"Lado escuro da Lua" é uma das expressões mais famosas e mais erradas da cultura popular. O lado que não vemos da Terra recebe tanta luz do Sol quanto o lado visível. Ele é oculto, não escuro. E é bem diferente da face que conhecemos: quase sem as manchas escuras, coberto de crateras e com a maior cratera de impacto do Sistema Solar. Aqui está o que a ciência já descobriu do outro lado.
Por que sempre vemos a mesma face
A Lua gira em torno do próprio eixo no mesmo tempo que leva para dar uma volta ao redor da Terra: cerca de 27,3 dias. Isso se chama rotação sincronizada, e o resultado é que ela mostra sempre a mesma face para nós.
Não é coincidência. Bilhões de anos atrás a Lua girava mais rápido. A gravidade da Terra deformou a Lua levemente, criando uma "protuberância" de maré, e o atrito dessa deformação freou a rotação até ela travar na posição atual. O mesmo aconteceu com quase todas as luas grandes do Sistema Solar em relação aos seus planetas.
Uma curiosidade: por causa da órbita elíptica e da inclinação do eixo, a Lua "balança" um pouco visto da Terra, um efeito chamado libração. Ao longo do tempo, conseguimos ver cerca de 59% da superfície, não apenas 50%.
Lado oculto não é lado escuro
Como a Lua gira, cada ponto da superfície tem duas semanas de dia e duas de noite. Quando é Lua nova para nós, o lado oculto está totalmente iluminado. O "lado escuro" só existe como metáfora, ou como o título do disco do Pink Floyd.
Como é o lado oculto
A primeira foto veio da sonda soviética Luna 3, em outubro de 1959, e surpreendeu os cientistas. A face oculta é muito diferente:
Quase não tem "mares". As manchas escuras que formam o "rosto" da Lua vista da Terra são os mares lunares: planícies de lava basáltica solidificada. Eles cobrem 31% do lado visível, mas só cerca de 1% do lado oculto.
A crosta é mais espessa. Medições da missão GRAIL, da NASA, mostraram que a crosta do lado oculto tem em média 15 a 20 km a mais. A explicação mais aceita: nos primeiros milhões de anos, a Terra ainda estava incandescente e aquecia o lado voltado para ela, deixando a crosta mais fina e permitindo que a lava vazasse para a superfície. O lado oposto esfriou mais rápido e formou uma casca grossa que a lava não conseguiu romper.
É coberto de crateras. Sem lava para "apagar" impactos antigos, o lado oculto preserva bilhões de anos de colisões. É uma superfície mais acidentada e mais antiga.
Abriga a Bacia Aitken do Polo Sul. Com cerca de 2.500 km de diâmetro e 13 km de profundidade, é uma das maiores estruturas de impacto conhecidas no Sistema Solar. Ela cobre quase um quarto da Lua e é o principal alvo científico da região.

Quem já esteve lá
Nenhum ser humano pisou no lado oculto. Os astronautas das Apollo passaram por cima dele em órbita, e foram as únicas pessoas a vê-lo com os próprios olhos. Michael Collins, da Apollo 11, ficou sozinho na órbita lunar enquanto os colegas desciam, e durante metade de cada órbita estava atrás da Lua, sem contato com a Terra e com nenhum outro ser humano.
Pousar lá é difícil por um motivo simples: a Lua bloqueia o rádio. Uma sonda no lado oculto não consegue falar direto com a Terra. A solução é um satélite retransmissor posicionado atrás da Lua.
Foi o que a China fez. Em janeiro de 2019, a Chang'e 4 fez o primeiro pouso da história no lado oculto, na cratera Von Kármán, dentro da Bacia Aitken, usando o satélite Queqiao como ponte de comunicação. O jipe Yutu-2 rodou por anos analisando o solo e encontrou material que parece vir do manto lunar, exposto pelo impacto gigante.
Em junho de 2024, a Chang'e 6 foi além: pousou, coletou cerca de 1,9 kg de rochas e poeira e trouxe as primeiras amostras do lado oculto para a Terra. As análises iniciais mostram rochas vulcânicas com idades de 2,8 e 4,2 bilhões de anos e indícios de um manto mais seco e com composição diferente da face visível. Os resultados estão redesenhando as teorias sobre a formação da Lua.
Por que o lado oculto interessa tanto
Além da geologia, há um motivo prático: silêncio de rádio. Com a Lua inteira bloqueando os sinais da Terra, o lado oculto é o lugar mais silencioso do Sistema Solar interno para radioastronomia. Projetos da NASA e da China preveem antenas no lado oculto para escutar o universo primitivo em frequências que na Terra são inaudíveis por causa das nossas transmissões.
O programa Artemis também mira o polo sul lunar, na fronteira entre as duas faces, onde crateras permanentemente sombreadas guardam gelo de água. Falamos sobre isso em Artemis III: quando vamos pisar na Lua de novo.
E os mitos?
Não há bases alienígenas, cidades secretas nem naves nazistas. O lado oculto foi fotografado inteiro, em alta resolução, pela sonda Lunar Reconnaissance Orbiter da NASA, e os mapas são públicos. Qualquer pessoa pode explorá-los no site quickmap.lroc.asu.edu. O que existe é um deserto de crateras extremamente antigo, com um dos maiores buracos de impacto do Sistema Solar e a chave para entender por que a Lua tem duas caras tão diferentes.




