Em 1995 conhecíamos zero planetas fora do Sistema Solar. Em 2026, são mais de 6 mil confirmados, e alguns deles têm tamanho, temperatura e estrela parecidos o bastante com os nossos para merecer o apelido de "segunda Terra". Nenhum é uma cópia: não sabemos se têm atmosfera, água ou continentes. Mas são os melhores lugares para procurar. Aqui estão os candidatos mais fortes, o que sabemos de cada um e como os cientistas medem essa "semelhança".
O que significa "parecido com a Terra"
Três critérios definem a lista:
- Tamanho e massa entre 0,8 e 1,5 vezes a Terra, o que indica um planeta rochoso, não um gigante gasoso nem um mundo de gelo.
- Zona habitável: a órbita fica na faixa de distância da estrela em que a água pode existir em estado líquido na superfície, com atmosfera adequada.
- Estrela estável: de preferência parecida com o Sol, ou pelo menos calma o bastante para não esterilizar o planeta com erupções.
Um índice chamado ESI (Earth Similarity Index) combina raio, densidade, velocidade de escape e temperatura, indo de 0 a 1. A Terra tem 1; Marte, 0,7; Vênus, 0,44. Os planetas abaixo passam de 0,85.
Proxima Centauri b: o vizinho
Distância: 4,2 anos-luz, o exoplaneta mais próximo que existe. Massa: pelo menos 1,07 Terras. Órbita: 11 dias.
Descoberto em 2016 em torno da estrela mais próxima do Sol, uma anã vermelha pequena e fria. Está na zona habitável, mas com dois problemas: Proxima Centauri solta erupções violentas que podem ter arrancado a atmosfera do planeta, e a proximidade da estrela provavelmente travou a rotação, deixando um lado sempre de dia e outro sempre de noite. Se tiver atmosfera densa, o calor se distribuiria e a faixa do crepúsculo seria habitável. É o alvo óbvio de qualquer futura sonda interestelar, e o sinal de rádio BLC1, que veio da direção dessa estrela e se revelou interferência, está contado em sinais de alienígenas: o que a ciência já captou.
TRAPPIST-1e: o mais estudado
Distância: 40 anos-luz. Raio: 0,92 Terras. Órbita: 6 dias.
O sistema TRAPPIST-1 tem sete planetas rochosos ao redor de uma anã vermelha ultrafria, três deles na zona habitável. O planeta e é o mais promissor: densidade parecida com a da Terra, temperatura de equilíbrio adequada para água líquida e uma estrela menos violenta que Proxima. O James Webb já mostrou que os planetas internos b e c não têm atmosfera densa, e as observações do e, em andamento, são as mais aguardadas da astronomia de exoplanetas. Resultados preliminares de 2025 não descartam uma atmosfera de nitrogênio, como a da Terra.

Kepler-452b: a "prima" da Terra
Distância: 1.400 anos-luz. Raio: 1,6 Terras. Órbita: 385 dias.
Anunciado pela NASA em 2015 como o planeta mais parecido com a Terra até então, porque a estrela é quase idêntica ao Sol, um pouco mais velha, e o ano dura quase o mesmo que o nosso. O ponto fraco é o tamanho: com 1,6 raios terrestres, pode ser rochoso com gravidade dobrada ou um pequeno mundo gasoso. Está longe demais para estudar a atmosfera com a tecnologia atual.
Kepler-186f: o primeiro do tamanho certo
Distância: 580 anos-luz. Raio: 1,17 Terras. Órbita: 130 dias.
O primeiro planeta do tamanho da Terra encontrado na zona habitável, em 2014. Orbita uma anã vermelha e recebe cerca de um terço da luz que a Terra recebe do Sol, então seria mais frio, com o meio-dia parecido com o fim de tarde daqui. Um marco histórico, mas também longe demais para análise detalhada.
LHS 1140 b: o mundo oceânico
Distância: 48 anos-luz. Raio: 1,7 Terras. Órbita: 25 dias.
Em 2024, o James Webb indicou que este planeta pode ser um mundo coberto de água, com uma atmosfera rica em nitrogênio e um oceano global. Modelos sugerem que a face voltada para a estrela poderia ter um "olho" de água líquida com cerca de 4.000 km de diâmetro em meio ao gelo. Sua estrela é calma, o que preserva a atmosfera. Para muitos astrônomos, é hoje o candidato mais promissor a planeta habitável fora do Sistema Solar.
Outros que merecem menção
- Teegarden b (12 anos-luz, 1,05 massas terrestres): tem o ESI mais alto já calculado, 0,95, mas orbita uma anã vermelha tão fraca que nem foi possível medir seu raio.
- TOI-700 d e e (100 anos-luz): dois planetas do tamanho da Terra na zona habitável da mesma estrela, encontrados pelo telescópio TESS em 2020 e 2023.
- Gliese 12 b (40 anos-luz, 1,0 raios terrestres): descoberto em 2024, com temperatura estimada em 42 °C se não tiver atmosfera. Um dos poucos do tamanho exato da Terra perto o bastante para o Webb estudar.
- Kepler-442b (1.200 anos-luz): considerado por alguns estudos o planeta com maior probabilidade de ser habitável entre os conhecidos, mas distante demais.
- K2-18b (124 anos-luz): não é parecido com a Terra, tem 2,6 raios terrestres e provavelmente um oceano sob atmosfera de hidrogênio, mas entrou no debate por causa da possível detecção de moléculas associadas à vida, contada em as descobertas do James Webb.
Por que quase todos orbitam anãs vermelhas
Não é porque essas estrelas sejam melhores para a vida. É porque são mais fáceis de observar: pequenas e fracas, seus planetas causam quedas de brilho maiores ao passar na frente e ficam em órbitas curtas, repetindo o trânsito com frequência. O preço é que anãs vermelhas soltam erupções e mantêm os planetas tão perto que a rotação trava. Planetas em torno de estrelas como o Sol existem aos milhares, mas são bem mais difíceis de detectar e de estudar.
O que falta para chamar algum de "habitável"
Tudo depende da atmosfera. Um planeta do tamanho da Terra na zona habitável pode ser um deserto sem ar, uma Vênus sufocante ou um oásis. O James Webb consegue detectar atmosferas nos planetas mais próximos, mas com dificuldade. A resposta definitiva virá de telescópios projetados para isso: o Extremely Large Telescope europeu, no Chile, com espelho de 39 metros, previsto para o fim da década, e o Habitable Worlds Observatory da NASA, para a década de 2040, capaz de fotografar diretamente planetas parecidos com a Terra e buscar oxigênio, metano e água em suas atmosferas.
Até lá, os planetas desta lista são os melhores lugares do universo conhecido para a pergunta que ainda não respondemos nem em Marte, como mostramos em tem vida em Marte?: estamos sozinhos?




