Turismo espacial deixou de ser promessa. Em 2026, quatro empresas levam clientes pagantes ao espaço com regularidade, mais de 100 pessoas já voaram como turistas, e há fila de espera. As experiências vão de 11 minutos a duas semanas, e os preços, de centenas de milhares a dezenas de milhões de dólares. Este guia apresenta cada empresa em operação, o que ela oferece, quanto cobra e quem vem a seguir.
Blue Origin: 11 minutos acima da linha de Kármán
O que é: a empresa de Jeff Bezos opera o foguete suborbital New Shepard, que leva seis pessoas a cerca de 106 km de altitude, acima da linha de Kármán, a fronteira internacionalmente aceita do espaço.
Como é a experiência: dois dias de treinamento no Texas, lançamento vertical com aceleração de 3 g, separação da cápsula, cerca de três a quatro minutos de ausência de peso em que os passageiros se soltam dos assentos e flutuam diante das maiores janelas já colocadas em uma nave, reentrada com pico de 5 g e pouso de paraquedas no deserto. Duração total: 11 minutos.
Histórico: voos tripulados desde julho de 2021, quando Bezos voou no primeiro. Já levou mais de 70 pessoas, entre elas William Shatner, aos 90 anos, e um voo só de mulheres em 2025 com a cantora Katy Perry. Um acidente em 2022, sem tripulação, parou os voos por mais de um ano; o sistema de abortamento funcionou como projetado.
Preço: não divulgado. Estimativas de clientes vão de US$ 500 mil a US$ 1,25 milhão. Depósito de US$ 150 mil para entrar na fila.
Brasileiro a bordo: Victor Correa Hespanha, engenheiro de Minas Gerais, voou em junho de 2022 e se tornou o segundo brasileiro no espaço.
Virgin Galactic: o avião-foguete
O que é: a empresa de Richard Branson usa um avião de dois cascos que decola de uma pista, sobe a 15 km e solta uma nave-foguete, que acende o motor e sobe a 85 a 90 km. Isso fica abaixo da linha de Kármán, mas acima dos 80 km que os Estados Unidos consideram espaço, o que gera debate sobre se é "espaço de verdade".
Como é a experiência: três dias no Spaceport America, no Novo México, um voo de 90 minutos do início ao fim, com cerca de quatro minutos de ausência de peso, aceleração mais suave que a de um foguete vertical e pouso como um avião. As janelas são menores que as da Blue Origin, mas há mais liberdade para flutuar pela cabine.
Histórico: voos comerciais entre 2023 e 2024, com sete missões pagas. A empresa pausou as operações para construir a nave Delta, maior e mais barata de operar, com retorno previsto para 2026.
Preço: US$ 450 mil nas vendas anteriores, com cerca de 700 pessoas na fila. Para a nova nave, a empresa indicou preço na faixa de US$ 600 mil.

SpaceX: a órbita, para quem pode pagar
O que é: a SpaceX não vende turismo diretamente, mas aluga a nave Crew Dragon para missões privadas de dias em órbita, a única opção orbital fora dos programas governamentais.
Como é a experiência: meses de treinamento na SpaceX, lançamento no Falcon 9, três a cinco dias em órbita a 500 km ou mais de altitude, com dezenas de voltas na Terra, uma cúpula de vidro no lugar da porta de acoplamento, e reentrada com pouso no mar. Não há chuveiro nem privacidade: quatro pessoas em uma cápsula do tamanho de uma van.
Missões até agora: Inspiration4 (2021), primeira missão totalmente civil; Polaris Dawn (2024), que incluiu a primeira caminhada espacial privada; Fram2 (2025), a primeira missão tripulada a sobrevoar os polos.
Preço: cerca de US$ 200 milhões a US$ 250 milhões por missão, dividida entre até quatro pessoas. Na prática, um bilionário paga e escolhe os companheiros.
Axiom Space: duas semanas na Estação Espacial
O que é: a Axiom compra voos da Crew Dragon e negocia com a NASA a estadia de clientes na Estação Espacial Internacional. É a única forma de um civil visitar a ISS hoje.
Como é a experiência: cerca de um ano de treinamento parcial, incluindo os sistemas da estação; lançamento na Crew Dragon; acoplamento; duas semanas a bordo vivendo a rotina que descrevemos em como é a rotina de um astronauta na ISS, com experimentos científicos e trabalho de divulgação; volta pelo mar.
Missões: Ax-1 (2022), Ax-2 (2023), Ax-3 (2024) e Ax-4 (2025), esta última com astronautas patrocinados pelos governos da Índia, Polônia e Hungria, um modelo que virou o principal negócio da empresa: países sem programa próprio compram assentos para seus primeiros astronautas.
Preço: cerca de US$ 55 milhões a US$ 70 milhões por pessoa.
Quem vem a seguir
Estações privadas. A Axiom constrói módulos que se acoplarão à ISS e depois se separarão como estação independente. A Vast planeja a Haven-1, uma pequena estação para quatro pessoas, com lançamento previsto para 2026 e estadias de duas semanas. A Blue Origin e a Voyager Space desenvolvem estações maiores para o fim da década. Elas devem tornar as estadias em órbita mais frequentes e um pouco mais baratas.
Balões estratosféricos. Cápsulas pressurizadas erguidas por balões gigantes até 30 km, onde o céu é preto e a curvatura da Terra aparece, mas sem ausência de peso. Voos de seis horas com bar e banheiro, por cerca de US$ 125 mil. A Space Perspective, líder do segmento, enfrentou dificuldades financeiras em 2024 e 2025; a francesa Zephalto e a americana World View seguem em desenvolvimento. Nenhuma opera comercialmente ainda.
Starship. Se o foguete da SpaceX cumprir as promessas de custo, poderia levar dezenas de passageiros por voo em viagens orbitais ou ao redor da Lua a preços de centenas de milhares de dólares. Um projeto de voo lunar com passageiros, o dearMoon, foi cancelado em 2024 por atraso. Nada concreto está à venda.
Hotéis espaciais. Vários foram anunciados, nenhum tem financiamento nem data. Trate como conceito.
Como entrar na fila
Para os voos suborbitais, basta se cadastrar no site da Blue Origin ou da Virgin Galactic e pagar o depósito; a espera é de um a dois anos. Para a órbita, o caminho é contato direto com a Axiom Space ou a SpaceX, com exames médicos e comprovação de recursos. Não há restrição de nacionalidade em nenhuma empresa.
Se seu orçamento é outro, existem experiências que capturam parte da sensação, como voos parabólicos de gravidade zero por cerca de US$ 9 mil, detalhados em quanto custa uma viagem ao espaço em 2026. E se quer a carreira em vez do bilhete, veja como se tornar astronauta sendo brasileiro.




