Em 30 de março de 2006, às 23h30 de Brasília, uma Soyuz decolou do Cazaquistão com três pessoas a bordo. Uma delas carregava no ombro a bandeira do Brasil. Marcos Cesar Pontes, tenente-coronel da Força Aérea, tornou-se o primeiro brasileiro e o primeiro lusófono a ir ao espaço. Vinte anos depois, ainda é o único brasileiro que orbitou a Terra. Esta é a história de como ele chegou lá, o que fez em órbita e por que não houve um segundo.
De Bauru à Academia da Força Aérea
Marcos Pontes nasceu em 11 de março de 1963, em Bauru, interior de São Paulo, em uma família de poucos recursos. O pai trabalhava no fórum da cidade e a mãe era dona de casa. Ele estudou em escola pública, fez curso técnico em eletrônica e entrou na Academia da Força Aérea em 1981.
Formou-se piloto de caça em 1984, voou aviões F-5 e Mirage III e, em 1993, graduou-se em engenharia aeronáutica pelo ITA. Depois fez mestrado em engenharia de sistemas na Escola Naval de Pós-Graduação dos Estados Unidos, na Califórnia. Acumulou mais de 2 mil horas de voo em 25 tipos de aeronaves e tornou-se piloto de testes e engenheiro de segurança de voo.
A seleção de 1998
Em 1997, o Brasil assinou um acordo com a NASA para participar da Estação Espacial Internacional. O país forneceria equipamentos, entre eles um palete externo para experimentos, e em troca teria direito a um astronauta e a tempo de pesquisa a bordo.
A Força Aérea abriu uma seleção interna. Pontes, então com 35 anos, foi escolhido entre os candidatos e, em 1998, foi enviado ao Centro Espacial Johnson, em Houston, onde entrou na turma de candidatos a astronauta da NASA daquele ano. Concluiu o treinamento básico em 2000 e ficou qualificado como especialista de missão do Ônibus Espacial.
Então a espera começou. E se estendeu.
Oito anos de espera e uma mudança de rota
O plano original era Pontes voar em um Ônibus Espacial para instalar o equipamento brasileiro na estação. Mas o Brasil atrasou a entrega dos componentes, por falta de orçamento e problemas na indústria, e a NASA foi perdendo a paciência. Em 2003, o acidente do Columbia paralisou a frota de ônibus espaciais por dois anos e embaralhou toda a fila de voos.
Pontes continuou treinando em Houston, mas o voo pela NASA ficou cada vez mais improvável. Em 2005, o governo brasileiro mudou de estratégia: negociou diretamente com a Rússia um assento na Soyuz, pagando cerca de 10 milhões de dólares, na época o preço de um voo de turista espacial. A NASA concordou com a mudança e Pontes se mudou para Moscou para treinar no Centro Gagarin de Treinamento de Cosmonautas.
O nome da missão homenageava outro brasileiro: Missão Centenário, pelos 100 anos do voo do 14-Bis de Alberto Santos Dumont, em Paris, em 1906.

O voo
A Soyuz TMA-8 decolou de Baikonur em 30 de março de 2006 com Pontes, o cosmonauta russo Pavel Vinogradov e o astronauta americano Jeffrey Williams. Os dois últimos iam ficar seis meses como a Expedição 13. Pontes ficaria oito dias e voltaria com a tripulação que estava lá, a Expedição 12.
Ele levou consigo uma bandeira do Brasil, uma camisa da seleção, um boné da Força Aérea, uma medalha de Nossa Senhora Aparecida e um pequeno pedaço da tela original do 14-Bis. Ao chegar à estação, em 1º de abril, disse a frase que virou manchete: "Ordem e progresso, e um Brasil cada vez maior."
Os oito experimentos
Pontes realizou oito experimentos científicos brasileiros, selecionados pela Agência Espacial Brasileira, seis deles de universidades e institutos e dois criados por alunos de escolas públicas:
- Germinação de feijão em microgravidade, o experimento mais divulgado, que rendeu a foto icônica das sementes flutuando.
- Crescimento de cristais de proteína, para pesquisa farmacêutica.
- Cromatografia de DNA em ausência de peso.
- Comportamento de enzimas e reações químicas.
- Efeitos da microgravidade na cinética de nanotubos.
- Teste de um trocador de calor desenvolvido por uma universidade brasileira.
- Evaporação de líquidos, experimento proposto por estudantes de São José dos Campos.
- Um experimento sobre plantas e microrganismos proposto por alunos de escola pública.
Além disso, conversou ao vivo com estudantes brasileiros e com o presidente da República, e gravou vídeos educativos que circularam em escolas do país inteiro.
A volta
Em 8 de abril de 2006, Pontes desacoplou da estação na Soyuz TMA-7 com os americanos William McArthur e o russo Valery Tokarev e pousou nas estepes do Cazaquistão após 9 dias, 21 horas e 17 minutos no espaço. Foi recebido como herói, deu centenas de palestras em escolas e escreveu livros. Também chegou a treinar para uma segunda missão, que nunca foi financiada.
Por que não houve um segundo brasileiro
O acordo com a NASA previa a participação brasileira na ISS com equipamentos que nunca foram entregues. Em 2007, o Brasil desistiu oficialmente do fornecimento e perdeu o direito a assentos. Sem programa próprio de voo tripulado e sem orçamento para comprar mais vagas na Soyuz, o país não voltou a enviar ninguém à órbita.
Em 2022, o engenheiro Victor Correa Hespanha fez um voo suborbital de 11 minutos na Blue Origin, tornando-se o segundo brasileiro no espaço, mas sem orbitar a Terra. Os caminhos que existem hoje para quem quer seguir os passos de Pontes estão em como se tornar astronauta sendo brasileiro.
Depois do espaço: política
Pontes aposentou-se da Força Aérea em 2010 e trabalhou como consultor e palestrante. Entre 2019 e 2022, foi Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações e, em 2022, elegeu-se senador por São Paulo. A entrada na política dividiu opiniões, mas seu voo continua sendo o ponto alto simbólico do programa espacial brasileiro, cujo estado atual detalhamos em o Brasil tem programa espacial? O que a AEB faz.




