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Coordenadas do céu: ascensão reta e declinação

O céu tem endereço, com latitude e longitude próprias. Entenda ascensão reta e declinação e descubra o que dá para ver da sua cidade.

Publicado em 7 min de leitura
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Campo de estrelas escuro fotografado do espaço, com as três estrelas enfileiradas do cinturão de Órion no centro
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. O truque: o céu é uma bola, e a Terra está no meio
  2. Declinação: a latitude do céu
  3. Ascensão reta: a longitude, só que marcada em horas
  4. O zero fica num ponto onde não tem nada
  5. O que a declinação diz sobre o seu céu, na prática
  6. O endereço das estrelas que você já conhece
  7. Por que toda coordenada vem com uma data colada

Toda estrela, planeta ou galáxia tem um endereço no céu, formado por dois números: a declinação, que é a latitude celeste, e a ascensão reta, que é a longitude celeste. Juntos, eles apontam um ponto só na esfera do céu, do mesmo jeito que latitude e longitude apontam um ponto só no mapa do Brasil. Quando um site de astronomia diz que Urano está em "ascensão reta 4h05min, declinação +20,7°", é esse endereço que ele está dando.

Entender os dois números muda a vida de quem observa: com eles você sabe, antes de sair de casa, se um objeto é visível da sua cidade e a que altura ele vai chegar no céu.

O truque: o céu é uma bola, e a Terra está no meio

A ideia que organiza tudo é antiga e continua útil: imagine uma esfera gigante em volta da Terra, com todas as estrelas grudadas nela. É a esfera celeste. Ela não existe de verdade — as estrelas estão a distâncias muito diferentes, assunto de Como se mede a distância de uma estrela? —, mas, para apontar um telescópio, só importa a direção, e a direção é o que a esfera guarda.

Agora vem a sacada: essa esfera herda as linhas da Terra. O equador terrestre, esticado até a esfera, vira o equador celeste. O polo Norte da Terra, esticado, vira o polo celeste norte; o polo Sul, o polo celeste sul. Com equador e polos definidos, falta só copiar latitude e longitude.

Declinação: a latitude do céu

A declinação mede quantos graus um objeto está acima ou abaixo do equador celeste. Funciona igualzinho à latitude:

  • Equador celeste: declinação 0°
  • Polo celeste norte: +90°
  • Polo celeste sul: −90°
  • Sinal de mais para o norte, sinal de menos para o sul

Sirius, a estrela mais brilhante do céu, tem declinação de −16°43'. Isso significa que ela fica quase 17 graus ao sul do equador celeste — ou seja, no hemisfério sul do céu. Para lembrar quanto é um grau no céu de verdade, vale a régua da mão de Como medir distâncias no céu com a mão: o dedo mindinho com o braço esticado cobre cerca de um grau.

Há uma coincidência bonita e útil para quem mora no Brasil: a estrela brilhante mais próxima do equador celeste é Mintaka, a estrela de cima das Três Marias, com declinação de apenas −0°18'. Ou seja, o cinturão de Órion fica praticamente em cima da linha do equador celeste. Quem vê as Três Marias está olhando para a fronteira entre os dois hemisférios do céu.

Campo cheio de estrelas sobre fundo preto, com uma estrela bem mais brilhante que as outras à direita
Canopus, a segunda estrela mais brilhante do céu, fotografada da Estação Espacial pelo astronauta Donald Pettit em fevereiro de 2003. O endereço dela é ascensão reta 6h24min, declinação −52°42' — bem no sul do céu, o que a torna fácil do Brasil e impossível da Europa. Foto: NASA/JSC

Ascensão reta: a longitude, só que marcada em horas

A ascensão reta faz o papel da longitude: mede quanto o objeto está "para o lado", ao longo do equador celeste. A diferença é que ela quase nunca é dada em graus. É dada em horas, minutos e segundos.

Parece estranho, mas tem um motivo prático ótimo. O céu dá uma volta completa, de 360°, a cada 24 horas. Então:

  • 24 horas de ascensão reta = 360° de céu
  • 1 hora de ascensão reta = 15°
  • 1 minuto de ascensão reta = 0,25°

Com isso, a unidade já vem traduzida em tempo de espera. Se dois objetos estão separados por 2 horas de ascensão reta, o segundo vai cruzar o ponto mais alto do céu duas horas depois do primeiro. Para quem está ao telescópio, isso é mais útil que graus.

Sirius, de novo como exemplo: ascensão reta de 6h45min. Multiplicando por 15, dá 101,25° — mas quase ninguém usa essa forma.

O zero fica num ponto onde não tem nada

Toda coordenada precisa de uma origem. Na Terra, a longitude zero é uma escolha humana que passa por Greenwich, na Inglaterra. No céu, a escolha é menos arbitrária, mas igualmente invisível.

O zero da ascensão reta fica no ponto vernal, também chamado de primeiro ponto de Áries: o lugar onde a trajetória aparente do Sol ao longo do ano, chamada eclíptica, cruza o equador celeste subindo para o norte. É o instante do equinócio de março. Esse ponto não tem estrela nenhuma marcando o lugar — é só um cruzamento geométrico, como o encontro de duas linhas pintadas no chão que você não vê.

A eclíptica, aliás, é inclinada 23,4° em relação ao equador celeste, e é essa inclinação que gera as estações do ano. Por isso a declinação do Sol muda ao longo do ano, entre +23,4° em junho e −23,4° em dezembro.

O que a declinação diz sobre o seu céu, na prática

Esta é a parte que mais serve a quem observa do Brasil, e sai de uma conta de uma linha.

Para quem está numa latitude sul, existem duas fronteiras:

  • Estrelas com declinação acima de +(90° menos a sua latitude) nunca nascem na sua cidade.
  • Estrelas com declinação abaixo de −(90° menos a sua latitude) nunca se põem: ficam girando em volta do polo sul celeste a noite inteira. Chamam-se circumpolares.

De São Paulo, latitude 23,5° sul, a conta dá 66,5°. Tudo que tem declinação acima de +66,5° é invisível de lá para sempre — e é por isso que nenhum brasileiro do Sudeste jamais viu a estrela Polar, que tem declinação de quase +89°.

Cidade Latitude Declinação que nunca nasce Declinação sempre no céu Cruzeiro do Sul não se põe?
Boa Vista 2,8° N acima de +87,2° abaixo de −87,2° não
Belém 1,5° S acima de +88,5° abaixo de −88,5° não
Recife 8,1° S acima de +82,0° abaixo de −82,0° não
Brasília 15,8° S acima de +74,2° abaixo de −74,2° não
Rio de Janeiro 22,9° S acima de +67,1° abaixo de −67,1° não
São Paulo 23,6° S acima de +66,5° abaixo de −66,5° não
Porto Alegre 30,0° S acima de +60,0° abaixo de −60,0° só Acrux
Chuí 33,7° S acima de +56,3° abaixo de −56,3° sim, inteiro

Contas nossas, a partir das latitudes das cidades e das declinações do catálogo de estrelas brilhantes de Yale.

Repare no resultado da última coluna: o Cruzeiro do Sul, que a gente imagina sempre presente, se põe na maior parte do Brasil. Só no extremo sul do país ele fica no céu as 24 horas. Como achá-lo nas épocas em que ele aparece está em Como achar o Cruzeiro do Sul (e o sul) no céu.

Tem ainda uma segunda conta, igualmente simples, que dá a altura máxima de um objeto: 90° menos a diferença entre a sua latitude e a declinação dele. De Belém, Alnilam (a do meio das Três Marias) sobe a 89,7°, praticamente em cima da cabeça. De Porto Alegre, a mesma estrela não passa de 60°.

O endereço das estrelas que você já conhece

Estrela Ascensão reta Declinação Brilho (magnitude)
Sirius 6h45min09s −16°43' −1,46
Canopus 6h24min −52°42' −0,72
Alfa do Centauro 14h39min36s −60°50' −0,01
Rigel 5h14min32s −8°12' 0,12
Betelgeuse 5h55min10s +7°24' 0,50
Antares 16h29min24s −26°26' 0,96
Acrux (Cruzeiro) 12h26min36s −63°06' 1,33
Alnilam (Três Marias) 5h36min13s −1°12' 1,70
Mintaka (Três Marias) 5h32min −0°18' 2,23

Posições do catálogo de estrelas brilhantes de Yale, referidas ao ano 2000. O valor de Sirius confere com o exemplo publicado pela própria NASA.

Por que toda coordenada vem com uma data colada

Se você reparar, tabelas de coordenadas quase sempre trazem a sigla J2000 ao lado. Não é enfeite.

O eixo da Terra não aponta sempre para o mesmo lugar: ele descreve um cone lentíssimo, que leva cerca de 26 mil anos para fechar uma volta. Esse bamboleio se chama precessão. Como o equador celeste e o ponto vernal são definidos pelo eixo da Terra, eles também se deslocam devagar — e, com eles, as coordenadas de todas as estrelas.

A solução combinada é congelar o sistema num instante de referência. "J2000" quer dizer que aquelas coordenadas valem para a posição do eixo em 1º de janeiro de 2000. Hoje os astrônomos usam um sistema ainda mais estável, o ICRS, compatível com o J2000 e amarrado a objetos muito distantes em vez de ao eixo terrestre.

Para quem observa a olho nu ou com binóculo, isso não muda nada: a diferença acumulada é pequena demais para atrapalhar. Mas explica por que as estrelas que marcam as constelações vão mudar de lugar em escalas de milhares de anos, como contamos em Constelações: as 88 oficiais e as que se veem do Brasil.

Perguntas frequentes

O que são ascensão reta e declinação?

São as duas coordenadas que dão o endereço de um objeto no céu. A declinação é a latitude celeste, medida em graus a partir do equador celeste. A ascensão reta é a longitude celeste, medida em horas, minutos e segundos a partir do ponto vernal.

Por que a ascensão reta é medida em horas e não em graus?

Porque o céu gira 360° em 24 horas, então 1 hora de ascensão reta equivale a 15°. Medir em horas já diz quanto tempo falta para o objeto cruzar o ponto mais alto do céu, o que é prático para quem usa telescópio.

Como sei se dá para ver uma estrela da minha cidade?

Subtraia a sua latitude de 90°. Se a declinação da estrela for maior que esse número com sinal de mais, ela nunca nasce aí. De São Paulo, por exemplo, nada acima de +66,5° de declinação aparece — é por isso que a estrela Polar é invisível de lá.

O que significa J2000 nas coordenadas?

Significa que as coordenadas valem para a posição do eixo da Terra em 1º de janeiro de 2000. Como o eixo gira lentamente por causa da precessão, em um ciclo de cerca de 26 mil anos, as coordenadas precisam de uma data de referência.

Qual estrela brilhante está mais perto do equador celeste?

Mintaka, a estrela de cima das Três Marias, com declinação de apenas −0°18'. O cinturão de Órion fica praticamente sobre a linha que divide os dois hemisférios do céu.

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