Apenas dois brasileiros foram ao espaço em toda a história: Marcos Pontes, em 2006, e Victor Hespanha, em um voo suborbital de 2022. Isso não acontece por falta de talento. Acontece porque o Brasil não tem programa de voo tripulado, e as grandes agências espaciais só selecionam cidadãos dos seus países. Ainda assim, há caminhos concretos. Este guia mostra quais são, o que exigem e o que fazer hoje se você tem esse objetivo.
Por que não existe seleção brasileira
A Agência Espacial Brasileira (AEB) tem um orçamento anual na casa de algumas centenas de milhões de reais, uma fração do necessário para manter astronautas. Marcos Pontes voou em um acordo pontual com a Rússia, pago pelo governo brasileiro, e não houve continuidade. O Brasil assinou os Acordos Artemis em 2021 e a AEB já manifestou interesse em levar um brasileiro em missões futuras, mas até agora não há vaga confirmada nem processo seletivo. Explicamos a estrutura em o Brasil tem programa espacial? O que a AEB faz.
Então, na prática, quem quer ser astronauta profissional precisa entrar por uma agência estrangeira.
Caminho 1: dupla cidadania europeia e a ESA
Este é o caminho mais realista para muitos brasileiros. A Agência Espacial Europeia (ESA) aceita candidatos de qualquer um dos seus 22 países-membros, e milhões de brasileiros têm direito a cidadania italiana, portuguesa, espanhola ou alemã por descendência.
Na seleção de 2021 e 2022, a ESA recebeu 22.500 inscrições e escolheu 5 astronautas de carreira e 12 reservas. Os requisitos:
- Cidadania de um país-membro (Portugal e Itália estão entre eles).
- Mestrado em ciências naturais, medicina, engenharia, matemática ou computação, ou formação de piloto de testes.
- Pelo menos três anos de experiência profissional após a graduação.
- Inglês fluente; outra língua é diferencial.
- Idade típica entre 27 e 37 anos, embora não seja um limite rígido.
- Aptidão médica compatível com a de pilotos de linha aérea.
A ESA seleciona a cada 10 a 15 anos. A próxima chamada deve acontecer no início da década de 2030. Quem tem 18 anos hoje está no tempo certo para se preparar.
Caminho 2: cidadania americana e a NASA
A NASA exige cidadania americana, mas aceita dupla cidadania. Brasileiros nascidos nos Estados Unidos, filhos de americanos ou naturalizados podem se candidatar. Os requisitos completos, os salários e a taxa de aprovação estão em quanto ganha um astronauta da NASA e como é a seleção. A NASA abre inscrições a cada quatro anos e a última turma foi anunciada em 2025.
O Canadá (CSA) exige cidadania canadense ou residência permanente. O Japão (JAXA) exige nacionalidade japonesa. A Austrália, por não ter programa próprio, envia cidadãos pela ESA.

Caminho 3: acordos entre governos
Foi assim que Marcos Pontes voou. Países sem programa próprio, como Emirados Árabes, Arábia Saudita, Turquia e Polônia, compraram assentos ou negociaram acordos e fizeram seleções nacionais. Se o Brasil decidir fazer o mesmo, seja com a NASA no programa Artemis, seja com a China na estação Tiangong ou por meio da Axiom Space, uma seleção nacional seria aberta. Nesse cenário, o perfil buscado seria o de sempre: formação técnica sólida, experiência operacional e saúde perfeita. Vale ficar de olho nas notícias da AEB e da Força Aérea Brasileira.
Caminho 4: astronauta privado
Uma via nova. Empresas como a Axiom Space e a SpaceX vendem assentos e treinam civis. O caminho funciona de três formas:
- Patrocínio. Governos, empresas ou institutos de pesquisa pagam um assento para que um pesquisador realize experimentos na ISS. A Axiom já levou astronautas da Turquia, Suécia, Índia, Polônia e Hungria assim.
- Missões científicas privadas. Programas como o da International Institute for Astronautical Sciences (IIAS) treinam "cientistas-astronautas" e negociam voos suborbitais para pesquisa.
- Sorteios e concursos. Foi como Victor Hespanha voou na Blue Origin em 2022, e como Sian Proctor, uma professora americana, ganhou seu lugar na missão Inspiration4.
Os preços de cada modalidade estão em quanto custa uma viagem ao espaço.
O que estudar e fazer desde já
Independentemente do caminho, o perfil dos selecionados é parecido no mundo inteiro. Se você está no ensino médio ou na faculdade, este é o roteiro:
- Graduação em engenharia, física, medicina, biologia, geologia, computação ou matemática. No Brasil, o ITA, a UFMG, a UnB, a UFABC e a USP têm cursos de engenharia aeroespacial ou aeronáutica.
- Mestrado, de preferência no exterior ou com intercâmbio. Ajuda a criar rede de contatos e a cumprir requisitos de experiência internacional.
- Inglês fluente e uma segunda língua. Russo ou mandarim são raros e valorizados.
- Experiência operacional. Pilotagem, mergulho autônomo, montanhismo, medicina de emergência, expedições em lugares remotos, como a Antártica. As agências querem gente que já operou em ambientes hostis.
- Saúde. Cuide dos olhos e da pressão. Miopia corrigida é aceita hoje; problemas cardíacos não.
- Perfil psicológico. Trabalho em equipe, calma sob pressão, comunicação clara. Isso é avaliado com muito peso.
- Envolva-se com a comunidade espacial. Programas como a Olimpíada Brasileira de Astronomia, a Space Generation Advisory Council e a International Space University (com bolsas para brasileiros) constroem currículo e rede.
Um plano B que também é plano A
A maioria das pessoas que entra nessa trilha não vira astronauta, e tudo bem: os mesmos passos formam engenheiros de missão, controladores de voo, médicos aeroespaciais e pesquisadores com carreiras excelentes. O setor espacial brasileiro contrata e há 7 carreiras espaciais para seguir sem sair do Brasil. Quem chegou lá, como conta a trajetória em Marcos Pontes: a história do primeiro astronauta brasileiro, primeiro construiu uma carreira sólida no chão.




