Perguntas que todo mundo faz

Como se mede a distância de uma estrela?

Ninguém esticou uma trena até lá. A conta começa com um truque que você pode fazer agora com o polegar e um olho fechado. Veja como funciona a paralaxe.

Publicado em 7 min de leitura
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A estrela RS Puppis brilhando no centro de uma nuvem de poeira iluminada, com centenas de estrelas menores ao redor
Foto: NASA/GSFC
Neste artigo
  1. O truque que você pode fazer agora
  2. Os dois "olhos" são a órbita da Terra
  3. Proxima Centauri, a estrela com o maior pulo do céu
  4. O parsec: a unidade que nasceu dessa conta
  5. Hipparcos e Gaia: quando o método foi para o espaço
  6. Onde a paralaxe acaba e começa a escada
  7. Um detalhe que a paralaxe revelou de brinde

A distância de uma estrela é medida por paralaxe: os astrônomos fotografam a estrela, esperam seis meses até a Terra estar do outro lado da órbita e fotografam de novo. Se a estrela for perto, ela terá se deslocado um tiquinho em relação às estrelas do fundo. Esse deslocamento, que é um ângulo minúsculo, dá a distância por trigonometria simples — a mesma que se usa para medir a largura de um rio sem atravessar.

É o único método que mede distância estelar diretamente, sem supor nada. Todo o resto da astronomia, inclusive o tamanho do universo, é construído em cima dele.

O truque que você pode fazer agora

Estique o braço, levante o polegar e feche o olho esquerdo. Olhe para o polegar. Agora troque: abra o esquerdo e feche o direito. O polegar pula em relação à parede do fundo.

Ele não se mexeu. Você é que olhou de dois lugares diferentes, separados pelos poucos centímetros entre os seus olhos. Esse "pulo" é a paralaxe. A própria NASA usa esse exemplo para explicar o método.

Duas coisas dessa brincadeira valem guardar, porque são a base de tudo:

  1. Quanto mais perto o objeto, maior o pulo. Aproxime o polegar do rosto e o pulo aumenta.
  2. Quanto mais afastados os dois pontos de vista, maior o pulo. Se seus olhos fossem separados por um metro, o polegar pularia muito mais.

Os astrônomos não têm como afastar os olhos. Mas têm algo melhor: a Terra.

Os dois "olhos" são a órbita da Terra

A Terra dá uma volta no Sol por ano. Isso significa que, em janeiro e em julho, o nosso planeta está em pontos opostos da órbita, separados por duas vezes a distância Terra–Sol: cerca de 300 milhões de quilômetros.

Essa é a maior régua disponível de graça. Fotografa-se a estrela em janeiro e de novo em julho, mede-se o quanto ela se deslocou contra o fundo e pronto.

O problema é o tamanho do deslocamento. Mesmo com uma base de 300 milhões de km, nenhuma estrela pula mais do que um segundo de arco. Um segundo de arco é 1/60 de um minuto de arco, que por sua vez é 1/60 de um grau — ou seja, 1/3.600 de grau.

Para sentir o tamanho disso: um segundo de arco é o ângulo de uma moeda de 1 real vista a 5,6 quilômetros de distância (conta nossa, a partir dos 27 mm da moeda). É esse o alvo que um telescópio precisa acertar para medir a estrela mais próxima.

Proxima Centauri, a estrela com o maior pulo do céu

A estrela mais próxima do Sol é a Proxima Centauri, e mesmo ela está a 40.208.000.000.000 km — quarenta trilhões de quilômetros, ou cerca de 4,25 anos-luz, segundo a NASA. (Se você ainda não tem intimidade com essa unidade, comece por O que é um ano-luz?.)

Com essa distância, o pulo dela vale 0,77 segundo de arco (conta nossa). Traduzindo para a moeda: é a moeda de 1 real vista a 7,3 quilômetros. E essa é a maior paralaxe estelar que existe. Todas as outras estrelas do céu pulam menos.

As duas estrelas brilhantes do mesmo sistema, Alfa Centauri A e B, estão a cerca de 4,35 anos-luz e são separadas entre si por apenas 23 vezes a distância Terra–Sol — um pouco mais do que a distância de Urano ao Sol.

O parsec: a unidade que nasceu dessa conta

Como o método é esse, os astrônomos criaram uma unidade sob medida para ele: o parsec. A definição é direta — parsec é a distância em que uma estrela teria uma paralaxe de exatamente um segundo de arco.

Fazendo a conta, um parsec dá 3,26 anos-luz. Não existe nenhuma estrela a exatamente um parsec de nós: a Proxima, a mais próxima de todas, está a 1,30 parsec. A partir daí, a regra é a mais simples da astronomia:

Distância em parsecs = 1 dividido pela paralaxe em segundos de arco.

Paralaxe de 0,1 segundo de arco? Dez parsecs. Paralaxe de 0,01? Cem parsecs. É por isso que "parsec" aparece tanto em texto técnico: ele deixa a conta sem nenhuma multiplicação.

Hipparcos e Gaia: quando o método foi para o espaço

Da Terra, o ar atrapalha. As estrelas piscam justamente porque a atmosfera embaralha a luz — o motivo está em Por que as estrelas piscam? —, e esse tremor limita a precisão. A solução foi óbvia e cara: levar o medidor para fora do ar.

A Agência Espacial Europeia fez isso duas vezes.

Missão Quando Quantas estrelas O salto
Hipparcos agosto de 1989 a 1993 118.218 no catálogo principal Primeiro satélite a mapear posições de estrelas
Gaia 27/07/2014 a 15/01/2025 quase 2 bilhões de objetos 200 vezes mais preciso que o Hipparcos

O Hipparcos já tinha o nome certo: além de lembrar o astrônomo grego Hiparco, é a sigla de HIgh Precision PARallax COllecting Satellite — satélite coletor de paralaxe de alta precisão. Ele visitou cada estrela escolhida cerca de 100 vezes ao longo de quatro anos, e entregou também o catálogo Tycho, com 1.058.332 estrelas de precisão um pouco menor.

O Gaia é de outra categoria. Ele fez mais de três trilhões de observações, visitando cada estrela cerca de 14 vezes por ano, e mede posições com precisão de 24 microssegundos de arco para os objetos mais brilhantes que a magnitude 15. A ESA compara esse ângulo à espessura de um fio de cabelo visto a 1.000 km de distância. Pela nossa conta da moeda, são 27 mm vistos a 232 mil quilômetros — mais da metade do caminho até a Lua.

Com essa precisão, o Gaia mediu a distância das estrelas mais próximas com erro de 0,001%, e ainda alcançou estrelas perto do centro da Via Láctea, a 30 mil anos-luz, com erro de 20%. Ele trabalhou de um ponto a 1,5 milhão de km da Terra e foi desligado em 27 de março de 2025.

Um campo denso de milhares de estrelas coloridas, com um aglomerado compacto no centro
Um dos pedaços mais cheios da Via Láctea, fotografado pelo Hubble. A olho nu, todas essas estrelas parecem estar à mesma distância. A paralaxe é o que separa as de perto das de longe. Foto: NASA/GSFC

Onde a paralaxe acaba e começa a escada

A paralaxe é honesta, mas tem limite: quanto mais longe a estrela, menor o pulo, até ele sumir no erro de medida. Para galáxias inteiras, o método não serve. A saída é a chamada escada de distâncias cósmicas — cada degrau é calibrado pelo anterior.

Degrau 1: paralaxe. Mede diretamente as estrelas vizinhas. É o único degrau que não depende de nenhum outro.

Degrau 2: as cefeidas. Em 1908, a astrônoma americana Henrietta Leavitt notou algo extraordinário em um tipo de estrela que aumenta e diminui de brilho num ritmo regular, as cefeidas: quanto mais lento o ciclo, mais luminosa a estrela. O trabalho completo, com 25 cefeidas da Pequena Nuvem de Magalhães, saiu em 1912. A consequência é enorme: basta cronometrar o ciclo para saber o brilho real da estrela; comparando com o brilho aparente, sai a distância. Foi com cefeidas que Edwin Hubble obteve a primeira distância confiável até a galáxia de Andrômeda.

Degrau 3: as supernovas. Um tipo específico de explosão estelar, a supernova do tipo Ia, tem quase sempre o mesmo brilho real. Como ela ofusca a galáxia inteira por algumas semanas, dá para vê-la a bilhões de anos-luz. É o degrau que alcança o universo distante.

E cada degrau só vale se o anterior estiver certo. Se a paralaxe das cefeidas próximas estiver errada por 5%, tudo o que vem depois — inclusive a idade e o tamanho do universo, assunto de O espaço tem fim? — erra junto. É exatamente por isso que o Gaia foi construído.

A galáxia M82, vista de perfil, com faixas de gás vermelho saindo do disco e uma estrela muito brilhante no canto inferior direito
O ponto brilhante no canto é a supernova SN 2014J, na galáxia M82. Explosões desse tipo são o terceiro degrau da escada: como o brilho real delas é quase sempre o mesmo, elas medem distâncias que a paralaxe nunca alcançaria. Foto: NASA/GSFC

Um detalhe que a paralaxe revelou de brinde

Medir posição de estrela com precisão absurda tem um efeito colateral: percebe-se que as estrelas andam. A Galáxia gira, e cada estrela faz a própria volta em torno do centro em ritmo diferente. O Sol leva mais de 200 milhões de anos para dar uma volta.

O caso mais famoso é a estrela de Barnard, que se desloca no céu rápido o bastante para ser notada em fotos separadas por poucos anos. Ela está vindo na nossa direção: por volta do ano 11.700, estará a 3,8 anos-luz e passará a ser a estrela mais próxima do Sol, tomando o posto da Proxima Centauri.

Quando você lê "a estrela tal está a tantos anos-luz", está lendo o resultado de tudo isso: uma medida de ângulo minúsculo, repetida milhões de vezes, de um satélite que passou dez anos girando devagar no escuro. Sobre quantas dessas estrelas você consegue enxergar sem nenhum equipamento, a conta está em Quantas estrelas dá para ver a olho nu?.

Perguntas frequentes

Como os astrônomos medem a distância de uma estrela?

Pelo método da paralaxe. Eles fotografam a estrela, esperam seis meses até a Terra estar do lado oposto da órbita e fotografam de novo. A estrela parece ter se deslocado um pouquinho em relação às do fundo, e esse ângulo, junto com o tamanho da órbita da Terra, dá a distância por trigonometria.

O que é paralaxe, em uma frase?

É o deslocamento aparente de um objeto quando você o observa de dois pontos diferentes — o mesmo efeito de olhar o polegar com um olho e depois com o outro e ver que ele "pula" em relação ao fundo.

O que é um parsec?

É a distância em que uma estrela teria paralaxe de exatamente um segundo de arco. Equivale a 3,26 anos-luz. A conta é direta: distância em parsecs igual a 1 dividido pela paralaxe em segundos de arco. A Proxima Centauri está a 1,30 parsec.

A paralaxe serve para medir qualquer distância no universo?

Não. Quanto mais longe a estrela, menor o deslocamento, até ele desaparecer no erro de medida. Para distâncias maiores, os astrônomos usam a escada de distâncias: cefeidas, que revelam o brilho real pelo ritmo de pulsação, e supernovas do tipo Ia, que alcançam bilhões de anos-luz. Cada degrau é calibrado pelo anterior, e o primeiro é a paralaxe.

Qual a precisão do satélite Gaia?

O Gaia mediu posições com precisão de 24 microssegundos de arco para objetos mais brilhantes que a magnitude 15. A ESA compara isso a medir a espessura de um fio de cabelo a 1.000 km de distância. Com essa precisão, a distância das estrelas mais próximas ficou conhecida com erro de 0,001%.

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