O cometa Halley volta a passar perto do Sol em 28 de julho de 2061. Ele aparece uma vez a cada 75 ou 76 anos, e a última visita foi em 1986. Neste momento ele está voltando: em dezembro de 2023 chegou ao ponto mais distante da órbita, além de Netuno, deu a volta e começou a cair de novo em direção ao Sol. Quem tem menos de 40 anos hoje tem boa chance de vê-lo; quem viu em 1986 talvez veja duas vezes na vida, coisa que pouca gente na história conseguiu. Este artigo explica o que é um cometa, por que o Halley é o mais famoso de todos, como foi a passagem de 1986 e o que se espera de 2061.
O que é um cometa, afinal
Um cometa é uma bola de gelo, poeira e rocha, em geral com alguns quilômetros, que sobrou da formação do Sistema Solar. A comparação clássica é uma bola de neve suja. Longe do Sol, ele é só isso: um pedaço escuro e congelado, invisível.
Quando a órbita o traz para perto do Sol, o gelo passa direto de sólido para gás, arrastando poeira. Forma-se uma nuvem em volta do núcleo, a coma, que pode ter 100 mil km de diâmetro, maior que Júpiter. E o vento solar empurra esse gás e essa poeira para longe, formando a cauda, que sempre aponta para o lado oposto ao Sol e pode se esticar por dezenas de milhões de quilômetros. É por isso que um cometa se afastando do Sol viaja com a cauda na frente.
A diferença entre cometa, asteroide e meteoro está explicada em Meteoro, meteorito, asteroide e cometa: qual é a diferença?. O resumo: cometa é gelo e vem de longe; asteroide é rocha e mora entre Marte e Júpiter.
Por que o Halley é o mais famoso
Cometas aparecem todo ano; a maioria é fraca demais para ver a olho nu. O Halley é especial por três motivos.
Primeiro, ele é o único cometa brilhante que volta dentro de uma vida humana. A maioria dos cometas grandes tem órbitas de milhares de anos: aparece uma vez e nunca mais. O Halley leva 76 anos, então praticamente toda geração registrou a passagem dele, desde o ano 240 a.C., quando astrônomos chineses o anotaram. Ele está na Tapeçaria de Bayeux, bordada em 1066, aparecendo como mau presságio antes da batalha de Hastings. Trinta passagens estão documentadas.
Segundo, foi o primeiro cometa a ter a volta prevista. Em 1705, o astrônomo inglês Edmond Halley usou a lei da gravidade de Isaac Newton, recém-publicada, para calcular as órbitas de 24 cometas históricos. Notou que os de 1531, 1607 e 1682 tinham órbitas quase iguais e concluiu que eram o mesmo objeto. Previu a volta para 1758. Ele morreu em 1742, mas o cometa apareceu na noite de Natal de 1758, exatamente como previsto. Foi a maior prova pública de que a gravidade de Newton funcionava, e o cometa ganhou o nome dele.
Terceiro, é o único cometa visitado de perto por naves. Em março de 1986, uma frota de cinco sondas foi ao encontro dele; a europeia Giotto passou a 596 km do núcleo e fez a foto de capa deste artigo. Foi a primeira vez que a humanidade viu o núcleo de um cometa: um objeto em forma de amendoim, com 15 por 8 km, mais escuro que carvão, soltando jatos de gás pelas rachaduras. A "bola de neve suja" era mais suja do que se imaginava.
Onde ele está agora
A órbita do Halley é uma elipse muito esticada. No ponto mais próximo do Sol, o periélio, ele passa a 88 milhões de km, mais perto que Vênus. No mais distante, o afélio, chega a 5,2 bilhões de km, além da órbita de Netuno.
Ele passou pelo afélio em 9 de dezembro de 2023. Naquele momento estava a 35 vezes a distância da Terra ao Sol, andando a pouco mais de 3 mil km/h, a velocidade mais baixa da órbita. Desde então vem caindo de volta em direção ao Sol, acelerando aos poucos, e vai chegar a quase 200 mil km/h perto do periélio, em 2061. Em setembro de 2026 ele ainda está além da órbita de Netuno, escuro, sem cauda, invisível até para os grandes telescópios do chão.
Ele gira ao contrário dos planetas. Todos os planetas dão a volta no Sol no mesmo sentido; o Halley vai no sentido oposto, o que faz com que ele cruze a órbita da Terra a uma velocidade relativa enorme. É por isso que os pedaços dele entram na atmosfera tão rápido, como veremos.

Como foi em 1986 (e por que decepcionou)
A passagem de 1986 foi a pior das últimas 2 mil anos para quem estava na Terra. O cometa passou pelo periélio em 9 de fevereiro, do lado oposto do Sol em relação a nós, e quando ficou visível já estava se afastando. Mesmo assim, o hemisfério sul teve a melhor vista do planeta: em março e abril de 1986 o Halley apareceu alto no céu do Brasil, de madrugada, como uma mancha difusa com cauda curta, visível a olho nu longe das cidades. Muita gente viajou para o interior para ver, e observatórios brasileiros fizeram campanhas de observação com o público.
A passagem anterior, em 1910, tinha sido espetacular, e assustadora. A Terra atravessou a cauda do cometa em maio daquele ano, e astrônomos tinham detectado gás cianogênio na cauda. Jornais espalharam que o planeta seria envenenado; vendeu-se "pílula anticometa" e máscara de gás. Não aconteceu nada, porque a cauda de um cometa é mais rarefeita que o melhor vácuo de laboratório. Naquele ano morreu o escritor Mark Twain, que tinha nascido na passagem de 1835 e previra, em 1909: "Vim com o Halley e vou embora com ele".
O que esperar de 2061
A passagem de 2061 promete ser melhor que a de 1986: o cometa vai passar do mesmo lado do Sol que a Terra, e as previsões apontam para um brilho parecido com o das estrelas mais brilhantes do céu, com cauda visível a olho nu. Ele deve ser mais fácil de ver do hemisfério norte dessa vez, mas do Brasil também aparecerá, baixo no horizonte, no fim de julho e em agosto de 2061. Como cometas são imprevisíveis, tudo isso vale com "previsto para".
Uma curiosidade para o futuro: a passagem seguinte, por volta de 2134, deve ser uma das mais próximas da história, com o cometa a só 14 milhões de km da Terra, brilhando mais que Vênus. Fica para os nossos netos.
Enquanto o Halley não volta, cometas novos aparecem sem aviso, vindos da Nuvem de Oort, o depósito de gelo nos limites do Sistema Solar. Alguns ficam brilhantes, como o NEOWISE em 2020 e o Tsuchinshan-ATLAS em 2024, visível do Brasil ao anoitecer. Não dá para prever com anos de antecedência; a única regra é acompanhar as notícias de astronomia e sair da cidade quando um aparecer. E, de vez em quando, chega um visitante de fora do Sistema Solar, como os que contamos em Sinais de alienígenas: o que a ciência já captou de verdade.
Você pode ver pedaços do Halley todo ano
Aqui está a parte que quase ninguém sabe. A cada passagem, o cometa deixa para trás um rastro de poeira. A Terra atravessa esse rastro duas vezes por ano, e cada grão que entra na atmosfera vira uma estrela cadente. São duas chuvas de meteoros:
| Chuva | Pico | Como é no Brasil |
|---|---|---|
| Eta Aquáridas | Por volta de 5 e 6 de maio | Uma das melhores do ano para o hemisfério sul: até 50 meteoros por hora, de madrugada, rápidos e com rastro |
| Orionídeas | Por volta de 21 de outubro | Uns 20 meteoros por hora depois da meia-noite, saindo da direção de Órion |
Os meteoros do Halley são dos mais rápidos que existem, a 66 km/s, justamente porque o cometa anda em sentido contrário ao da Terra: é uma batida de frente. Cada risco de luz nessas noites é um grão de poeira que se soltou do Halley há séculos. Os horários, a direção para olhar e a fase da Lua de cada pico estão em Chuva de meteoros hoje: horários e como ver do Brasil.




