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Alcântara: por que a base brasileira é cobiçada no mundo todo

A 2 graus do equador, Alcântara economiza até 30% de combustível por lançamento. A vantagem geográfica, a história e quem já lança de lá.

Publicado em 5 min de leitura
Foguete Antares na plataforma de lançamento à beira-mar, na ilha de Wallops, nos Estados Unidos
Foto: NASA/Bill Ingalls
Neste artigo
  1. A vantagem: a Terra dá um empurrão grátis
  2. A história: um potencial que demorou a decolar
  3. O que está acontecendo agora
  4. Quanto isso pode valer
  5. Dá para visitar?

Existe um pedaço de terra no litoral do Maranhão que engenheiros de foguete do mundo inteiro conhecem pelo nome: Alcântara. O Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) fica a apenas 2,3 graus ao sul do equador, mais perto da linha do que qualquer outra base de lançamento em operação no planeta. Essa posição vale dinheiro, e muito. Este artigo explica a vantagem física, a história cheia de tropeços e o que está acontecendo lá agora.

A vantagem: a Terra dá um empurrão grátis

A Terra gira de oeste para leste, e a superfície no equador se move a cerca de 1.670 km/h. Um foguete lançado para o leste a partir do equador já sai com essa velocidade de brinde. Quanto mais longe do equador, menor o empurrão: em Cabo Canaveral, a 28° norte, a velocidade cai para 1.470 km/h; em Baikonur, no Cazaquistão, a 46° norte, para 1.160 km/h.

Parece pouco, mas em foguetes cada metro por segundo custa combustível, e combustível custa carga útil. Estudos da própria Agência Espacial Brasileira estimam que, para uma órbita equatorial, lançar de Alcântara economiza até 30% de propelente em comparação com Cabo Canaveral. Isso significa foguetes menores para a mesma carga, ou mais carga no mesmo foguete.

Há um segundo benefício, ainda mais importante para satélites de comunicação: eles ficam em órbita geoestacionária, sobre o equador. Um foguete lançado do equador coloca o satélite direto no plano certo. Lançado de latitudes altas, o satélite precisa gastar o próprio combustível para "virar" a órbita, o que reduz sua vida útil em anos. Foi por isso que a Europa construiu sua base em Kourou, na Guiana Francesa, a 5° norte, e não na Europa.

Alcântara tem outros trunfos:

  • Céu de lançamento aberto para o mar em um arco de 90 graus, do norte ao leste, o que permite tanto órbitas equatoriais quanto polares sem sobrevoar áreas povoadas.
  • Baixa densidade populacional no entorno.
  • Clima estável, sem furacões nem terremotos, com uma estação chuvosa previsível.
  • Proximidade do porto de São Luís e de um aeroporto.

Vista aérea do Complexo de Lançamento 39, na costa da Flórida, com a plataforma e o oceano ao fundo
Vista aérea do Complexo 39 do Centro Espacial Kennedy, na costa da Flórida. Bases costeiras lançam sobre o mar; em Alcântara, o arco livre de 90 graus vai do norte ao leste. Foto: NASA/JSC

A história: um potencial que demorou a decolar

O CLA foi inaugurado em 1990, depois de anos de obras que envolveram a remoção de comunidades quilombolas, um conflito que persiste até hoje. Desde então, a base lançou centenas de foguetes de sondagem, que sobem e descem sem entrar em órbita, mas nunca colocou um satélite em órbita.

O VLS-1. O foguete brasileiro para satélites falhou em 1997 e 1999. Em 22 de agosto de 2003, um dos motores acendeu acidentalmente na plataforma, três dias antes do lançamento, e a explosão matou 21 técnicos e engenheiros. Foi o pior acidente da história espacial brasileira e um golpe do qual o programa de foguetes levou uma década para se recuperar. A história completa está em quando o Brasil vai lançar o próprio foguete.

A parceria com a Ucrânia. Em 2003, Brasil e Ucrânia criaram a Alcântara Cyclone Space para lançar o foguete ucraniano Cyclone-4 de Alcântara. Após mais de 10 anos e centenas de milhões de reais em obras, o Brasil encerrou a parceria em 2015 sem nenhum lançamento.

O acordo com os Estados Unidos. Desde os anos 2000 os americanos queriam lançar de Alcântara, mas exigiam um Acordo de Salvaguardas Tecnológicas para proteger a tecnologia dos foguetes. Uma primeira versão foi rejeitada pelo Congresso brasileiro em 2001 por ferir a soberania. Uma nova versão foi assinada em 2019 e ratificada no mesmo ano. Sem ela, nenhuma empresa que use componentes americanos, ou seja, quase todas, podia operar na base.

O que está acontecendo agora

Com o acordo em vigor, o Brasil passou a oferecer Alcântara para empresas privadas, o chamado Centro Espacial de Alcântara comercial:

  • Innospace (Coreia do Sul). Em março de 2023 fez o primeiro lançamento comercial da história de Alcântara: o foguete suborbital HANBIT-TLV, que testou o motor do futuro veículo orbital HANBIT-Nano. A empresa prepara o primeiro lançamento orbital a partir da base, com um satélite brasileiro entre as cargas.
  • Contratos assinados com a canadense C6 Launch, a americana Orion AST e outras para uso de plataformas. A americana Virgin Orbit também havia assinado, mas faliu em 2023.
  • A Força Aérea Brasileira continua operando a base e lança seus próprios foguetes de sondagem e testes do programa VLM.

O ritmo é lento. Falta infraestrutura de integração de satélites, hotelaria, energia e pessoal em uma cidade de 20 mil habitantes. E as comunidades quilombolas, que já foram removidas uma vez, resistem a novas expansões. Em 2020 um plano de deslocar 800 famílias gerou reação nacional e internacional e foi suspenso.

Quanto isso pode valer

O mercado global de lançamentos gira em torno de 10 bilhões de dólares por ano, e o de pequenos satélites cresce rápido. A AEB estima que Alcântara em plena operação poderia gerar de algumas centenas de milhões a alguns bilhões de reais por ano em serviços, além de atrair empresas de tecnologia para o Maranhão. É um cálculo otimista, mas a Guiana Francesa mostra o que é possível: o centro espacial de Kourou responde por cerca de 15% do PIB do território.

O detalhe importante para o Brasil é que a base sozinha não gera indústria espacial. Ela vira relevante quando há um foguete nacional e satélites nacionais para lançar, e é nisso que o programa espacial aposta, como explicamos em o Brasil tem programa espacial? O que a AEB faz.

Dá para visitar?

O CLA é uma base militar e não tem visitação regular, mas a cidade histórica de Alcântara, patrimônio nacional com ruínas coloniais e vista para a baía de São Marcos, recebe turistas em barcos saindo de São Luís. Em datas de lançamento, os foguetes de sondagem podem ser vistos do centro da cidade e da capital, do outro lado da baía.

Perguntas frequentes

Por que a base de Alcântara é considerada a melhor do mundo?

Pela posição a 2,3° do equador, a mais próxima da linha entre as bases em operação. Isso dá aos foguetes o maior impulso possível da rotação da Terra, economizando até 30% de combustível, e permite colocar satélites de comunicação direto na órbita equatorial.

Alcântara já lançou algum satélite?

Não. A base lançou centenas de foguetes de sondagem, que não entram em órbita, e o foguete VLS-1 falhou nas três tentativas. O primeiro lançamento orbital deve ser feito pela empresa sul-coreana Innospace, com o foguete HANBIT-Nano.

O que foi o acidente de Alcântara em 2003?

Em 22 de agosto de 2003, um motor do foguete VLS-1 acendeu acidentalmente na plataforma, três dias antes do lançamento previsto. A explosão matou 21 técnicos e engenheiros e destruiu a torre. Foi o pior acidente da história espacial brasileira.

Empresas estrangeiras podem lançar de Alcântara?

Sim, desde a ratificação do Acordo de Salvaguardas Tecnológicas com os Estados Unidos, em 2019. A sul-coreana Innospace fez o primeiro lançamento comercial em 2023, e outras empresas assinaram contratos de uso.

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