Sessenta anos depois da corrida entre americanos e soviéticos, a Lua voltou a ser disputada. Desta vez, entre os Estados Unidos, com o programa Artemis e uma coalizão de mais de 50 países, e a China, com o programa Chang'e, uma agenda cumprida com regularidade e a meta declarada de pousar astronautas antes de 2030. O prêmio não é só simbólico: é o polo sul lunar, onde há água. Este artigo compara os dois lados, ponto a ponto, e avalia quem está na frente.
O que cada um já fez
China, programa Chang'e:
- 2007 e 2010: orbitadores Chang'e 1 e 2.
- 2013: Chang'e 3, primeiro pouso suave na Lua desde 1976, com o jipe Yutu.
- 2019: Chang'e 4, primeiro pouso da história no lado oculto, com o jipe Yutu-2, que operou por anos.
- 2020: Chang'e 5, coleta e retorno de 1,7 kg de amostras, o primeiro em 44 anos.
- 2024: Chang'e 6, primeiras amostras do lado oculto já trazidas à Terra.
- 2026: Chang'e 7, orbitador, módulo de pouso, jipe e uma sonda "saltadora" para explorar crateras sombreadas do polo sul em busca de gelo.
Seis missões, seis sucessos, sem uma falha. Detalhamos as descobertas do lado oculto em o que existe do lado oculto da Lua.
Estados Unidos, programa Artemis e parceiros:
- 2022: Artemis I, voo não tripulado da Orion ao redor da Lua.
- 2024: Odysseus, da Intuitive Machines, primeiro pouso privado na Lua, embora tenha tombado.
- 2025: Blue Ghost, da Firefly, pouso privado bem-sucedido com experimentos da NASA. O IM-2 tombou de novo.
- 2026: Artemis II, primeiro voo tripulado além da órbita da Terra desde 1972, contado em Artemis II: como foi a volta dos humanos à órbita da Lua.
Os Estados Unidos têm a vantagem histórica, doze pessoas já pisaram lá, e uma indústria privada sem paralelo. Mas o programa atual é mais lento e mais caro que o chinês.
Os planos para pousar gente
| Estados Unidos (Artemis) | China | |
|---|---|---|
| Meta de pouso | 2028 (Artemis IV), após revisão de 2026 | Antes de 2030, provavelmente 2029 |
| Foguete | SLS (em operação) + Starship HLS (em testes) | Longa Marcha 10 (em testes, primeiro voo previsto para 2026 ou 2027) |
| Nave tripulada | Orion (voou com tripulação em 2026) | Mengzhou (teste de abortamento em 2025, voo não tripulado previsto) |
| Módulo de pouso | Starship HLS (SpaceX) e Blue Moon (Blue Origin) | Lanyue |
| Arquitetura | Um lançamento pesado + vários reabastecimentos em órbita | Dois lançamentos do Longa Marcha 10, acoplamento em órbita lunar |
| Local | Polo sul | Polo sul |
| Tripulação no solo | 2 pessoas, cerca de 1 semana | 2 pessoas, cerca de 6 horas na primeira missão |
O plano chinês é mais simples e conservador: parecido com a Apollo, com dois foguetes em vez de um gigante, e sem depender de reabastecimento em órbita, uma tecnologia que ninguém domina ainda. O plano americano é mais ambicioso: o Starship HLS tem capacidade para dezenas de toneladas na superfície, base para uma presença permanente, mas depende de etapas nunca demonstradas, como explicamos em Artemis III: quando vamos pisar na Lua de novo.

Quem está na frente
Depende do critério.
Em cronograma cumprido: a China. Nenhuma missão Chang'e falhou ou atrasou muito. A Artemis adiou o pouso de 2024 para 2028, e cada etapa americana passou por revisões e cortes.
Em capacidade demonstrada: os Estados Unidos. Já têm foguete pesado e nave tripulada voando além da órbita da Terra. A China ainda não lançou o Longa Marcha 10 nem a Mengzhou com tripulação.
Em custo: a China. O orçamento espacial chinês é estimado em cerca de US$ 15 bilhões por ano, contra US$ 25 bilhões da NASA, e o programa lunar chinês custa uma fração do Artemis, cujo SLS sozinho custa bilhões por lançamento, tema de quanto custa lançar um foguete.
Em alianças: os Estados Unidos. Os Acordos Artemis, que estabelecem regras de conduta na Lua, têm mais de 50 signatários, entre eles Brasil, Japão, Índia, Coreia do Sul, Canadá e a maioria da Europa. A China e a Rússia lideram a Estação Internacional de Pesquisa Lunar (ILRS), uma base robótica planejada para a década de 2030, com cerca de uma dúzia de parceiros, incluindo Paquistão, Venezuela, África do Sul e Egito.
Em indústria privada: os Estados Unidos, com grande vantagem. SpaceX, Blue Origin, Firefly, Intuitive Machines e outras fazem por contrato o que na China é estatal. Mas a China acelera empresas privadas de foguetes, várias das quais testaram pousos verticais em 2025.
O que está em jogo
Água e recursos. As crateras do polo sul guardam gelo suficiente para sustentar bases e produzir combustível. Quem chegar primeiro escolhe os melhores locais, e o direito internacional é vago sobre uso de recursos lunares. Os dois lados dizem que não vão reivindicar território, mas "zonas de segurança" ao redor de bases podem virar exclusão na prática.
Prestígio e política interna. Nos Estados Unidos, o temor de ver uma bandeira chinesa na Lua antes do retorno americano é o argumento mais eficaz no Congresso para manter o orçamento do Artemis. Na China, o pouso está atrelado ao centenário do Partido Comunista em 2049 como marco de potência tecnológica.
Tecnologia e economia. Foguetes pesados, propulsão, robótica e sistemas de suporte à vida desenvolvidos para a Lua alimentam indústrias inteiras. A corrida de 1960 deu ao mundo microeletrônica e satélites de comunicação.
Normas. Quem estabelece a presença primeiro define, na prática, as regras de tráfego, comunicação e segurança que os outros terão de seguir.
Por que não cooperam
Uma lei americana de 2011, a Emenda Wolf, proíbe a NASA de cooperar bilateralmente com a China sem aprovação do Congresso. A China, excluída da Estação Espacial Internacional, construiu a própria estação, a Tiangong, ocupada desde 2021. Os dois programas seguem separados, e a Estação Espacial Internacional será aposentada por volta de 2030, o que pode deixar a Tiangong como única estação estatal em órbita por alguns anos.
Onde o Brasil está
Nos dois lados. O Brasil assinou os Acordos Artemis em 2021, o primeiro país sul-americano a fazê-lo, e ao mesmo tempo mantém com a China a parceria espacial mais longeva do país, o programa de satélites CBERS, descrito em o Brasil tem programa espacial? O que a AEB faz. A posição é pragmática: ciência e satélites com quem oferecer, sem exclusividade.
O placar em 2026
A China está mais perto de cumprir seu prazo; os Estados Unidos têm mais capacidade instalada e mais aliados, mas um cronograma frágil. Se o Starship HLS resolver o reabastecimento em órbita até 2027, a Artemis IV pousa em 2028 e os americanos chegam primeiro. Se atrasar mais um ciclo, a China pousa em 2029 e os dois países terão gente na Lua quase ao mesmo tempo, algo que a primeira corrida espacial nunca produziu. Para quem observa, é a década mais interessante da exploração lunar desde os anos 1960, e a razão histórica da pausa está em por que ninguém voltou à Lua desde 1972.




