No equador, a superfície da Terra se move a cerca de 1.670 km/h por causa da rotação. O planeta inteiro viaja a 107 mil km/h ao redor do Sol. E o Sistema Solar todo corre a 828 mil km/h em torno do centro da Via Láctea. Você está participando de todos esses movimentos agora, sentado, e não sente absolutamente nada. Por quê?
A resposta curta: você não sente velocidade, sente mudança de velocidade
Pense em um avião em voo de cruzeiro. Ele está a 900 km/h e você consegue servir café, andar até o banheiro, dormir. Só percebe o movimento na decolagem, nas turbulências e na freada do pouso, ou seja, quando a velocidade muda. Isso é a inércia, o princípio que Galileu descreveu no século XVII e que Newton formalizou na primeira lei do movimento: um corpo em movimento uniforme tende a continuar assim, e nada dentro dele "sente" esse movimento.
A Terra gira a uma velocidade praticamente constante há bilhões de anos. Você, o ar, o oceano e os prédios giram junto, na mesma velocidade. Não há nada em relação ao qual você esteja se movendo, e não há aceleração perceptível. Logo, não há sensação.
Mas girar não é acelerar?
Boa pergunta, e a resposta é sim. Um movimento circular envolve uma aceleração constante em direção ao centro, a aceleração centrípeta. É ela que você sente numa curva de carro ou num carrossel.
Só que a Terra gira devagar: uma volta a cada 24 horas. A aceleração centrípeta no equador é de cerca de 0,034 m/s², ou 0,3% da gravidade. Isso significa que você pesa cerca de 0,3% menos no equador do que nos polos, um efeito real que balanças de precisão conseguem detectar, mas que nenhum corpo humano percebe. Em um carrossel de parque, a aceleração é dezenas de vezes maior e por isso você sente.
Por que o ar não fica para trás
Outra dúvida comum: se a Terra gira a 1.670 km/h, por que não sentimos um vento dessa velocidade? Pelo mesmo motivo: a atmosfera gira junto com o planeta. Ela foi arrastada pela superfície ao longo de bilhões de anos e está em equilíbrio. O vento que você sente são apenas as diferenças locais de pressão, não a rotação.
O mesmo vale para o pulo: quando você salta, você já tem a velocidade horizontal da Terra e a mantém enquanto está no ar. Por isso cai no mesmo lugar, e não metros para o oeste.

Como provar que a Terra gira
Se não sentimos, como sabemos? Há várias provas acessíveis a qualquer pessoa:
O pêndulo de Foucault. Em 1851, o físico francês Léon Foucault pendurou um pêndulo de 67 metros no Panteão de Paris. Ao longo do dia, o plano de oscilação girava lentamente. O pêndulo não estava mudando de direção: era o chão, e o prédio, e Paris, girando embaixo dele. Muitos museus de ciência brasileiros têm um pêndulo de Foucault, e você pode ver a rotação acontecer em minutos.
O efeito Coriolis. Objetos que se movem por longas distâncias na superfície são desviados: para a direita no hemisfério norte, para a esquerda no hemisfério sul. É isso que faz furacões girarem em sentidos opostos nos dois hemisférios e obriga artilheiros e engenheiros de foguetes a corrigir a trajetória. Não, ele não afeta a água da pia ou do vaso sanitário; esse é um mito. O efeito é pequeno demais para um objeto de 30 cm.
As estrelas se movem. Aponte uma câmera para o céu por uma hora com exposição longa e as estrelas deixam rastros em arco em torno do polo celeste. É a Terra girando embaixo do céu.
Achatamento dos polos. A Terra é 43 km mais larga no equador do que de polo a polo. Esse "inchaço" é causado pela rotação e é medido com precisão por satélites.
Satélites e foguetes. Foguetes são lançados para o leste para aproveitar a velocidade da rotação. Quanto mais perto do equador, maior o impulso grátis: é por isso que a base de Alcântara, no Maranhão, é tão valorizada, como explicamos em Alcântara: por que a base brasileira é cobiçada.
O que aconteceria se a Terra parasse de repente
Este é o cenário de filme. Se a rotação cessasse instantaneamente, tudo que não está preso ao solo, incluindo o ar, os oceanos e as pessoas, continuaria se movendo a 1.670 km/h no equador. Seria uma catástrofe global de ventos supersônicos e tsunamis continentais.
Se parasse devagar, ao longo de milhões de anos, o resultado seria diferente e também drástico: dias e noites de seis meses cada, temperaturas extremas, perda do campo magnético que nos protege do vento solar e redistribuição dos oceanos para os polos. Não é algo com que se preocupar: a rotação está desacelerando, mas em cerca de 1,8 milissegundo por século, por causa das marés lunares. Daqui a 200 milhões de anos, o dia terá 25 horas.
Por que a Terra gira, afinal?
Ela nunca parou desde que nasceu. A nuvem de gás e poeira que formou o Sistema Solar tinha uma leve rotação. Ao se contrair pela gravidade, girou cada vez mais rápido, como uma patinadora que fecha os braços. Os planetas herdaram esse giro. No vácuo do espaço não há atrito para freá-lo; apenas as marés da Lua roubam um pouco de energia ao longo de éons.




