A pergunta é direta: quando alguém vai pisar na Lua de novo? A resposta oficial mudou várias vezes. Em 2019, a meta era 2024. Depois, 2025, 2026, 2027. Em 2026, a NASA reorganizou o programa: a Artemis III deixou de ser a missão de pouso e virou um teste de acoplamento em órbita da Terra, e o pouso passou para a missão seguinte, com data realista não antes de 2028. Este artigo explica o que cada missão vai fazer, por que o atraso e o que ainda precisa dar certo.
O plano atual, missão por missão
| Missão | O que faz | Previsão |
|---|---|---|
| Artemis I | Voo não tripulado da Orion ao redor da Lua | Concluída, 2022 |
| Artemis II | Primeiro voo tripulado, contorno da Lua | Concluída, abril de 2026 |
| Artemis III | Tripulação em órbita da Terra testa acoplamento da Orion com o módulo de pouso | 2027 |
| Artemis IV | Primeiro pouso tripulado no polo sul lunar | 2028 |
| Artemis V em diante | Pousos anuais, estação Gateway, início da base | A partir de 2029 |
A Artemis II, que acabou de acontecer, está contada em detalhes em Artemis II: como foi a volta dos humanos à órbita da Lua.
Por que a Artemis III mudou
A missão de pouso depende de um veículo que ainda não existe em versão final: o Starship HLS (Human Landing System), da SpaceX. É uma versão do Starship adaptada para pousar na Lua, sem aletas nem escudo térmico, com pernas de pouso e motores de descida.
Para levar astronautas à superfície, o HLS precisa:
- Ser lançado para a órbita da Terra.
- Ser reabastecido em órbita por cerca de dez a quinze lançamentos de Starship-tanque, uma operação de transferência de propelente criogênico que nunca foi feita em escala.
- Voar até a órbita lunar e esperar a Orion.
- Receber os astronautas, descer, ficar uma semana na superfície e subir de volta.
- Fazer tudo isso sem tripulação primeiro, em um pouso de demonstração.
Em 2026, nenhuma dessas etapas estava concluída além dos voos de teste do Starship. Diante disso, a NASA decidiu que não fazia sentido manter uma tripulação treinando para um pouso sem veículo. A Artemis III foi redesenhada para testar, em órbita baixa da Terra, o acoplamento da Orion com um módulo de pouso, um passo que também nunca foi feito e que reduz o risco da missão de pouso. O pouso em si ficou para a Artemis IV.
A NASA também contratou a Blue Origin para um segundo módulo de pouso, o Blue Moon Mark 2, previsto para a Artemis V, para não depender de um único fornecedor.
Para onde: o polo sul lunar
Diferente da Apollo, que pousou perto do equador, a Artemis mira o polo sul. O motivo é água. Crateras que nunca recebem luz do Sol, com temperaturas abaixo de -230 °C, guardam gelo acumulado por bilhões de anos. Água significa oxigênio para respirar, hidrogênio e oxigênio para combustível e, claro, água para beber. É a base de qualquer presença permanente.
A NASA selecionou candidatos como as regiões perto das crateras Shackleton, de Gerlache e Malapert. São terrenos difíceis: o Sol fica sempre baixo no horizonte, produzindo sombras longas e mudanças bruscas de iluminação, e o relevo é acidentado. Por isso os trajes e o módulo de pouso precisam de tecnologias que a Apollo não tinha.

Como vai ser o pouso
O plano para a primeira missão de pouso:
- O HLS é lançado, reabastecido em órbita da Terra e voa até uma órbita ao redor da Lua.
- Quatro astronautas decolam no SLS com a Orion e chegam à mesma órbita dias depois.
- A Orion acopla ao HLS. Dois astronautas passam para o módulo de pouso; dois ficam na Orion.
- O HLS desce até o polo sul. A tripulação passa cerca de uma semana na superfície, com várias caminhadas lunares usando os novos trajes desenvolvidos pela Axiom Space.
- O HLS decola e reencontra a Orion em órbita. A tripulação volta para a Orion e retorna à Terra.
A duração total seria de cerca de 30 dias, três vezes mais que as missões Apollo mais longas.
O que ainda pode atrasar
- Reabastecimento em órbita. A SpaceX precisa demonstrar a transferência de centenas de toneladas de metano e oxigênio líquidos entre duas Starships. É a maior incógnita técnica do programa.
- Pouso não tripulado do HLS. Exigido antes de qualquer tripulação embarcar.
- Trajes. A Axiom entregou protótipos, mas a qualificação para o ambiente lunar ainda está em andamento.
- Orçamento e política. O programa já consumiu mais de 90 bilhões de dólares. Cada lançamento do SLS custa bilhões, como mostramos em quanto custa lançar um foguete. Mudanças de governo e de prioridade no Congresso americano afetam o cronograma a cada ano.
A corrida com a China
A China anunciou a meta de pousar astronautas na Lua antes de 2030, com o foguete Longa Marcha 10 e a nave Mengzhou, ambos em teste. Diferentemente da NASA, o programa chinês tem cumprido prazos com regularidade nos últimos anos. A perspectiva de a China chegar primeiro pesa em cada decisão da NASA e do Congresso. Analisamos o cenário em EUA x China: a nova corrida pela Lua.
E o Brasil?
O Brasil assinou os Acordos Artemis em 2021, o que abre a porta para participação em experimentos e, em tese, para um astronauta brasileiro em missões futuras. Não há compromisso concreto até agora. O que a AEB faz e planeja está em o Brasil tem programa espacial? O que a AEB faz.
Por que voltar, afinal
Se você chegou até aqui perguntando "mas por que não voltamos antes?", a resposta curta é dinheiro e prioridade, e a resposta completa está em por que ninguém voltou à Lua desde 1972. A diferença desta vez é o objetivo: não é plantar uma bandeira e voltar, é ficar. Uma base no polo sul seria o laboratório para aprender a viver fora da Terra antes de tentar Marte, um plano que discutimos em quanto tempo leva para chegar a Marte.




