Em 28 de fevereiro de 2021, um foguete indiano decolou levando a bordo o primeiro satélite totalmente projetado, integrado, testado e operado pelo Brasil. O Amazônia-1 passa sobre o país todos os dias a 752 km de altitude, fotografando faixas de 850 km de largura. Suas imagens vigiam a floresta, medem safras e acompanham enchentes. E qualquer pessoa pode baixá-las de graça. Este artigo explica o que ele é, como funciona e o que faz por você, mesmo que você nunca tenha ouvido falar dele.
Por que "100% brasileiro" importa
O Brasil tinha satélites antes: os SCD, de coleta de dados, e os CBERS, feitos em parceria com a China. Mas o Amazônia-1 foi o primeiro em que todas as etapas foram brasileiras: o projeto no INPE, a fabricação de componentes por empresas nacionais, a integração e os testes no Laboratório de Integração e Testes de São José dos Campos, e a operação a partir dos centros de controle de São José e Cuiabá.
Só cerca de 20 países dominam o ciclo completo de um satélite desse porte. Entrar nesse grupo significa não depender de ninguém para decidir o que observar, quando e com que resolução, algo estratégico para um país com 8,5 milhões de km² e a maior floresta tropical do mundo.
Como ele é
- Massa: 640 kg, o tamanho de um carro pequeno.
- Plataforma: a Plataforma Multimissão (PMM), um "chassi" padronizado desenvolvido pelo INPE que pode ser reaproveitado em outros satélites, o que barateia os próximos.
- Órbita: heliossíncrona, a 752 km, passando sempre no mesmo horário local, por volta das 10h30, para que as sombras nas imagens sejam consistentes.
- Câmera: o imageador de campo largo (WFI), com quatro bandas espectrais (azul, verde, vermelho e infravermelho próximo), faixa de 850 km de largura e resolução de 64 metros por pixel.
- Revisita: fotografa qualquer ponto do Brasil a cada 5 dias, e pontos da Amazônia com mais frequência, por causa da sobreposição das faixas.
- Vida útil projetada: 4 anos, já superada. Em 2026 continua operando.
A resolução de 64 metros não é alta: não dá para ver casas nem carros. Foi uma escolha. O objetivo é cobertura rápida de áreas gigantescas, não detalhe. Para ver um pedaço de floresta sendo derrubado, 64 metros bastam, e a faixa larga permite ver o país inteiro em poucos dias.

O que ele faz
Vigiar o desmatamento
É a missão principal. As imagens alimentam o DETER, sistema do INPE que emite alertas de desmatamento em quase tempo real, e o PRODES, que calcula a taxa anual oficial de desmatamento da Amazônia. Esses alertas vão para o IBAMA, a Polícia Federal e os órgãos estaduais, que planejam a fiscalização. Antes do Amazônia-1, o Brasil dependia de satélites americanos, europeus e do CBERS para isso. Agora tem uma fonte própria, com revisita mais frequente.
Medir safras
Com as bandas de infravermelho, a câmera distingue vegetação saudável de vegetação estressada e solo exposto. Isso permite acompanhar o ciclo das plantações de soja, milho e cana, estimar a área plantada e prever colheitas. A Conab, o IBGE e a Embrapa usam esses dados, e o agronegócio também.
Acompanhar desastres
Enchentes, queimadas, rompimento de barragens e derramamentos de óleo no litoral. Durante as enchentes do Rio Grande do Sul em 2024, imagens do Amazônia-1 e do CBERS-4A ajudaram a mapear a extensão das áreas alagadas.
Monitorar costa e água
A largura da faixa permite acompanhar o litoral inteiro, manchas de sedimentos na foz dos rios, florações de algas em represas e a variação do nível de grandes reservatórios.
Como acessar as imagens de graça
Todas as imagens do Amazônia-1 são públicas. O caminho:
- Acesse o Catálogo de Imagens do INPE (www.dgi.inpe.br/catalogo).
- Escolha o satélite AMAZONIA1 e a câmera WFI.
- Desenhe no mapa a região que quer, escolha o período e clique em buscar.
- Baixe as cenas em formato GeoTIFF, que abre em programas gratuitos como o QGIS.
Para quem só quer olhar, o portal TerraBrasilis, também do INPE, mostra mapas de desmatamento prontos, e o Brazil Data Cube oferece as imagens organizadas para análise. Professores usam essas imagens em aulas de geografia; jornalistas, em reportagens; startups, em produtos de agricultura de precisão. É um dos exemplos mais claros de um investimento público que retorna para todo mundo.
Quanto custou e quem fez
O programa Amazônia custou cerca de R$ 380 milhões ao longo de 12 anos, incluindo o desenvolvimento da plataforma PMM. O lançamento, no foguete PSLV da Índia, foi contratado por cerca de US$ 4 milhões, opção mais barata que os concorrentes. Para entender os preços, veja quanto custa lançar um foguete.
Participaram do projeto o INPE e mais de uma dezena de empresas brasileiras, entre elas Equatorial Sistemas, Orbital Engenharia, Fibraforte, Cenic, Omnisys e AEL Sistemas. Muitos dos engenheiros formaram-se na pós-graduação do INPE, uma das trilhas de carreiras espaciais no Brasil.
O que vem depois
O Amazônia-1B, em desenvolvimento, terá a mesma plataforma e uma câmera adicional, e o Amazônia-2 deve trazer resolução melhor. A ideia é manter uma constelação contínua, para que nunca haja um período sem satélite brasileiro de observação em órbita. Em paralelo, o governo comprou imagens de alta resolução de fornecedores estrangeiros pelo programa Lessonia, para complementar o que os satélites nacionais não veem em detalhe.
O sonho de longo prazo é lançar o Amazônia-2 de Alcântara, em um foguete brasileiro. Falta o foguete, e os prazos disso estão em quando o Brasil vai lançar o próprio foguete. Enquanto isso, o Amazônia-1 segue passando sobre a sua cabeça todos os dias, às 10h30, olhando para baixo.




