De vez em quando uma manchete avisa que um asteroide "do tamanho de um prédio" vai passar "perto" da Terra, e as redes entram em pânico. Na maioria dos casos, "perto" significa milhões de quilômetros. Mas o risco de impacto não é zero, e existe um sistema inteiro dedicado a ele. Este artigo explica o que a NASA e outras agências monitoram, o que aconteceu com o asteroide 2024 YR4 que assustou o mundo em 2025, e o que realmente pode acontecer nas próximas décadas.
Quem vigia o céu
Desde 2016, a NASA tem um Escritório de Coordenação de Defesa Planetária (PDCO). Ele coordena telescópios de busca como o Catalina Sky Survey, o Pan-STARRS e o ATLAS, que varrem o céu todas as noites em busca de pontos que se movem em relação às estrelas.
Quando um novo objeto é detectado, os dados vão para o Minor Planet Center, que calcula a órbita preliminar, e para o CNEOS, do Laboratório de Propulsão a Jato, que mantém o sistema Sentry: uma lista pública de todos os asteroides com qualquer probabilidade de impacto nos próximos 100 anos. A Agência Espacial Europeia mantém um sistema independente, o NEOCC, e os dois se checam.
Qualquer pessoa pode consultar essa lista em cneos.jpl.nasa.gov/sentry. Ela é a fonte primária de todas as manchetes.
Quantos asteroides perigosos existem
Os alvos são os objetos próximos da Terra (NEOs), com órbitas que chegam a menos de 195 milhões de km do Sol. Em 2026, são mais de 38 mil conhecidos. Destes, cerca de 2.400 são classificados como "potencialmente perigosos": maiores que 140 metros e com órbitas que cruzam a nossa a menos de 7,5 milhões de km.
"Potencialmente perigoso" é uma categoria de vigilância, não um alerta. Nenhum desses objetos tem trajetória de colisão conhecida.
O que preocupa os cientistas é o que ainda não foi encontrado:
| Tamanho | Consequência de um impacto | Quantos já foram descobertos |
|---|---|---|
| Acima de 1 km | Catástrofe global, colapso climático | Cerca de 95% |
| 140 m a 1 km | Destruição regional, de uma cidade a um país | Cerca de 40% |
| 20 m a 140 m | Danos locais, como em Chelyabinsk | Menos de 5% |
Para fechar essa lacuna, a NASA constrói o telescópio espacial NEO Surveyor, com lançamento previsto para 2027, projetado para encontrar dois terços dos asteroides acima de 140 m em cinco anos.
O caso 2024 YR4: como funciona um alerta real
Em dezembro de 2024, um asteroide de cerca de 60 metros foi descoberto. Nas semanas seguintes, a probabilidade de impacto com a Terra em 22 de dezembro de 2032 subiu de 1% para 2%, depois para 3,1%, a maior já registrada para um objeto desse tamanho. Foi notícia no mundo inteiro.
Então aconteceu o que sempre acontece: com mais observações, a órbita ficou mais precisa, e a Terra saiu da faixa de incerteza. Em fevereiro de 2025 a probabilidade caiu para quase zero. O que restou foi uma chance de cerca de 4% de o asteroide atingir a Lua em 2032, o que seria um espetáculo científico, não um perigo.
Por que a probabilidade subiu antes de cair? Porque nos primeiros dias a órbita tem uma grande margem de erro, e a Terra ocupa uma fatia dessa região de incerteza. Conforme a região encolhe, a Terra ou fica dentro (a probabilidade sobe rápido para 100%) ou fica fora (cai para zero). Quase sempre fica fora. O 2024 YR4 seguiu o roteiro clássico.

Apophis em 2029: passagem histórica, sem impacto
Em 13 de abril de 2029, o asteroide Apophis, de 340 metros, vai passar a cerca de 32 mil km da Terra, mais perto que os satélites de TV. Será visível a olho nu como um ponto de luz cruzando o céu da Europa, África e parte da Ásia.
Quando foi descoberto, em 2004, chegou a ter 2,7% de chance de impacto. Observações de radar em 2021 eliminaram qualquer possibilidade de colisão por pelo menos 100 anos. A NASA vai redirecionar a sonda OSIRIS-APEX para acompanhá-lo, e a ESA planeja a missão Ramses. É uma oportunidade única de estudar como a gravidade da Terra altera um asteroide de perto.
Já sabemos desviar um asteroide?
Sim, pelo menos em pequena escala. Em setembro de 2022, a sonda DART da NASA se chocou de propósito com Dimorphos, uma lua de 160 metros do asteroide Didymos, e encurtou sua órbita em 33 minutos, muito mais que o previsto. Foi o primeiro teste de defesa planetária da história.
A sonda europeia Hera chega ao sistema Didymos no fim de 2026 para medir a cratera e a massa do asteroide, o que vai calibrar a técnica. Com décadas de aviso, um empurrão pequeno basta. Com poucos anos, seria preciso algo mais drástico, como uma explosão nuclear próxima, que ainda é teoria.
O que acontece se um cair
Depende inteiramente do tamanho:
- Menos de 20 m: explode na alta atmosfera. Acontece várias vezes por ano, geralmente sobre o oceano, e quase ninguém percebe.
- 20 m (Chelyabinsk, Rússia, 2013): explosão no ar com força de 30 bombas de Hiroshima, onda de choque quebrou janelas e feriu 1.500 pessoas por estilhaços de vidro. Ninguém morreu.
- 50 m (Tunguska, Sibéria, 1908): derrubou 80 milhões de árvores em 2 mil km². Se fosse sobre uma cidade, seria a maior catástrofe da história moderna.
- 1 km: inverno global, colapso da agricultura por anos.
- 10 km (Chicxulub, 66 milhões de anos atrás): extinção em massa, incluindo os dinossauros.
Eventos de Tunguska acontecem em média a cada mil anos. Impactos de 1 km, a cada 500 mil anos. Impactos de 10 km, a cada 100 milhões de anos.
Então, devo me preocupar?
Não com o que está catalogado: nenhum asteroide conhecido tem trajetória de impacto. A preocupação legítima é com o que ainda não foi descoberto, principalmente na faixa de 50 a 140 metros, e por isso o investimento em telescópios de busca importa. Estatisticamente, o risco anual de morrer por impacto de asteroide é comparável ao de morrer em acidente de avião comercial: existe, é levado a sério, e há gente trabalhando para reduzi-lo.
Se o assunto fim do mundo te interessa, respondemos outros medos comuns em o Sol vai explodir?, um buraco negro pode engolir a Terra? e tempestade solar pode derrubar a internet?.




