Existe um pedaço de terra no litoral do Maranhão que engenheiros de foguete do mundo inteiro conhecem pelo nome: Alcântara. O Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) fica a apenas 2,3 graus ao sul do equador, mais perto da linha do que qualquer outra base de lançamento em operação no planeta. Essa posição vale dinheiro, e muito. Este artigo explica a vantagem física, a história cheia de tropeços e o que está acontecendo lá agora.
A vantagem: a Terra dá um empurrão grátis
A Terra gira de oeste para leste, e a superfície no equador se move a cerca de 1.670 km/h. Um foguete lançado para o leste a partir do equador já sai com essa velocidade de brinde. Quanto mais longe do equador, menor o empurrão: em Cabo Canaveral, a 28° norte, a velocidade cai para 1.470 km/h; em Baikonur, no Cazaquistão, a 46° norte, para 1.160 km/h.
Parece pouco, mas em foguetes cada metro por segundo custa combustível, e combustível custa carga útil. Estudos da própria Agência Espacial Brasileira estimam que, para uma órbita equatorial, lançar de Alcântara economiza até 30% de propelente em comparação com Cabo Canaveral. Isso significa foguetes menores para a mesma carga, ou mais carga no mesmo foguete.
Há um segundo benefício, ainda mais importante para satélites de comunicação: eles ficam em órbita geoestacionária, sobre o equador. Um foguete lançado do equador coloca o satélite direto no plano certo. Lançado de latitudes altas, o satélite precisa gastar o próprio combustível para "virar" a órbita, o que reduz sua vida útil em anos. Foi por isso que a Europa construiu sua base em Kourou, na Guiana Francesa, a 5° norte, e não na Europa.
Alcântara tem outros trunfos:
- Céu de lançamento aberto para o mar em um arco de 90 graus, do norte ao leste, o que permite tanto órbitas equatoriais quanto polares sem sobrevoar áreas povoadas.
- Baixa densidade populacional no entorno.
- Clima estável, sem furacões nem terremotos, com uma estação chuvosa previsível.
- Proximidade do porto de São Luís e de um aeroporto.

A história: um potencial que demorou a decolar
O CLA foi inaugurado em 1990, depois de anos de obras que envolveram a remoção de comunidades quilombolas, um conflito que persiste até hoje. Desde então, a base lançou centenas de foguetes de sondagem, que sobem e descem sem entrar em órbita, mas nunca colocou um satélite em órbita.
O VLS-1. O foguete brasileiro para satélites falhou em 1997 e 1999. Em 22 de agosto de 2003, um dos motores acendeu acidentalmente na plataforma, três dias antes do lançamento, e a explosão matou 21 técnicos e engenheiros. Foi o pior acidente da história espacial brasileira e um golpe do qual o programa de foguetes levou uma década para se recuperar. A história completa está em quando o Brasil vai lançar o próprio foguete.
A parceria com a Ucrânia. Em 2003, Brasil e Ucrânia criaram a Alcântara Cyclone Space para lançar o foguete ucraniano Cyclone-4 de Alcântara. Após mais de 10 anos e centenas de milhões de reais em obras, o Brasil encerrou a parceria em 2015 sem nenhum lançamento.
O acordo com os Estados Unidos. Desde os anos 2000 os americanos queriam lançar de Alcântara, mas exigiam um Acordo de Salvaguardas Tecnológicas para proteger a tecnologia dos foguetes. Uma primeira versão foi rejeitada pelo Congresso brasileiro em 2001 por ferir a soberania. Uma nova versão foi assinada em 2019 e ratificada no mesmo ano. Sem ela, nenhuma empresa que use componentes americanos, ou seja, quase todas, podia operar na base.
O que está acontecendo agora
Com o acordo em vigor, o Brasil passou a oferecer Alcântara para empresas privadas, o chamado Centro Espacial de Alcântara comercial:
- Innospace (Coreia do Sul). Em março de 2023 fez o primeiro lançamento comercial da história de Alcântara: o foguete suborbital HANBIT-TLV, que testou o motor do futuro veículo orbital HANBIT-Nano. A empresa prepara o primeiro lançamento orbital a partir da base, com um satélite brasileiro entre as cargas.
- Contratos assinados com a canadense C6 Launch, a americana Orion AST e outras para uso de plataformas. A americana Virgin Orbit também havia assinado, mas faliu em 2023.
- A Força Aérea Brasileira continua operando a base e lança seus próprios foguetes de sondagem e testes do programa VLM.
O ritmo é lento. Falta infraestrutura de integração de satélites, hotelaria, energia e pessoal em uma cidade de 20 mil habitantes. E as comunidades quilombolas, que já foram removidas uma vez, resistem a novas expansões. Em 2020 um plano de deslocar 800 famílias gerou reação nacional e internacional e foi suspenso.
Quanto isso pode valer
O mercado global de lançamentos gira em torno de 10 bilhões de dólares por ano, e o de pequenos satélites cresce rápido. A AEB estima que Alcântara em plena operação poderia gerar de algumas centenas de milhões a alguns bilhões de reais por ano em serviços, além de atrair empresas de tecnologia para o Maranhão. É um cálculo otimista, mas a Guiana Francesa mostra o que é possível: o centro espacial de Kourou responde por cerca de 15% do PIB do território.
O detalhe importante para o Brasil é que a base sozinha não gera indústria espacial. Ela vira relevante quando há um foguete nacional e satélites nacionais para lançar, e é nisso que o programa espacial aposta, como explicamos em o Brasil tem programa espacial? O que a AEB faz.
Dá para visitar?
O CLA é uma base militar e não tem visitação regular, mas a cidade histórica de Alcântara, patrimônio nacional com ruínas coloniais e vista para a baía de São Marcos, recebe turistas em barcos saindo de São Luís. Em datas de lançamento, os foguetes de sondagem podem ser vistos do centro da cidade e da capital, do outro lado da baía.




