visão e no coração. Contamos em os recordes de permanência no espaço e o que o corpo sofre. A diferença em Marte é a radiação: sem a proteção do campo magnético da Terra, a dose de uma missão completa é estimada em cerca de 1 sievert, o suficiente para elevar o risco de câncer ao longo da vida em alguns pontos percentuais, e há o risco de uma tempestade solar forte durante a viagem, tema de tempestade solar pode derrubar a internet?.

Quando alguém vai fazer essa viagem

A NASA fala na década de 2040, depois de aprender a viver na Lua com o programa Artemis, cujos passos estão em Artemis III: quando vamos pisar na Lua de novo. A SpaceX fala em antes de 2030. A China fala em 2033 para uma primeira missão tripulada. Nenhuma dessas datas tem financiamento e tecnologia garantidos hoje, mas pela primeira vez há três atores sérios com planos concretos.

Perguntas frequentes

Quanto tempo leva para ir da Terra a Marte?

Entre 6 e 9 meses com a tecnologia atual, dependendo do alinhamento dos planetas e da trajetória. O Perseverance levou 203 dias; o Curiosity, 254.

Por que só dá para ir a Marte a cada dois anos?

Porque a Terra e Marte só ficam na posição ideal para a trajetória mais econômica a cada 26 meses. Fora desse período, a viagem exigiria muito mais combustível ou levaria muito mais tempo.

Quanto tempo duraria uma missão tripulada a Marte?

De dois a três anos no total, contando ida, estadia e volta. Uma missão de longa estadia teria cerca de 500 dias em Marte; uma de curta estadia, 30 a 60 dias, com viagem de volta mais longa.

Qual é a distância da Terra a Marte?

Varia de cerca de 55 milhões de km, na maior aproximação, a 400 milhões de km, quando estão em lados opostos do Sol. A distância média é de 225 milhões de km.

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