Perguntas que todo mundo faz

As três leis de Kepler explicadas sem matemática

A órbita é uma elipse, o planeta acelera quando chega perto do Sol e quanto mais longe, mais devagar. As três leis de Kepler com exemplos reais.

Publicado em 8 min de leitura
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Superfície cinzenta e cheia de crateras de Mercúrio vista de perto pela sonda MESSENGER, com o horizonte curvo do planeta contra o preto do espaço
Foto: NASA/GSFC
Neste artigo
  1. Primeira lei: a órbita é uma elipse
  2. A excentricidade, o número que mede o achatamento
  3. Segunda lei: ele acelera quando chega perto
  4. Terceira lei: quanto mais longe, mais devagar
  5. Como um homem sem telescópio descobriu isso
  6. O que Kepler não sabia, e Newton descobriu

As três leis de Kepler descrevem como qualquer coisa gira em volta de outra no espaço, e cabem em três frases: a órbita tem formato de elipse, e não de círculo; o planeta anda mais rápido quando está perto do Sol e mais devagar quando está longe; e quanto maior a órbita, mais tempo ela leva para ser completada, numa proporção exata que vale para todo o Sistema Solar.

Elas foram descobertas entre 1609 e 1619 pelo alemão Johannes Kepler, que não tinha telescópio decente, não sabia o que era gravidade e chegou lá só olhando tabelas de observações. Até hoje são elas que a NASA usa para calcular a trajetória de uma sonda. Abaixo, uma de cada vez, sem fórmula.

Primeira lei: a órbita é uma elipse

A primeira lei diz, nas palavras da NASA, que a órbita de cada planeta em volta do Sol é uma elipse. O Sol não fica no centro dessa elipse: fica num dos dois focos dela, que são dois pontos deslocados para os lados.

Elipse é o nome técnico do que a gente chama de "círculo achatado" ou de formato de ovo — só que simétrico dos dois lados. Dá para desenhar uma em casa: espete dois pregos numa tábua, amarre um barbante nos dois formando uma alça folgada, estique o barbante com a ponta do lápis e corra com ele em volta. O que sai é uma elipse, e cada prego é um foco.

A consequência prática é a que interessa: como o Sol está num foco e não no meio, a distância entre o planeta e o Sol muda o tempo todo. Existe um ponto mais próximo, chamado periélio, e um ponto mais distante, o afélio. A Terra passa pelo periélio no começo de janeiro e pelo afélio no começo de julho — e isso, por si só, não causa as estações do ano.

A excentricidade, o número que mede o achatamento

Para dizer o quanto uma órbita é achatada existe um número chamado excentricidade. Ele vai de 0, que é um círculo perfeito, até perto de 1, que é uma elipse tão esticada que vira quase uma linha.

Aqui está o valor de cada planeta, segundo as fichas planetárias da NASA:

Corpo Excentricidade Como é a órbita
Vênus 0,007 A mais redonda do Sistema Solar
Netuno 0,010 Quase um círculo
Terra 0,017 Praticamente redonda
Urano 0,047 Levemente oval
Júpiter 0,049 Levemente oval
Saturno 0,052 Levemente oval
Marte 0,094 Visivelmente oval
Mercúrio 0,206 A mais achatada entre os planetas
Cometa Halley 0,967 Uma elipse longuíssima

O número da Terra assusta pela pequenez: 0,017. Se você desenhasse a órbita do nosso planeta num papel A4, ninguém conseguiria distinguir aquilo de um círculo feito com compasso — a diferença seria menor que a espessura do traço do lápis. É por isso que a ideia de "órbita oval" engana tanta gente: nos desenhos de livro escolar, o achatamento é exagerado de propósito para a elipse ficar visível.

Mercúrio é o extremo oposto entre os planetas. Com excentricidade de 0,206, ele chega a ficar perto de 46 milhões de km do Sol e a se afastar até cerca de 70 milhões — uma variação de mais de 50% na distância ao longo do mesmo ano.

E o campeão da tabela é um visitante conhecido: o cometa Halley, com 0,967, mergulha para dentro da órbita de Vênus e depois sai para além de Netuno. Essa viagem está contada em Cometa Halley: quando volta (2061) e por que é o mais famoso.

Segunda lei: ele acelera quando chega perto

A segunda lei é a mais elegante das três e a mais difícil de enunciar sem matemática. A NASA a resume assim: a linha imaginária que liga o planeta ao Sol varre áreas iguais em intervalos de tempo iguais.

Traduzindo com uma pizza. Imagine duas fatias cortadas da órbita: uma na região em que o planeta está perto do Sol, outra na região em que ele está longe. A lei diz que, em um mês de viagem, o planeta sempre varre a mesma área. Perto do Sol, a fatia é curta — então, para ter a mesma área, ela precisa ser larga, e o planeta tem de percorrer um trecho grande da órbita. Longe do Sol, a fatia é comprida — então basta ser estreita, e o planeta percorre um trecho pequeno.

Resultado: o planeta corre no periélio e arrasta os pés no afélio. A NASA registra o mesmo em uma frase: o planeta se move mais rápido quando está mais perto do Sol e mais devagar quando está mais longe.

A analogia do dia a dia é a montanha-russa. O carrinho ganha velocidade quando desce para o ponto mais baixo e perde quando sobe. Chegar perto do Sol é "descer"; afastar-se é "subir".

Isso tem efeito visível no calendário brasileiro. Como a Terra anda mais rápido em janeiro, quando está no periélio, o verão do hemisfério sul é mais curto que o inverno. Calculando com os instantes exatos dos solstícios e equinócios: o verão de 2026 para 2027 dura 88,98 dias, e o inverno de 2027, 93,66 dias. São quase cinco dias de diferença, e ninguém percebe sem olhar as datas, reunidas em Estações do ano: por que existem e as datas de 2026 e 2027.

Terceira lei: quanto mais longe, mais devagar

A terceira lei liga o tamanho da órbita à duração dela: os quadrados dos períodos são proporcionais aos cubos das distâncias médias ao Sol.

Em português de gente: se um planeta está 4 vezes mais longe do Sol que a Terra, o ano dele não dura 4 anos nossos, e sim 8. A conta é 4 elevado ao cubo (64) e depois a raiz quadrada disso (8).

O impressionante é que a lei funciona. Peguei as distâncias e os períodos publicados pela NASA, converti tudo para unidades da Terra — distância da Terra ao Sol igual a 1, ano da Terra igual a 1 — e dividi o tempo ao quadrado pela distância ao cubo. Se Kepler estiver certo, o resultado tem de dar 1 para todo mundo:

Planeta Distância (Terra = 1) Ano (Terra = 1) Tempo² ÷ distância³
Mercúrio 0,387 0,241 1,002
Vênus 0,723 0,615 1,001
Terra 1,000 1,000 1,000
Marte 1,524 1,881 1,000
Júpiter 5,204 11,859 0,998
Saturno 9,572 29,428 0,987
Urano 19,164 83,760 0,997
Netuno 30,180 163,746 0,975

De Mercúrio a Netuno, de um mundo que leva 88 dias a outro que leva 164 anos, a mesma conta dá praticamente o mesmo número. As diferenças de 1% a 2% nas últimas linhas vêm do arredondamento dos próprios valores publicados na tabela da NASA, não de uma falha da lei.

A lista completa de quanto dura o ano em cada mundo está em Quanto tempo dura um ano em cada planeta?.

Como um homem sem telescópio descobriu isso

Kepler não tinha os dados. Quem tinha era o dinamarquês Tycho Brahe, dono das observações mais precisas da época, feitas a olho nu com instrumentos gigantes, antes da invenção do telescópio astronômico.

Em 1600, banido de Graz por motivos religiosos, Kepler foi trabalhar como assistente de Brahe em Praga. A NASA conta que Brahe limitava o acesso de Kepler aos dados e lhe entregou justamente o problema que ninguém conseguia resolver: a órbita de Marte, que teimava em não bater com nenhum círculo.

O planeta Marte visto como um disco alaranjado, com calota polar branca no alto, manchas escuras na superfície e nuvens brancas nas bordas
Marte fotografado pelo telescópio Hubble. Foi a órbita deste planeta que Tycho Brahe entregou a Kepler para resolver, e foi nela que a elipse apareceu. Foto: JPL/NASA/STScI

Foi a escolha mais sortuda possível. Marte tem excentricidade de 0,094 — alta o suficiente para que o desvio em relação a um círculo apareça nas medidas, e baixa o suficiente para que o planeta seja fácil de acompanhar. Se Brahe tivesse dado Vênus, com excentricidade de 0,007, a elipse provavelmente teria passado despercebida.

Kepler passou anos tentando encaixar círculos, falhou, e só então aceitou a elipse. As duas primeiras leis saíram em 1609, no livro Astronomia Nova; a terceira, dez anos depois, em 1619.

O que Kepler não sabia, e Newton descobriu

Há um detalhe que dá a dimensão do que ele fez: Kepler encontrou as três regras sem saber por que elas funcionavam. Ele descreveu o comportamento, não a causa.

A causa veio em 1687, com Isaac Newton. Como a própria NASA registra, as leis de Kepler foram instrumentais para Newton deduzir a teoria da gravitação universal — e, uma vez pronta, essa teoria produzia as três leis automaticamente, como consequência matemática. O que era padrão observado virou efeito de uma força. Sobre essa força, vale ler O que é gravidade? E por que os astronautas flutuam.

Hoje as três leis valem muito além dos planetas: valem para as luas em volta de Júpiter, para os satélites artificiais em volta da Terra, para as sondas e até para planetas de outras estrelas. É por isso que a terceira lei é a ferramenta que permite pesar uma estrela distante: medindo quanto tempo um planeta leva para dar a volta e a que distância ele está, sai a massa do corpo central.

Perguntas frequentes

Quais são as três leis de Kepler?

Primeira: a órbita de um planeta é uma elipse, com o Sol num dos focos. Segunda: a linha que liga o planeta ao Sol varre áreas iguais em tempos iguais, ou seja, o planeta acelera quando está perto e desacelera quando está longe. Terceira: o quadrado do período orbital é proporcional ao cubo da distância média ao Sol.

Por que as órbitas são elipses e não círculos?

Porque o círculo é um caso particular raríssimo, em que a excentricidade seria exatamente zero. Qualquer corpo capturado pela gravidade entra numa órbita com algum grau de achatamento, e manter uma órbita perfeitamente circular exigiria uma velocidade exata, sem nenhum desvio.

A Terra fica mais perto do Sol no verão?

No hemisfério sul, sim — e isso não é o que causa o verão. A Terra passa pelo ponto mais próximo do Sol no começo de janeiro, mas a variação de distância é pequena demais para explicar as estações, que são causadas pela inclinação do eixo do planeta.

As leis de Kepler valem fora do Sistema Solar?

Valem. São usadas para calcular órbitas de luas, de satélites artificiais, de sondas e de planetas em volta de outras estrelas. A terceira lei, em especial, é o que permite estimar a massa de uma estrela distante a partir do período e da distância de um planeta que gira em torno dela.

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