Depois de mais de 50 anos, seres humanos voltaram a ver a Lua de perto. Em abril de 2026, a missão Artemis II levou quatro astronautas em uma viagem de dez dias ao redor da Lua e de volta, a bordo da nave Orion lançada pelo foguete SLS. Ninguém pousou, e isso nunca foi o plano. O objetivo era provar que a nave está pronta para levar gente a um lugar onde nenhum humano esteve desde a Apollo 17, em dezembro de 1972. Aqui está o que aconteceu, quem foi e o que vem depois.
A tripulação
Quatro pessoas, três americanas e uma canadense, todas astronautas experientes:
- Reid Wiseman, comandante. Piloto de testes da Marinha dos Estados Unidos, ex-chefe do Escritório de Astronautas da NASA, com uma missão de longa duração na ISS.
- Victor Glover, piloto. Aviador naval, participou da primeira missão operacional da Crew Dragon, em 2020. Tornou-se a primeira pessoa negra a viajar além da órbita terrestre.
- Christina Koch, especialista de missão. Engenheira, detentora do recorde de voo mais longo de uma mulher (328 dias). Primeira mulher a viajar até a Lua.
- Jeremy Hansen, especialista de missão. Piloto de caça da Força Aérea do Canadá. Primeiro não americano a ir além da órbita baixa da Terra, em seu primeiro voo espacial.
Linha do tempo da missão
Lançamento. O SLS, o foguete mais potente já lançado com sucesso depois do Saturn V e do Starship, decolou do Complexo 39B do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, após meses de adiamentos causados por vazamentos de hidrogênio e problemas nos sistemas de solo, os mesmos que atrasaram a Artemis I em 2022.
Testes em órbita da Terra. Nas primeiras 24 horas, a tripulação ficou em uma órbita alta e elíptica ao redor da Terra, testando os sistemas de suporte à vida, a navegação manual e a aproximação até o estágio superior do foguete, uma simulação do acoplamento que as missões de pouso vão exigir.
Injeção translunar. Com tudo aprovado, o motor da Orion acendeu e colocou a nave em uma trajetória de retorno livre: uma rota em forma de oito que contorna a Lua e volta para a Terra usando apenas a gravidade, sem precisar de outra manobra. É a mesma configuração que salvou a Apollo 13 em 1970. Se o motor falhasse, a tripulação voltaria de qualquer jeito.
Contorno da Lua. Cerca de quatro dias após o lançamento, a Orion passou pelo lado oculto da Lua a alguns milhares de quilômetros da superfície. Durante cerca de 40 minutos a nave ficou sem contato com a Terra, bloqueada pela Lua. A tripulação fotografou regiões do lado oculto que nenhum humano tinha visto diretamente, tema que exploramos em o que existe do lado oculto da Lua. Ao contornar o ponto mais distante, a Orion superou o recorde de distância da Terra estabelecido pela Apollo 13, passando de 400 mil km.
Retorno e reentrada. A viagem de volta levou outros quatro dias. A Orion entrou na atmosfera a cerca de 40 mil km/h e o escudo térmico enfrentou temperaturas de 2.700 °C. Depois dos danos inesperados encontrados no escudo da Artemis I, a NASA alterou o perfil de reentrada para reduzir o desgaste. O pouso foi no Oceano Pacífico, com recuperação pela Marinha americana.

O que a missão testou
A Artemis I, em 2022, voou sem tripulação. A Artemis II foi o primeiro voo com gente a bordo, e a lista de verificações era longa:
- Suporte à vida. Os sistemas de oxigênio, remoção de CO₂, temperatura e água nunca haviam sido testados com pessoas respirando dentro da cápsula.
- Trajes de sobrevivência. Os novos trajes laranja da Orion, usados no lançamento e na reentrada, foram testados em condições reais, inclusive em um exercício em que a cabine foi despressurizada de propósito.
- Navegação manual. A tripulação pilotou a Orion à mão, uma capacidade necessária caso os computadores falhem.
- Comunicação em espaço profundo. A rede de antenas da NASA e o sistema óptico a laser da Orion transmitiram vídeo em alta definição da Lua.
- Escudo térmico. O item de maior preocupação, depois que o da Artemis I perdeu pedaços de material de forma inesperada.
- Higiene e rotina. Banheiro, comida, sono e exercício em uma cápsula de 9 metros cúbicos para quatro pessoas. Menos glamouroso, igualmente crítico.
Por que demorou tanto
Entre a Artemis I e a Artemis II passaram-se mais de três anos. A investigação do escudo térmico levou a maior parte de 2024. Problemas com o sistema de abortamento, com as baterias da Orion e com a torre de lançamento adiaram o cronograma várias vezes. O custo total do programa até aqui passa de 90 bilhões de dólares, e o preço de cada lançamento do SLS, tema de quanto custa lançar um foguete, é um dos alvos de crítica mais frequentes ao programa.
O que vem depois
O plano da NASA passou por uma reformulação em 2026. Resumidamente: a próxima missão testará o acoplamento entre a Orion e o módulo de pouso em órbita da Terra, e o pouso propriamente dito ficou para a missão seguinte, não antes de 2028. Os detalhes, as razões e a concorrência com a China estão em Artemis III: quando vamos pisar na Lua de novo e EUA x China: a nova corrida pela Lua.
Por que isso importa
Além do simbolismo, a Artemis II provou que a infraestrutura funciona: foguete, nave, trajes, escudo, redes de comunicação, equipes de solo. Tudo o que vem depois, incluindo uma base lunar permanente e, mais adiante, missões a Marte, depende dessa base. E para quem viu a Apollo pela TV em preto e branco, ou para quem só conhecia a Lua pelos livros, ver quatro pessoas transmitindo em alta definição do lado oculto foi a prova de que a exploração humana do espaço profundo voltou.




