A corrida espacial foi a disputa entre Estados Unidos e União Soviética para chegar primeiro a cada marco da exploração do espaço, entre o fim dos anos 1950 e meados dos anos 1970. Ela não era sobre ciência: era sobre prestígio e medo, no meio da Guerra Fria. O foguete que põe um satélite em órbita é o mesmo que entrega uma bomba do outro lado do mundo, e os dois países sabiam disso. A largada foi em 4 de outubro de 1957, quando os soviéticos lançaram o Sputnik 1. O momento mais alto foi 20 de julho de 1969, com os americanos pisando na Lua. E o fim simbólico veio em órbita, em julho de 1975, com dois rivais apertando as mãos.
A noite em que tudo virou: 4 de outubro de 1957
A cena é quase cômica, e está registrada pelo escritório de história da NASA. Naquela sexta-feira, cientistas dos dois países estavam numa recepção na embaixada soviética em Washington, encerrando uma semana de reuniões científicas internacionais.
Pouco antes das 18h, um repórter do New York Times recebeu um telefonema desesperado do chefe de redação: a agência soviética Tass acabara de anunciar o lançamento do Sputnik 1, o primeiro satélite artificial da história. O americano atravessou o salão e sussurrou para um colega: "subiu".
O delegado americano então pediu silêncio na sala e, com toda a elegância do mundo, anunciou: "Desejo parabenizar nossos colegas soviéticos pela conquista". Do outro lado do salão, o rosto do homem que chefiava o programa de satélites dos Estados Unidos ficou branco.
O satélite em si era modesto: uma esfera de alumínio de 56 centímetros, com quatro antenas chicoteando atrás, pesando 83 quilos, que dava uma volta na Terra a cada 96 minutos levando um rádio que só apitava. Caiu de volta na atmosfera três meses depois. Mas o apito era audível por qualquer radioamador do planeta, e dizia uma coisa só: eles chegaram antes.
O susto americano e dois foguetes que explodiram
A reação dos Estados Unidos foi um desastre público antes de ser uma vitória.
Menos de um mês depois, em 3 de novembro de 1957, os soviéticos lançaram o Sputnik 2, com a cadela Laika a bordo — seis vezes mais pesado que o primeiro, e com um ser vivo dentro. A história dela está em Qual foi o primeiro animal a ir ao espaço?.
A Casa Branca então marcou para 6 de dezembro de 1957 o lançamento de um foguete Vanguard, e convidou a imprensa para assistir. O foguete subiu uns noventa centímetros acima da plataforma, estremeceu e se desintegrou em chamas, ao vivo. Em 5 de fevereiro de 1958, numa segunda tentativa, o Vanguard chegou a pouco mais de seis quilômetros de altura e explodiu.
Quem salvou a lavoura foi o Exército, com um plano de satélite que estava engavetado e com a equipe de foguetes alemã de Wernher von Braun. Em 31 de janeiro de 1958, às 22h55, o foguete Juno 1 decolou de Cabo Canaveral com o Explorer 1 — o primeiro satélite americano. Ele não só funcionou como descobriu alguma coisa de verdade: os cinturões de partículas presas no campo magnético da Terra, contados em O que é o cinturão de Van Allen?.
De susto a agência: o nascimento da NASA
O pânico político foi tão grande que mudou a estrutura do governo americano. Em 4 de fevereiro de 1958, o presidente Eisenhower pediu ao comitê de assessores científicos da Casa Branca um plano para uma nova organização espacial.
A solução foi aproveitar e ampliar um órgão que já existia desde 1915, discreto e técnico, dedicado à aeronáutica: o NACA. No verão de 1958 o Congresso aprovou a Lei Nacional de Aeronáutica e do Espaço, e o presidente a assinou em 29 de julho de 1958. A agência nova, civil, abriu as portas em 1º de outubro de 1958 e se chamava NASA. Toda a ficha dela está em O que é a NASA? Quando nasceu, o que faz e quanto gasta.
Os anos em que os soviéticos ganharam quase tudo
Entre 1957 e 1965, praticamente todo "primeiro" da história espacial foi soviético. Esta é a cronologia, com as datas conferidas em páginas da NASA:
| Data | Marco | De quem |
|---|---|---|
| 4/10/1957 | Primeiro satélite artificial (Sputnik 1) | URSS |
| 3/11/1957 | Primeiro ser vivo em órbita (Laika) | URSS |
| 31/1/1958 | Primeiro satélite americano (Explorer 1) | EUA |
| 1/10/1958 | NASA entra em operação | EUA |
| 12/4/1961 | Primeiro humano no espaço (Yuri Gagarin) | URSS |
| 5/5/1961 | Primeiro americano no espaço (Alan Shepard) | EUA |
| 25/5/1961 | Kennedy promete a Lua ao Congresso | EUA |
| 20/7/1969 | Primeiro pouso tripulado na Lua (Apollo 11) | EUA |
| 17/7/1975 | Acoplagem Apollo-Soyuz em órbita | Os dois |
108 minutos que humilharam os Estados Unidos
Em 12 de abril de 1961, o cosmonauta Yuri Gagarin deu uma volta completa na Terra a bordo da Vostok 1. O voo durou 108 minutos, a nave viajou a 27.400 km/h e a reentrada foi controlada por computador. Detalhe que quase ninguém sabe: Gagarin não pousou dentro da cápsula — ele foi ejetado e desceu de paraquedas, separado dela. A história está em Quem foi o primeiro homem a ir ao espaço?.
Os Estados Unidos responderam 23 dias depois. Em 5 de maio de 1961, Alan Shepard virou o primeiro americano no espaço — mas num voo suborbital de cerca de 15 minutos, que subiu, desceu e caiu no Atlântico. Não era a mesma coisa que Gagarin fez, e todo mundo sabia disso.

O que aconteceu em seguida é o momento mais ousado da corrida inteira. Em 25 de maio de 1961, apenas vinte dias depois daquele voo de quinze minutos, o presidente John F. Kennedy foi ao Congresso e disse que o país deveria "se comprometer a alcançar o objetivo, antes do fim desta década, de pousar um homem na Lua e trazê-lo em segurança de volta à Terra".
Vale pesar isso com calma. Os Estados Unidos tinham, naquele momento, quinze minutos acumulados de voo humano no espaço, nenhum deles em órbita. E acabavam de prometer a Lua em menos de nove anos.
A virada: o pouso de 1969
A promessa foi cumprida com cinco meses de sobra. Em 20 de julho de 1969, a Apollo 11 pousou no mar da Tranquilidade. A história completa está em Quem foi o primeiro homem a pisar na Lua?.
Ali a corrida mudou de natureza. Os soviéticos nunca pousaram um ser humano na Lua. O objetivo que Kennedy tinha escolhido — difícil, caro e visível do mundo inteiro — tinha sido alcançado, e não sobrou um segundo objetivo igualmente definido para disputar.
O aperto de mão que encerrou tudo
Em 15 de julho de 1975, uma nave Apollo decolou com três americanos e, dois dias depois, acoplou em órbita com uma Soyuz soviética de dois tripulantes. O Projeto de Testes Apollo-Soyuz não tinha objetivo científico grandioso: ele tinha um objetivo político, que era mostrar que os dois lados conseguiam se encaixar.
E foi preciso inventar peça nova para isso. As duas naves usavam pressões e misturas de ar diferentes e nem sequer tinham encaixes compatíveis. A solução foi construir um módulo de acoplagem, que funcionava ao mesmo tempo como adaptador entre os dois encaixes e como câmara de transição: o tripulante entrava, a pressão era ajustada à da outra nave, e só então a segunda porta abria. Quem pilotou esse módulo foi Deke Slayton, o último da fila na foto dos sete astronautas do Mercury.

Quem ganhou, afinal
Depende de onde você coloca a linha de chegada, e essa é a resposta honesta.
Se o critério é chegar primeiro ao espaço, a União Soviética ganhou com folga: primeiro satélite, primeiro ser vivo em órbita e primeiro ser humano a dar a volta na Terra, todos antes de os Estados Unidos conseguirem o equivalente. Se o critério é pisar na Lua, que foi a meta que os Estados Unidos escolheram e anunciaram publicamente, os americanos ganharam — e foram os únicos a conseguir até hoje, como explica Por que ninguém voltou à Lua desde 1972 — respondido de vez.
O que vale guardar é o efeito colateral. Uma disputa movida por medo produziu, em menos de doze anos, a travessia do foguete de apito para o foguete que leva gente a outro mundo. E hoje existe uma nova disputa pela Lua, com outros nomes e outra lógica, contada em EUA x China: a nova corrida pela Lua.




