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Lixo espacial pode cair na sua cabeça? Os casos reais

Quanto lixo há em órbita, os casos reais de detritos que caíram em casas e vilas, a chance de você ser atingido e o que está sendo feito para limpar o céu.

Publicado em 6 min de leitura
Fragmento de detrito espacial não identificado fotografado da Estação Espacial Internacional
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. Quanto lixo existe lá em cima
  2. O que cai de volta
  3. Os casos reais
  4. Qual é a chance de acertar alguém
  5. Por que o problema está piorando
  6. O que está sendo feito
  7. O que fazer se você encontrar um pedaço

Em março de 2024, um cilindro de metal de 700 gramas atravessou o telhado e dois andares de uma casa em Naples, na Flórida. A NASA confirmou: era um pedaço de um palete de baterias descartado da Estação Espacial Internacional três anos antes. Ninguém se feriu, mas a pergunta ficou: lixo espacial pode cair na sua cabeça? A resposta honesta é sim, pode, mas a chance é tão pequena que outros riscos do dia a dia são milhões de vezes maiores. Aqui estão os números, os casos reais e o que está mudando.

Quanto lixo existe lá em cima

Segundo a Agência Espacial Europeia, em 2026 orbitam a Terra:

  • Cerca de 40 mil objetos maiores que 10 cm rastreados por radares, dos quais uns 11 mil são satélites ativos e o resto é lixo: satélites mortos, estágios de foguete, fragmentos de explosões e colisões.
  • Cerca de 1,2 milhão de fragmentos entre 1 e 10 cm, pequenos demais para rastrear mas grandes o suficiente para destruir um satélite.
  • Mais de 130 milhões de partículas menores que 1 cm, como lascas de tinta e gotas de combustível congelado.

Tudo isso se move a 28 mil km/h. A essa velocidade, uma lasca de tinta de 1 mm bate com a energia de uma bola de boliche caindo de um prédio. A ISS tem escudos para isso e já precisou desviar de detritos dezenas de vezes.

O que cai de volta

A boa notícia é que a órbita baixa se limpa sozinha. Abaixo de 600 km, o atrito com a atmosfera rarefeita freia os objetos e os faz cair em meses ou anos. Um objeto rastreado reentra na atmosfera quase todos os dias, e alguns grandes, como estágios de foguete, algumas vezes por mês.

A maioria queima completamente. O que sobrevive são peças de metais resistentes ao calor, como tanques de titânio, motores e estruturas densas. Estima-se que 20% a 40% da massa de um satélite grande chegue ao solo em fragmentos.

E cai onde? Em 71% dos casos, no oceano, porque 71% da Terra é oceano. Boa parte do resto cai em desertos, florestas e regiões despovoadas. Cidades ocupam menos de 1% da superfície.

Os casos reais

Skylab, 1979. A primeira estação espacial americana, de 77 toneladas, reentrou de forma parcialmente controlada e espalhou fragmentos pelo oeste da Austrália. Uma cidade multou a NASA em 400 dólares por jogar lixo, cobrança que só foi paga em 2009, por uma rádio americana.

Cosmos 954, 1978. Satélite soviético com reator nuclear caiu no norte do Canadá e espalhou material radioativo em 124 mil km². O Canadá cobrou 6 milhões de dólares da URSS e recebeu metade.

Lottie Williams, 1997. A única pessoa da história oficialmente atingida por lixo espacial. Caminhava em um parque em Tulsa, Oklahoma, quando um pedaço de 15 cm de tecido metálico de um foguete Delta II tocou seu ombro. Não se feriu.

Long March 5B, 2020 a 2022. O primeiro estágio de 20 toneladas do foguete chinês reentrou sem controle quatro vezes. Em 2022, fragmentos caíram em Bornéu e na Costa do Marfim; em outra ocasião, perto de vilas na Malásia. Nenhum ferido, mas fortes protestos internacionais.

Naples, Flórida, 2024. O caso do palete de baterias da ISS. A família Otero processou a NASA por 80 mil dólares em danos, criando um precedente jurídico sobre responsabilidade por detritos de origem americana caindo em solo americano.

Mukuku, Quênia, dezembro de 2024. Um anel metálico de 2,5 metros e 500 kg, provavelmente um separador de foguete, caiu perto de uma vila. Ninguém se feriu.

Starship, 2025. Explosões durante voos de teste espalharam detritos sobre as Ilhas Turcas e Caicos e o Caribe, forçando desvios de aviões comerciais. Os fragmentos caíram no mar e em praias.

Ilustração da estação espacial Skylab em órbita da Terra
O Skylab, de 77 toneladas, caiu de forma parcialmente controlada em 1979 e espalhou fragmentos pelo oeste da Austrália. Foto: NASA/JSC

Qual é a chance de acertar alguém

A ESA e a NASA calculam que a probabilidade de uma pessoa específica ser atingida por lixo espacial em um ano é menor que 1 em 1 trilhão. Para comparar: a chance de ser atingido por um raio é de cerca de 1 em 1 milhão por ano. Você tem um milhão de vezes mais chance de ser atingido por um raio do que por um satélite.

A chance de alguém no mundo ser ferido em uma década é diferente: um estudo de 2022 publicado na Nature Astronomy estimou em cerca de 10%, considerando as reentradas descontroladas de estágios de foguete. É baixo, mas não é desprezível, e por isso a pressão por regras cresce.

Por que o problema está piorando

Três razões:

  1. Megaconstelações. Só a Starlink tem mais de 8 mil satélites e planeja dezenas de milhares. Kuiper, Guowang e outras vêm atrás. Esses satélites são projetados para reentrar e queimar totalmente, mas o volume de reentradas vai explodir.
  2. Colisões e explosões. Em 2007 a China destruiu um satélite em teste de míssil e criou 3 mil fragmentos rastreáveis. Em 2009, dois satélites colidiram por acidente. A Rússia repetiu um teste em 2021. Cada evento gera nuvens de fragmentos que duram décadas.
  3. A síndrome de Kessler. É o cenário em que colisões geram fragmentos, que causam mais colisões, em cascata, até que certas órbitas fiquem inutilizáveis. Não estamos lá, mas algumas altitudes entre 750 e 1.000 km já estão perigosamente congestionadas.

O que está sendo feito

  • Regras de 25 anos virando 5. Os Estados Unidos determinaram em 2022 que satélites em órbita baixa devem reentrar em até 5 anos após o fim da missão, não mais 25.
  • Reentradas controladas. Estágios de foguete modernos, como os do Falcon 9 e do Ariane 6, reacendem o motor para cair em zonas do oceano previamente definidas. A China começou a fazer o mesmo com novos foguetes.
  • Missões de limpeza. A ClearSpace-1, da ESA, e a ADRAS-J, da japonesa Astroscale, testam capturar detritos com garras e redes. A primeira remoção comercial de um detrito grande deve acontecer até o fim da década.
  • Design para queimar. Fabricantes usam menos titânio e mais alumínio, que derrete inteiro na reentrada.

O que fazer se você encontrar um pedaço

Não toque. Alguns tanques contêm resíduos de hidrazina, um combustível tóxico. Fotografe, anote o local e comunique a Defesa Civil ou a Polícia Federal, que acionam a Agência Espacial Brasileira. Pelo Tratado do Espaço, o objeto continua pertencendo ao país que o lançou, e há um processo formal de devolução e indenização.

E aquela fila de luzes que você viu? Provavelmente não era lixo caindo, mas satélites novos subindo: veja o que são os "trens de luzes" Starlink. Uma bola de fogo lenta que se fragmenta, essa sim costuma ser reentrada, e é possível confirmar em sites como o Aerospace Corporation Reentry Database.

Perguntas frequentes

Alguém já morreu atingido por lixo espacial?

Não há nenhuma morte confirmada em quase 70 anos de era espacial. A única pessoa oficialmente atingida foi Lottie Williams, em 1997, por um fragmento leve que não a feriu.

Qual é a chance de lixo espacial cair em mim?

Menor que 1 em 1 trilhão por ano, segundo a ESA. É um milhão de vezes menos provável que ser atingido por um raio.

Quanto lixo espacial existe?

Cerca de 40 mil objetos rastreados maiores que 10 cm, mais de 1 milhão entre 1 e 10 cm e mais de 130 milhões de partículas menores, totalizando mais de 13 mil toneladas em órbita.

Lixo espacial já caiu no Brasil?

Sim, em várias ocasiões: fragmentos de foguetes e satélites foram encontrados no interior do país ao longo das décadas, geralmente em áreas rurais, sem feridos. Pelo Tratado do Espaço, o país que lançou o objeto é responsável por qualquer dano.

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