Medos e assuntos virais

Tempestade solar pode derrubar a internet e a energia?

O que uma tempestade solar faz com satélites, redes elétricas e cabos submarinos, o que aconteceu em 1859, 1989 e 2024, e como o Brasil seria afetado.

Publicado em 6 min de leitura
Grande erupção solar vista em ultravioleta, com um filamento de plasma se soltando do Sol
Foto: NASA/GSFC/Solar Dynamics Observatory
Neste artigo
  1. O que é uma tempestade solar
  2. Os casos que definem o risco
  3. O que uma tempestade extrema faria hoje
  4. Qual é a chance
  5. O que está sendo feito
  6. O que você pode fazer

"Tempestade solar pode causar apocalipse da internet." A manchete aparece toda vez que o Sol solta uma erupção maior, e em maio de 2024 ela apareceu bastante, quando a Terra sofreu a tempestade geomagnética mais forte em 20 anos. E não aconteceu nada com a sua internet. Então é tudo exagero? Não exatamente. O risco de uma tempestade extrema para satélites e redes elétricas é real e estudado. Aqui está o que ela pode e não pode fazer, com base no que já aconteceu.

O que é uma tempestade solar

O Sol lança o tempo todo um fluxo de partículas, o vento solar. Às vezes, uma região magneticamente ativa solta uma erupção (flare), um clarão de raios X que chega à Terra em 8 minutos, e uma ejeção de massa coronal (CME), uma bolha de bilhões de toneladas de plasma que chega em um a três dias.

Quando a CME atinge o campo magnético da Terra, ele se comprime e vibra. Isso induz correntes elétricas no solo, na atmosfera e em qualquer condutor longo, como linhas de transmissão e oleodutos. É a tempestade geomagnética. A agência americana NOAA classifica a intensidade de G1 (fraca) a G5 (extrema).

Os casos que definem o risco

Evento Carrington, 1859. A tempestade mais forte já registrada. Auroras foram vistas em Cuba, na Colômbia e no Havaí. Os únicos sistemas elétricos da época, as linhas de telégrafo, soltaram faíscas, incendiaram papéis e continuaram funcionando com a bateria desligada, alimentadas só pela corrente induzida. Se acontecesse hoje, seria o cenário de pior caso.

Quebec, 1989. Uma tempestade G5 induziu correntes na rede elétrica da Hydro-Québec, no Canadá. Relés de proteção dispararam em cascata e 6 milhões de pessoas ficaram sem luz por 9 horas, em pleno inverno. Transformadores nos Estados Unidos foram danificados. Foi o alerta que fez o setor elétrico levar o assunto a sério.

Tempestades de Halloween, 2003. Uma sequência de tempestades G5 causou apagão de uma hora na Suécia, danificou transformadores na África do Sul, forçou aviões a desviar de rotas polares e desativou um satélite japonês.

Starlink, fevereiro de 2022. Uma tempestade apenas moderada, G1 a G2, aqueceu e inflou a alta atmosfera. Trinta e oito satélites Starlink recém-lançados, ainda em órbita baixa, sofreram arrasto excessivo e caíram. Prejuízo estimado em 50 milhões de dólares.

Tempestade Gannon, maio de 2024. A primeira G5 desde 2003. Auroras foram fotografadas até no norte do México, na Argentina e, de forma inédita em décadas, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Alguns satélites entraram em modo seguro, o GPS agrícola teve erros de posição que atrasaram o plantio no meio-oeste americano e a Starlink relatou degradação temporária. Nenhuma rede elétrica caiu, resultado das proteções adotadas depois de 1989.

Aurora boreal verde e roxa vista da Estação Espacial Internacional sobre a Terra
Auroras são a face visível das tempestades geomagnéticas: partículas do Sol colidindo com a atmosfera. Em tempestades extremas, aparecem em latitudes muito baixas. Foto: NASA/JSC

O que uma tempestade extrema faria hoje

Redes elétricas: o maior risco

Correntes induzidas no solo entram nas linhas de alta tensão e saturam os grandes transformadores, que superaquecem. Transformadores de ultra-alta tensão custam milhões, pesam centenas de toneladas e levam de um a dois anos para ser fabricados. Um estudo da Lloyd's estimou que um evento Carrington poderia deixar 20 a 40 milhões de americanos sem luz por semanas ou meses, com prejuízo de trilhões de dólares.

Mas há dois pontos importantes. Primeiro, as operadoras hoje recebem alertas com um a três dias de antecedência e podem reduzir a carga, desligar linhas vulneráveis e preparar reservas. Segundo, o risco é muito maior em altas latitudes (Canadá, norte dos EUA, Escandinávia, Rússia) e em regiões com rocha muito resistiva. O Brasil, perto do equador, está em uma posição geograficamente favorável para a rede elétrica.

Satélites e GPS

Aqui o Brasil tem um problema específico: a Anomalia Magnética do Atlântico Sul, uma região sobre o Brasil e o Atlântico onde o campo magnético é mais fraco e as partículas chegam mais perto da superfície. Satélites que sobrevoam o país já sofrem mais falhas eletrônicas que em outras regiões, e em tempestades isso piora.

O GPS também é afetado: a ionosfera perturbada atrasa e distorce os sinais, e no Brasil isso é intenso porque estamos na região equatorial, onde as bolhas de plasma ionosférico são comuns. Agricultura de precisão, aviação e navegação marítima sentem os erros. Explicamos como o sistema funciona em como o GPS sabe onde você está.

A internet

Este é o ponto mais mal explicado nas manchetes. A tempestade não afeta o seu roteador, o Wi-Fi ou a fibra óptica da sua rua. Fibra óptica transmite luz, não corrente. O que a tempestade pode afetar:

  1. Cabos submarinos. A fibra em si é imune, mas os repetidores instalados a cada 50 a 150 km ao longo do cabo são alimentados por corrente elétrica em um condutor de cobre que atravessa oceanos inteiros. Um estudo de 2021 da pesquisadora Sangeetha Abdu Jyothi apontou que uma tempestade extrema poderia danificar esses repetidores e desconectar continentes por semanas. É uma hipótese plausível, não testada: nenhum cabo moderno passou por um evento Carrington.
  2. Satélites de internet. Starlink e similares podem perder satélites e ter serviço degradado, como em 2022 e 2024.
  3. Energia. Sem eletricidade nos data centers e nas centrais telefônicas, não há internet. É o efeito indireto mais provável.

Ou seja: a internet não "cairia" de forma direta, mas apagões elétricos e cortes em cabos intercontinentais poderiam derrubá-la em grandes regiões.

Qual é a chance

Estudos estimam a probabilidade de um evento tipo Carrington em cerca de 1% a 12% por década. É uma faixa larga porque a amostra é pequena: temos registros confiáveis de apenas 170 anos. Em julho de 2012, uma CME de intensidade comparável à de 1859 passou pela órbita da Terra, mas em uma região onde o planeta não estava. Perdemos por nove dias.

O Sol está no ciclo 25, cujo máximo aconteceu entre 2024 e 2025. A fase de declínio, que estamos vivendo em 2026, historicamente produz algumas das tempestades mais fortes.

O que está sendo feito

  • Monitoramento. As sondas SOHO, ACE e DSCOVR ficam entre a Terra e o Sol e avisam quando uma CME está a uma hora de chegar. A NOAA e a ESA emitem alertas por escala. No Brasil, o programa Embrace, do INPE, monitora o clima espacial 24 horas.
  • Proteção de rede. Operadoras instalam capacitores em série e dispositivos de bloqueio de corrente contínua, além de manter transformadores de reserva.
  • Satélites mais resistentes e procedimentos para colocá-los em modo seguro.

O que você pode fazer

Praticamente nada, e não precisa: uma tempestade solar não faz mal direto à saúde de quem está no solo, protegido pela atmosfera e pelo campo magnético. O conselho é o mesmo de qualquer risco de apagão longo: ter água, lanterna, um pouco de dinheiro em espécie e o celular carregado. E aproveitar: em uma tempestade extrema, a aurora pode ser vista do Brasil, como as pessoas do Sul viram em 2024. Outros medos espaciais com resposta tranquila estão em um asteroide vai atingir a Terra? e o Sol vai explodir?.

Perguntas frequentes

Tempestade solar pode derrubar a internet?

Não diretamente. Fibra óptica e Wi-Fi não são afetados. O risco vem de apagões elétricos e de danos aos repetidores dos cabos submarinos em uma tempestade extrema, o que poderia desconectar regiões inteiras por semanas. Isso nunca aconteceu, mas é considerado plausível.

Tempestade solar faz mal à saúde?

Não para quem está na superfície da Terra. A atmosfera e o campo magnético bloqueiam as partículas. Astronautas e tripulações de voos polares recebem doses maiores de radiação e tomam precauções.

O Brasil corre risco com tempestades solares?

Menor que países de alta latitude no caso da rede elétrica. Maior no caso de satélites e GPS, por causa da Anomalia Magnética do Atlântico Sul e da posição equatorial, que amplifica os erros de posicionamento.

Quando vai acontecer a próxima tempestade solar forte?

Não é possível prever com mais de dois ou três dias de antecedência. Tempestades G4 acontecem algumas vezes por ciclo de 11 anos; G5 são raras, com apenas quatro desde 1989. A probabilidade de um evento extremo tipo Carrington é estimada entre 1% e 12% por década.

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