Perguntas que todo mundo faz

O que é o limite de Roche?

A distância mínima que uma lua chega de um planeta sem se despedaçar. Explicamos com o cometa que virou colar de pérolas e com os anéis de Saturno.

Publicado em 8 min de leitura
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Júpiter com suas faixas de nuvens e, logo abaixo, uma fileira de pontos brilhantes alinhados, que são os pedaços de um cometa despedaçado
Foto: NASA, ESA, H. Weaver and E. Smith STScI and J. Trauger and R. Evans NASA Jet Propulsion Laboratory
Neste artigo
  1. A disputa que decide tudo: gravidade própria contra força de maré
  2. O cometa que virou um colar de pérolas
  3. Por que Saturno tem anéis em vez de mais uma lua
  4. Não é uma linha só: pedra inteira resiste mais que bola de cascalho
  5. As luas que estão indo nessa direção
  6. E a nossa Lua, corre algum risco?

O limite de Roche é a distância mínima que um corpo pode chegar de um planeta sem se despedaçar. Mais perto do que isso, a diferença de puxão da gravidade do planeta entre um lado e o outro do visitante fica maior do que a gravidade que o próprio visitante usa para se manter inteiro — e ele se parte. É por isso que Saturno tem anéis em vez de mais uma lua, e foi isso que transformou um cometa num colar de pérolas antes de ele cair em Júpiter.

O nome vem do astrônomo francês Édouard Roche, que fez a conta em 1848. Mas a ideia, uma vez entendida, dispensa fórmula.

A disputa que decide tudo: gravidade própria contra força de maré

Imagine uma pedra grande caindo em direção a um planeta. O lado da pedra virado para o planeta está mais perto dele do que o lado de trás. Mais perto significa mais puxão. Então a frente da pedra é puxada com mais força que o fundo, e a pedra tende a ser esticada no sentido do planeta. Essa diferença de puxão entre um lado e o outro tem nome: força de maré — a mesma que faz o mar subir e descer aqui, e que está explicada em O que é maré? Por que o mar sobe e desce.

Ao mesmo tempo, a pedra tem a sua própria gravidade, que puxa todos os pedaços dela para o centro e a mantém inteira.

São duas forças brigando. Longe do planeta, a gravidade própria ganha com folga e nada acontece. À medida que a pedra se aproxima, a força de maré cresce depressa — muito mais depressa que a distância diminui. Existe um ponto em que as duas empatam. Esse ponto é o limite de Roche. Um passo para dentro dele, e a maré ganha: o objeto é esticado até se partir.

A analogia que funciona é a de um pão de queijo quentinho sendo puxado pelas pontas por duas pessoas. Enquanto puxam devagar, a massa aguenta. A partir de certa força, ela não aguenta mais e se parte no meio — e, uma vez partida, cada pedaço continua sendo puxado e se parte de novo.

O cometa que virou um colar de pérolas

A demonstração mais bonita disso aconteceu à vista de todo mundo, com telescópio apontado.

Em 24 de março de 1993, os astrônomos Carolyn e Eugene Shoemaker e David Levy acharam um cometa estranho. Primeiro, porque ele não orbitava o Sol: orbitava Júpiter, o primeiro caso conhecido. Segundo, porque não era um cometa — eram vários, em fila.

O que tinha acontecido é que, numa passagem anterior, o cometa chegara perto demais de Júpiter, cruzara o limite de Roche do planeta e fora rasgado pela força de maré. A fila de pedaços era o que sobrou. Uma imagem do telescópio Hubble de 17 de maio de 1994 mostra os 21 fragmentos enfileirados, espalhados por cerca de três vezes a distância da Terra à Lua — algo como 1,1 milhão de quilômetros de destroços em linha reta.

A foto que abre este artigo é justamente essa fileira: uma montagem do Hubble que juntou numa só imagem Júpiter e o cometa, fotografados separadamente. O apelido pegou — colar de pérolas.

O desfecho veio entre 16 e 22 de julho de 1994, quando os pedaços caíram em Júpiter, um a um, a cerca de 60 km/s — mais de 200 mil km/h. Os maiores tinham até 2 quilômetros de diâmetro e deixaram manchas escuras na atmosfera do planeta que ficaram visíveis por semanas. Foi a primeira colisão entre dois corpos do Sistema Solar que a humanidade assistiu ao vivo.

Por que Saturno tem anéis em vez de mais uma lua

Aqui o limite de Roche deixa de ser curiosidade e vira a explicação de uma das imagens mais conhecidas da astronomia.

Dá para fazer a conta. Para um corpo mantido junto só pela própria gravidade — uma bola de gelo e cascalho, sem resistência de pedra —, o limite de Roche fica a cerca de 2,45 raios do planeta, ajustado pela razão entre as densidades dos dois. Usando os números da NASA para Saturno (raio de 60.268 km, densidade de 687 kg/m³) e a densidade do gelo de água (917 kg/m³), o limite dá cerca de 134 mil km do centro de Saturno.

Agora o número que impressiona: a borda externa do anel A, onde os anéis principais simplesmente acabam, está a 136.780 km do centro do planeta, segundo a tabela de anéis da NASA. A diferença entre a conta e a realidade é de menos de 2%.

Ou seja: os anéis de Saturno terminam, com boa precisão, exatamente onde a física diz que pedaços de gelo voltariam a conseguir se juntar numa lua. Dentro dessa linha, qualquer tentativa de virar lua é desfeita pela maré; fora dela, o material se agrupa. E é por isso que as luas pequenas de Saturno começam logo depois do fim dos anéis. O resto da história dos anéis — do que são feitos e quantos anos têm — está em Saturno: por que tem anéis, do que são feitos e como ver.

Os anéis de Saturno vistos quase de lado, em preto e branco, como faixas finas atravessando a imagem
Os anéis de Saturno vistos pela sonda Cassini, quase de perfil. O pontinho na faixa escura do meio é Pan, uma lua de 28 km que abre caminho dentro da falha de Encke. Tudo o que aparece aqui está dentro do limite de Roche do planeta. Foto: NASA/JPL-Caltech/Space Science Institute

Não é uma linha só: pedra inteira resiste mais que bola de cascalho

Aqui entra a ressalva honesta, e ela é importante, porque muito texto por aí trata o limite de Roche como se fosse uma cerca com um valor único.

A conta acima vale para um corpo que só se segura pela própria gravidade — tecnicamente, um corpo "fluido", na prática um monte de cascalho frouxo. Mas um objeto feito de pedra inteira também tem resistência de material: as rochas estão grudadas umas nas outras, e isso ajuda a segurar o corpo além da gravidade. Para um corpo rígido assim, o limite fica bem mais perto do planeta — algo em torno da metade da distância.

Então não existe uma linha. Existe uma faixa: entre o limite rígido e o limite fluido, se o objeto se despedaça ou não depende do que ele é feito.

Marte tem um exemplo vivo disso. Fobos, a maior das duas luas marcianas, orbita a 9.378 km do centro de Marte. Pelos números da NASA para Marte e para a densidade de Fobos, o limite fluido ficaria por volta de 10.700 km e o rígido por volta de 5.500 km. Fobos está, portanto, dentro do limite fluido e fora do rígido: ele só continua inteiro porque não é um saco de cascalho solto. As ranhuras que cobrem a superfície dele podem ser justamente as marcas desse estiramento. As duas luas estão descritas em Fobos e Deimos: as duas luas de Marte.

A lua Fobos vista de perto, em cinza, cheia de crateras e com sulcos paralelos cruzando a superfície
Fobos fotografado pela sonda Mars Reconnaissance Orbiter a 5.800 km de distância. Os sulcos paralelos que cruzam a lua podem ser rachaduras abertas pela força de maré de Marte, que já estica Fobos hoje. Foto: NASA/JPL-Caltech/University of Arizona

As luas que estão indo nessa direção

Duas luas do Sistema Solar estão, hoje, caindo lentamente em direção ao próprio planeta — e as duas têm encontro marcado com o limite de Roche.

Fobos se aproxima de Marte aos poucos. Segundo um modelo de pesquisadores da Universidade Purdue financiados pela NASA, publicado na revista Nature Geoscience, ela deve atingir o limite, se partir e formar um sistema de anéis em torno de Marte dentro de cerca de 70 milhões de anos. Os mesmos autores propõem que esse ciclo — anel vira lua, lua volta a virar anel — já se repetiu de três a sete vezes na história de Marte.

Tritão, a maior lua de Netuno, segue o mesmo caminho por um motivo diferente: ela orbita na contramão do planeta, e isso faz a maré roubar energia da órbita dela. O destino está em Tritão: a lua que gira ao contrário e tem gêiseres.

Vale a ressalva que a própria NASA faz nesses casos: são estimativas de modelo, com margem larga, e não datas marcadas. A própria localização exata do limite é incerta, porque depende de quão coeso é o corpo.

E a nossa Lua, corre algum risco?

Nenhum, e a conta é tranquilizadora.

Com o raio e a densidade da Terra e a densidade da Lua, o limite de Roche do sistema Terra–Lua fica em torno de 18.500 km do centro da Terra. A Lua orbita a 384.400 km — ou seja, cerca de 21 vezes mais longe do que a distância em que ela correria perigo.

E ela está indo na direção contrária: a Lua se afasta da Terra alguns centímetros por ano, não se aproxima. De onde ela veio e por que está onde está é assunto de Como a Lua se formou? A batida que criou o nosso satélite.

Planeta Limite de Roche para corpo de gelo (bola de cascalho) Em raios do planeta Referência conhecida
Terra cerca de 28.500 km 4,5 a Lua está a 384.400 km, muito além
Marte cerca de 13.500 km 4,0 Fobos orbita a 9.378 km
Júpiter cerca de 198.000 km 2,8 foi aí que o Shoemaker-Levy 9 se partiu
Saturno cerca de 134.000 km 2,2 o anel A acaba a 136.780 km
Netuno cerca de 74.000 km 3,0 Tritão orbita a 354.800 km

Contas nossas, a partir dos raios e das densidades publicados pela NASA, para um corpo de gelo de água sem resistência de material. Para corpos de pedra sólida, o limite fica bem mais perto do planeta.

Perguntas frequentes

O que é o limite de Roche, em uma frase?

É a distância mínima que um corpo pode chegar de um planeta sem ser despedaçado pela diferença de puxão da gravidade entre o lado de perto e o lado de longe.

Por que os anéis de Saturno não viram uma lua?

Porque estão todos dentro do limite de Roche do planeta. Sempre que os pedaços de gelo tentam se juntar, a força de maré de Saturno os separa de novo. Os anéis principais acabam a 136.780 km do centro, e a conta dá o limite por volta de 134 mil km — praticamente o mesmo lugar.

A Terra pode despedaçar a Lua?

Não. O limite de Roche do sistema Terra–Lua fica por volta de 18.500 km, e a Lua está a 384.400 km, cerca de 21 vezes mais longe. Além disso, ela se afasta um pouco a cada ano, em vez de se aproximar.

O que aconteceu com o cometa Shoemaker-Levy 9?

Ele passou perto demais de Júpiter, cruzou o limite de Roche e foi rasgado pela força de maré em 21 pedaços enfileirados. Entre 16 e 22 de julho de 1994 esses pedaços caíram no planeta a cerca de 60 km/s, deixando manchas escuras visíveis por semanas.

Fobos vai mesmo virar um anel de Marte?

É o que diz um modelo publicado por pesquisadores da Purdue na Nature Geoscience: Fobos deve alcançar o limite de Roche e se partir dentro de cerca de 70 milhões de anos, formando anéis. É uma estimativa de modelo com margem grande, não uma data marcada.

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