Onze países e uma agência multinacional já colocaram satélites em órbita com foguetes próprios. O Brasil, que começou a tentar nos anos 1980 e tem a base mais bem localizada do mundo, não está nessa lista. A pergunta "quando o Brasil vai lançar o próprio foguete?" tem uma resposta técnica e uma resposta honesta. A técnica: o VLM-1 está em desenvolvimento, com voos de teste previstos a partir de Alcântara. A honesta: depende de dinheiro, e o histórico não ajuda. Aqui está o que aconteceu, o que existe e o que esperar.
O que o Brasil já sabe fazer
Antes do que não deu certo, o que funciona: o Brasil domina foguetes de sondagem, veículos que sobem até 100, 200 ou 300 km, passam alguns minutos no espaço e caem de volta, sem entrar em órbita.
A família VSB-30, desenvolvida pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) com a Avibras, é a mais bem-sucedida. Desde 2005 ela é o foguete padrão da Agência Espacial Europeia para experimentos de microgravidade, lançado da base de Esrange, na Suécia, em dezenas de voos. O Brasil exporta foguetes para a Europa há 20 anos. Poucos sabem.
Foguetes de sondagem brasileiros também são lançados de Alcântara e da Barreira do Inferno, no Rio Grande do Norte, para experimentos de universidades e testes de tecnologia.
O VLS-1: três tentativas e uma tragédia
O Veículo Lançador de Satélites foi o grande projeto nacional. Um foguete de quatro estágios a propelente sólido, de 19 metros, para colocar satélites de até 380 kg em órbita baixa. Desenvolvido desde os anos 1980 com tecnologia própria, porque os Estados Unidos e outros países vetaram a transferência de tecnologia de foguetes ao Brasil por décadas.
- 1997, VLS-1 V01: um dos quatro motores do primeiro estágio não acendeu. O foguete foi destruído por comando de segurança 65 segundos após o lançamento.
- 1999, VLS-1 V02: falha no segundo estágio. Destruído aos 3 minutos de voo.
- 2003, VLS-1 V03: em 22 de agosto, durante os preparativos finais, um dos motores acendeu acidentalmente na plataforma. A explosão destruiu a torre e matou 21 pessoas, a maioria engenheiros e técnicos do IAE. A investigação apontou uma descarga elétrica indevida no sistema de ignição, mas também problemas de gestão, pressão de prazo e falta de recursos.
O acidente devastou a equipe que detinha o conhecimento e paralisou o programa. O VLS-1 foi oficialmente cancelado em 2016, após tentativas de retomada com a Rússia que não avançaram.

O VLM-1: o plano atual
Em 2010, o Brasil e a Alemanha começaram a desenvolver juntos o Veículo Lançador de Microssatélites, um foguete menor e mais simples, com foco em um mercado que explodiu na última década: satélites pequenos.
- Três estágios a propelente sólido, dois deles com o novo motor S50, de 12 toneladas de propelente e carcaça de fibra de carbono.
- Capacidade: cerca de 150 kg para uma órbita de 300 km, ou menos para órbitas mais altas.
- Parceiro: o Centro Aeroespacial Alemão (DLR), que fornece parte da eletrônica e usará o veículo para experimentos hipersônicos.
- Base: Alcântara.
O motor S50 foi testado com sucesso em bancada em 2021 e 2022, os maiores motores já queimados no Brasil. O plano é um voo suborbital de qualificação, o VS-50, com dois estágios, antes do voo orbital completo do VLM-1. O VS-50 estava previsto para 2024, foi adiado e a previsão em 2026 é de que aconteça nos próximos anos, seguido do primeiro voo orbital cerca de um a dois anos depois.
Ou seja: a primeira tentativa de colocar um satélite em órbita com foguete brasileiro deve acontecer no fim desta década, se o orçamento se mantiver. Cada "se" nessa frase já derrubou prazos antes.
Por que demora tanto
Dinheiro. O programa espacial brasileiro tem menos de R$ 1 bilhão por ano para tudo, e o orçamento para foguetes é uma fração disso, sujeita a cortes anuais. Comparando: a Rocket Lab gastou cerca de US$ 100 milhões para desenvolver o Electron, um foguete parecido, em ritmo de empresa privada e com financiamento contínuo.
Embargos. Durante décadas, o Brasil não pôde comprar componentes críticos de foguete, como sistemas de guiagem e materiais especiais, por causa do regime de controle de tecnologia de mísseis. O país só entrou no regime em 1995, e mesmo assim enfrenta restrições.
Perda de gente. O acidente de 2003 e os cortes seguintes levaram engenheiros experientes para a indústria privada e para o exterior. Reconstruir equipes leva uma geração.
Prioridade política. Foguetes não geram retorno visível rápido, ao contrário de satélites, e cada governo redefine o programa. O detalhe completo da estrutura e do orçamento está em o Brasil tem programa espacial? O que a AEB faz.
E a iniciativa privada?
Diferente dos Estados Unidos, o Brasil não tem uma SpaceX. Mas o cenário começou a mudar. A abertura de Alcântara para empresas estrangeiras, detalhada em Alcântara: por que a base é cobiçada, trouxe a sul-coreana Innospace, que fez o primeiro lançamento comercial da base em 2023 e prepara o primeiro lançamento orbital. Não é um foguete brasileiro, mas cria infraestrutura, serviços e demanda que um foguete nacional pode aproveitar. Startups brasileiras, ainda pequenas, desenvolvem motores e veículos suborbitais.
Precisa mesmo de um foguete próprio?
É um debate real. Argumentos a favor: autonomia estratégica para lançar satélites de defesa e de observação sem depender de outros países, aproveitamento de Alcântara e desenvolvimento tecnológico com efeitos em outras indústrias. Argumentos contra: o mercado de lançamentos já é competitivo e barato, como mostramos em quanto custa lançar um foguete, e o Brasil poderia investir o mesmo dinheiro em mais satélites, como o Amazônia-1, lançando-os em foguetes estrangeiros a preço de mercado.
A posição oficial é a de que o VLM-1 é estratégico e continua. A posição realista é que ele vai continuar avançando devagar até que haja orçamento previsível.




