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BepiColombo chegando a Mercúrio: por que a viagem levou 8 anos

A sonda BepiColombo entra em órbita de Mercúrio em novembro de 2026. Por que ir ao planeta mais próximo do Sol é tão difícil e o que ela vai estudar.

Publicado em 5 min de leitura
Mercúrio em cores realçadas, que destacam a composição da superfície, fotografado pela sonda MESSENGER
Foto: NASA/GSFC
Neste artigo
  1. O problema: cair em direção ao Sol
  2. A solução: nove sobrevoos e motores iônicos
  3. O que é a BepiColombo
  4. Sobreviver ao Sol
  5. O que a missão quer descobrir
  6. O que esperar em 2026 e 2027

Mercúrio está a 77 milhões de km da Terra no ponto mais próximo, mais perto que Marte em muitos momentos. Ainda assim, a sonda BepiColombo decolou em outubro de 2018 e só vai entrar em órbita do planeta em novembro de 2026. Oito anos para chegar a um vizinho. Não é lentidão: é um dos problemas mais difíceis da mecânica orbital. Este artigo explica por que ir a Mercúrio é mais difícil que ir a Plutão, o que a sonda já viu nos sobrevoos e o que ela vai descobrir.

O problema: cair em direção ao Sol

Ir a Marte significa subir uma ladeira gravitacional: gasta-se combustível para se afastar do Sol. Ir a Mercúrio é o contrário, e parece fácil, como descer a ladeira. O problema é frear no fim.

Quanto mais perto do Sol, mais rápido um objeto orbita. A Terra se move a 30 km/s; Mercúrio, a 47 km/s. Uma sonda que simplesmente "caísse" da órbita da Terra em direção a Mercúrio chegaria lá a uma velocidade enorme em relação ao planeta, que tem pouca gravidade para capturá-la. Para entrar em órbita, seria preciso desacelerar cerca de 7 km/s, mais do que a velocidade necessária para sair da Terra. Nenhum foguete carrega combustível para isso.

Somando tudo, a energia total necessária para orbitar Mercúrio é maior que a de qualquer outro planeta, incluindo os externos. Foi por isso que só duas sondas visitaram Mercúrio antes: a Mariner 10, em sobrevoos nos anos 1970, e a MESSENGER, que orbitou de 2011 a 2015.

A solução: nove sobrevoos e motores iônicos

A BepiColombo resolveu o problema com uma rota longa e engenhosa:

  • 1 sobrevoo da Terra (abril de 2020), para ajustar a órbita.
  • 2 sobrevoos de Vênus (outubro de 2020 e agosto de 2021), usando a gravidade do planeta para frear.
  • 6 sobrevoos de Mercúrio (entre outubro de 2021 e janeiro de 2025), cada um roubando um pouco de velocidade da sonda e aproximando sua órbita da do planeta.
  • Propulsão elétrica durante a viagem: quatro motores iônicos que empurram com a força de uma folha de papel na sua mão, mas por meses ininterruptos, somando um freio gigantesco ao longo do tempo.

Cada sobrevoo de Mercúrio foi uma sessão de fotos. A sonda passou a menos de 200 km da superfície em alguns deles e registrou crateras, planícies vulcânicas e a região polar em detalhes inéditos.

Um problema nos motores elétricos, descoberto em 2024, obrigou a operar com menos potência e adiou a chegada de dezembro de 2025 para novembro de 2026. A equipe reprojetou a trajetória e a missão foi mantida.

Mapa de Mercúrio em cores realçadas feito pela sonda MESSENGER
Mapa de Mercúrio em cores realçadas feito pela MESSENGER, antecessora da BepiColombo, que orbitou o planeta de 2011 a 2015 e deixou mais perguntas do que respostas. Foto: NASA/GSFC

O que é a BepiColombo

É uma missão conjunta da Agência Espacial Europeia (ESA) e da agência japonesa (JAXA), com custo de cerca de 2 bilhões de euros. O nome homenageia Giuseppe "Bepi" Colombo, o matemático italiano que calculou a trajetória da Mariner 10 e descobriu que Mercúrio gira três vezes a cada duas órbitas.

A sonda é, na verdade, uma pilha de três partes:

  1. Módulo de transferência, com os motores iônicos e painéis solares de 30 metros, que se separa ao chegar.
  2. Mercury Planetary Orbiter (MPO), da ESA, com 11 instrumentos para mapear a superfície, a composição e o interior.
  3. Mio, da JAXA, um orbitador giratório que estuda o campo magnético e o ambiente de partículas.

Ao chegar, os dois orbitadores se separam e ficam em órbitas diferentes. O MPO fica mais perto, entre 480 e 1.500 km; o Mio vai mais longe, até 11.600 km.

Sobreviver ao Sol

Em Mercúrio, o Sol é 10 vezes mais intenso que na Terra. A face iluminada do planeta chega a 430 °C; a noturna, a -180 °C. A sonda ainda recebe o calor irradiado pela superfície de baixo. Para não derreter, o MPO tem um radiador de titânio prateado, isolamento multicamadas e uma rotina de órbita que mantém o radiador sempre virado para longe do Sol. O Mio gira 15 vezes por minuto para distribuir o calor. Os painéis solares precisam ficar inclinados em relação ao Sol, senão superaquecem, um paradoxo curioso: perto demais da fonte de energia.

O que a missão quer descobrir

Mercúrio é um planeta estranho, e a MESSENGER deixou mais perguntas que respostas:

Um núcleo gigante. O núcleo de ferro ocupa cerca de 85% do raio do planeta, contra 55% na Terra. Como um planeta tão pequeno tem um núcleo tão grande? Uma hipótese é que um impacto colossal arrancou a maior parte do manto. A BepiColombo vai medir a gravidade e a rotação com precisão para descobrir o tamanho e o estado do núcleo.

Um campo magnético que não devia existir. Mercúrio é o único planeta rochoso além da Terra com campo magnético global, embora 100 vezes mais fraco. E ele é deslocado: o centro magnético fica 480 km ao norte do centro do planeta. O Mio vai estudar como esse campo interage com o vento solar brutal daquela região.

Gelo no planeta mais quente. A MESSENGER confirmou gelo de água em crateras polares permanentemente sombreadas. A BepiColombo vai medir quanto há e de onde veio.

Elementos voláteis demais. A superfície tem potássio, enxofre e sódio em quantidades que não deveriam ter sobrevivido tão perto do Sol. Isso desafia as teorias sobre onde Mercúrio se formou; ele pode ter nascido mais longe e migrado.

Testar Einstein. A órbita de Mercúrio foi a primeira prova da Relatividade Geral, em 1915. A BepiColombo vai medir a posição da sonda com precisão de centímetros para testar a teoria em um nível novo.

O que esperar em 2026 e 2027

A captura orbital está prevista para novembro de 2026. Nos meses seguintes, os orbitadores se separam e calibram os instrumentos. A fase científica plena começa no início de 2027 e deve durar pelo menos um ano terrestre, com possível extensão. As primeiras imagens em alta resolução do MPO devem sair no primeiro semestre de 2027.

Para quem acompanha missões, 2026 é um ano cheio: além da BepiColombo, houve a Artemis II, a chegada da sonda Hera ao asteroide Didymos e as observações contínuas do James Webb. E se você quer ver Mercúrio com os próprios olhos, ele aparece baixo no horizonte ao anoitecer ou amanhecer algumas vezes por ano: os apps de céu mostram quando.

Perguntas frequentes

Quando a BepiColombo chega a Mercúrio?

A entrada em órbita está prevista para novembro de 2026, após oito anos de viagem e nove sobrevoos planetários. A fase científica começa no início de 2027.

Por que demora tanto para chegar a Mercúrio?

Porque é preciso frear muito para não passar direto pelo planeta, que tem pouca gravidade para capturar uma sonda. Sem combustível suficiente para isso, a sonda usa sobrevoos de Vênus e do próprio Mercúrio, além de motores iônicos, para perder velocidade aos poucos.

Quem construiu a BepiColombo?

A Agência Espacial Europeia (ESA) e a agência japonesa JAXA. A ESA fez o módulo de transferência e o orbitador MPO; a JAXA, o orbitador Mio, dedicado ao campo magnético.

Qual é a temperatura em Mercúrio?

A superfície varia de cerca de 430 °C na face iluminada a -180 °C na face noturna. É a maior variação de temperatura entre todos os planetas do Sistema Solar.

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