Guias práticos

Como achar o Cruzeiro do Sul (e o sul) no céu

Guia simples para achar o Cruzeiro do Sul a olho nu, não confundir com o Falso Cruzeiro e usar as estrelas para descobrir onde fica o sul.

Publicado em 9 min de leitura
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Céu estrelado com a faixa da Via Láctea fotografado da Estação Espacial, com o horizonte da Terra brilhando em laranja embaixo
Foto: Kjell Lindgren
Neste artigo
  1. O passo a passo, em três minutos
  2. As cinco estrelas, uma a uma
  3. Como achar o sul de verdade
  4. Cuidado: o Falso Cruzeiro engana muita gente
  5. O Cruzeiro do Sul na bandeira do Brasil
  6. Precisa de telescópio? Não

Para achar o Cruzeiro do Sul, fique de frente para o sul numa noite sem nuvens, longe de poste aceso, e procure quatro estrelas brilhantes formando uma pipa — não uma cruz perfeita, e sim um losango alongado, com o eixo mais comprido apontando para baixo, na direção do horizonte. Ao lado dele, uma quinta estrela mais fraca fica ligeiramente fora do desenho. Esse é o Cruzeiro.

Depois de achar, o truque vale ouro: prolongue o eixo mais longo da cruz umas quatro vezes e meia e você chega ao ponto do céu em torno do qual tudo gira no hemisfério sul. Desça dali em linha reta até o chão: ali é o sul. Sem bússola, sem celular, sem bateria.

O passo a passo, em três minutos

  1. Descubra o lado sul aproximado. Se não souber, use o Sol: ele se põe grosso modo a oeste. De costas para o poente, com o braço direito apontando para onde o Sol sumiu, você está olhando aproximadamente para o sul. Serve para começar.
  2. Deixe os olhos se acostumarem. São uns 15 minutos no escuro, sem olhar para a tela do celular. A diferença é enorme: o céu literalmente ganha estrelas.
  3. Procure o desenho, não a "cruz". O que você vai ver é uma pipa comprida, com as duas estrelas mais brilhantes nas pontas do eixo maior.
  4. Confirme com as duas guardiãs. À esquerda do Cruzeiro (quando ele está em pé) há duas estrelas bem brilhantes, próximas uma da outra, chamadas de "os ponteiros" ou "as guardiãs". Se elas estão lá, você achou o Cruzeiro de verdade — e não o impostor que explicamos mais abaixo.

A altura em que ele aparece depende de onde você mora e da época do ano. Esta tabela é para São Paulo, às 21h, e dá a ideia geral para o Sudeste:

Mês Altura do Cruzeiro às 21h Como está
Janeiro ~9° Rasgando o horizonte sudeste, difícil
Fevereiro ~22° Já dá para ver, deitado
Março ~34° Bom, subindo a sudeste
Abril ~46° Muito bom, quase em pé
Maio ~50° O melhor mês: alto e em pé, apontando para baixo
Junho ~45° Muito bom, começando a tombar a sudoeste
Julho ~34° Bom, deitado a sudoeste
Agosto ~20° Baixo, mas visível
Setembro ~8° Muito baixo, some atrás de prédio e morro
Outubro a dezembro no horizonte ou abaixo Praticamente invisível às 21h

Duas observações importantes. No Nordeste o Cruzeiro aparece bem mais baixo: em Recife, no melhor mês, ele chega a uns 35 graus, e entre setembro e dezembro fica abaixo do horizonte às 21h. Já em Porto Alegre ele é generoso: fica alto em maio e continua visível, baixinho, até em dezembro.

E o horário muda tudo. Cada mês que passa, o céu se adianta cerca de duas horas. Então o Cruzeiro que você vê às 21h em maio é o mesmo que aparece às 3h da manhã em janeiro. Se você é de acordar cedo, ele volta a ser visível de madrugada mesmo no verão.

(Os valores são cálculo próprio, a partir das coordenadas das estrelas e da latitude de cada cidade.)

As cinco estrelas, uma a uma

O Cruzeiro do Sul é a menor das 88 constelações reconhecidas oficialmente — ocupa um pedacinho de céu do tamanho aproximado de duas mãos fechadas com o braço esticado. Pequena, mas cheia de estrelas brilhantes, o que a torna fácil.

Estrela Nome tradicional Onde fica Estado na bandeira
Alfa do Cruzeiro (Acrux) Estrela de Magalhães Pé da cruz, a mais ao sul e a mais brilhante São Paulo
Beta do Cruzeiro (Mimosa) Mimosa Braço esquerdo Rio de Janeiro
Gama do Cruzeiro (Gacrux) Rubídea Topo da cruz, a mais ao norte, alaranjada Bahia
Delta do Cruzeiro (Imai) Pálida Braço direito, a mais fraca das quatro Minas Gerais
Épsilon do Cruzeiro (Ginan) Intrometida Fora do desenho, entre o pé e o braço direito Espírito Santo

Repare no apelido da quinta: Intrometida. Ela é bem mais fraca que as outras e fica meio "atravessada" no desenho, estragando a simetria da cruz — daí o nome, que os navegadores portugueses já usavam.

Vale olhar com atenção para Gacrux, no alto. Ela tem uma cor claramente alaranjada, diferente do branco-azulado das outras, e é a que está mais perto de nós: cerca de 90 anos-luz, contra algumas centenas de anos-luz das demais. É uma gigante vermelha, uma estrela velha e inchada — o mesmo destino que espera o nosso Sol, como contamos em O Sol vai explodir? Quando e o que acontece com a gente. Se a distância em anos-luz não fizer sentido para você, comece por O que é um ano-luz? A medida do universo com exemplos simples.

(As distâncias das outras estrelas variam conforme a medição usada, e por isso ficam aqui como aproximadas. A de Gacrux é a mais bem estabelecida.)

Como achar o sul de verdade

Esta é a habilidade prática, a mesma que trouxe as caravelas até aqui.

O céu do hemisfério sul gira em torno de um ponto chamado polo sul celeste. Diferente do hemisfério norte, que tem a Estrela Polar bem em cima do polo, o nosso polo não tem nenhuma estrela visível marcando o lugar. Por isso precisamos do Cruzeiro para chegar lá.

O método:

  1. Trace mentalmente a linha do eixo maior da cruz: de Gacrux (a alaranjada, no topo) até Acrux (a mais brilhante, no pé).
  2. Prolongue essa linha quatro vezes e meia, sempre no sentido de Gacrux para Acrux, continuando para além do pé da cruz.
  3. Onde você parar é, com boa aproximação, o polo sul celeste.
  4. Desça em linha reta até o chão. Aquele ponto no horizonte é o sul geográfico.

Um detalhe que ajuda a conferir: a altura do polo sul acima do horizonte é igual à latitude da sua cidade. Em São Paulo, a cerca de 23 graus e meio de latitude sul, o polo fica a uns 23 graus e meio acima do horizonte — mais ou menos um quarto do caminho entre o chão e o ponto bem em cima da sua cabeça. Em Porto Alegre, a uns 30 graus. Em Belém, quase colado no horizonte.

E por isso mesmo: quem mora ao norte da linha do equador, como em Boa Vista, tem muita dificuldade para ver o Cruzeiro — e no hemisfério norte, acima de uns 25 graus de latitude, ele simplesmente nunca aparece. Foi por isso que a constelação sumiu do céu europeu ao longo dos séculos e virou "descoberta" para os navegadores que desceram o Atlântico.

Pessoas observando o céu à noite em volta de um telescópio amador num gramado, com estrelas visíveis acima
Para o Cruzeiro do Sul, telescópio não é necessário: as cinco estrelas são de olho nu. O instrumento só entra se você quiser ver que Acrux, na verdade, são duas estrelas coladas. Foto: NASA/Jay Westcott

Cuidado: o Falso Cruzeiro engana muita gente

Este é o erro mais comum de quem está começando, e por isso vale a seção inteira.

Existe, no mesmo pedaço do céu, um outro arranjo de quatro estrelas em forma de cruz, formado por estrelas das constelações da Vela e da Quilha. Ele é conhecido como Falso Cruzeiro — e muita gente passa a vida apontando para ele achando que é o nosso.

Três jeitos de não cair:

  • O Falso Cruzeiro é maior e mais "aberto". As estrelas dele são mais espalhadas e o desenho é mais parecido com uma cruz simétrica de verdade. O Cruzeiro real é compacto e torto.
  • O Falso Cruzeiro é mais apagado. As estrelas dele brilham de forma mais parecida entre si e todas mais fracas. No Cruzeiro real, Acrux se destaca claramente das outras.
  • O Falso Cruzeiro não tem as guardiãs. Este é o teste definitivo. Do lado do Cruzeiro verdadeiro há sempre duas estrelas muito brilhantes e bem juntas — Alfa e Beta do Centauro. Se não tem as duas ali do lado, não é o Cruzeiro.

Um detalhe bonito: a mais brilhante dessas duas guardiãs, Alfa do Centauro, é o sistema estelar mais próximo do Sol que existe, a pouco mais de 4 anos-luz. Você acha o sul com a ajuda da vizinhança mais próxima da Terra.

E o Falso Cruzeiro também engana o método do sul: se você prolongar o eixo dele, vai parar num ponto errado do céu, dezenas de graus fora do polo.

O Cruzeiro do Sul na bandeira do Brasil

As cinco estrelas da tabela acima são exatamente as cinco que aparecem na bandeira nacional, e cada uma representa um estado. A Lei nº 5.700, de 1971, define o desenho e determina que a bandeira mostra o céu do Rio de Janeiro às 8h30 da manhã de 15 de novembro de 1889, dia da proclamação da República. Hoje são 27 estrelas ao todo: 26 estados e o Distrito Federal.

Tem uma esquisitice que quase ninguém percebe. Se você comparar a bandeira com o céu de verdade, o Cruzeiro aparece espelhado. Não é erro: a lei diz que o céu foi desenhado como seria visto de fora da esfera celeste, olhando "de cima", e não do chão para o alto. É como a diferença entre olhar para o próprio rosto e para uma foto sua.

Céu estrelado visto da órbita, com uma faixa avermelhada e alaranjada da atmosfera separando as estrelas da Terra escura
O brilho alaranjado no horizonte é a própria atmosfera da Terra. É essa camada de ar que faz as estrelas parecerem tremer quando as olhamos do chão. Foto: NASA/JSC

Precisa de telescópio? Não

O Cruzeiro do Sul é de olho nu, e sempre foi. Qualquer pessoa com visão normal enxerga as quatro estrelas principais até de dentro de uma cidade grande — a quinta, a Intrometida, é que costuma sumir na iluminação urbana.

O que melhora muito o resultado, de graça:

Se depois disso você quiser um instrumento, um binóculo comum já revela que a região do Cruzeiro é cheia de estrelas invisíveis a olho nu, incluindo um aglomerado colorido conhecido como Caixa de Joias. Para escolher com calma, veja Melhor telescópio para iniciantes: guia de compra no Brasil.

Perguntas frequentes

Como achar o Cruzeiro do Sul no céu?

Olhe para o sul numa noite limpa e procure quatro estrelas brilhantes formando uma pipa alongada, com o eixo mais comprido apontando para baixo. Ao lado, duas estrelas muito brilhantes e juntas — Alfa e Beta do Centauro — confirmam que é o Cruzeiro verdadeiro. No Sudeste, ele fica mais alto e mais fácil entre abril e julho, por volta das 21h.

Como usar o Cruzeiro do Sul para achar o sul?

Trace a linha do eixo maior da cruz, da estrela do topo (Gacrux, alaranjada) para a do pé (Acrux, a mais brilhante), e prolongue essa linha por cerca de quatro vezes e meia o comprimento dela. O ponto onde você parar é aproximadamente o polo sul celeste. Descendo dali em linha reta até o horizonte, você encontra o sul geográfico.

Dá para ver o Cruzeiro do Sul o ano inteiro?

Depende de onde você mora e da hora. No extremo sul do Brasil ele fica visível praticamente o ano todo. Em São Paulo, às 21h, ele some do céu entre outubro e dezembro — mas volta a aparecer de madrugada nesses mesmos meses, porque o céu se adianta cerca de duas horas por mês. No Nordeste ele fica bem mais baixo e some por mais tempo.

Qual é a diferença entre o Cruzeiro do Sul e o Falso Cruzeiro?

O Falso Cruzeiro é maior, mais aberto e mais apagado, e é formado por estrelas das constelações da Vela e da Quilha. O teste que nunca falha são as guardiãs: só o Cruzeiro verdadeiro tem, do lado, duas estrelas muito brilhantes e próximas uma da outra. Usar o Falso Cruzeiro para achar o sul leva a um erro grande.

Por que o Cruzeiro do Sul está na bandeira do Brasil?

Porque é a constelação mais reconhecível do céu do hemisfério sul e virou símbolo do país desde a navegação portuguesa. A bandeira mostra o céu do Rio de Janeiro às 8h30 de 15 de novembro de 1889, e cada uma das cinco estrelas do Cruzeiro representa um estado: São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo.

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