Curiosidades

Cometa rasante: o que acontece com quem chega perto do Sol

Mais de 5.000 cometas já foram achados nas imagens do Sol pelo SOHO, mais da metade de todos os conhecidos. Veja o que são os rasantes e como eles morrem.

Publicado em 7 min de leitura
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Imagem do coronógrafo do SOHO com o disco do Sol tapado por um círculo preto, a coroa solar em roxo ao redor e o risco claro de um cometa entrando no quadro
Foto: NASA/GSFC
Neste artigo
  1. Por que eles só aparecem com o Sol tapado
  2. Mais da metade de todos os cometas conhecidos
  3. A família Kreutz: milhares de cacos de um cometa só
  4. O que acontece quando um deles chega lá
  5. O que decide quem escapa
  6. Quem acha esses cometas

Um cometa rasante é um cometa cuja órbita o leva a passar raspando no Sol — e a maioria não sobrevive à passagem. Eles são muito mais comuns do que se imaginava: um único observatório solar, o SOHO, já descobriu mais de 5.000 cometas, o que é mais da metade de todos os cometas conhecidos pela humanidade. Quase todos pertencem a uma mesma família, são pequenos como uma casa e evaporam antes de chegar à superfície. Este artigo conta o que são, por que só dá para vê-los com o Sol tapado e o que acontece nos últimos minutos de um deles.

Se a diferença entre cometa, asteroide e meteoro ainda embaralha, resolva isso primeiro em Meteoro, meteorito, asteroide e cometa: qual é a diferença?. Em uma frase: cometa é uma bola de gelo e poeira que ganha cauda quando o calor do Sol a aquece.

Por que eles só aparecem com o Sol tapado

Tente olhar para um poste de luz à noite e enxergar um mosquito voando a dez centímetros dele. Não dá: o brilho da lâmpada apaga tudo em volta. Com o Sol é a mesma coisa, elevada a um número absurdo.

A solução é um instrumento chamado coronógrafo — uma câmera com um disco metálico no meio, que tapa o Sol de propósito. Com a lâmpada coberta, aparece o que estava escondido ao redor: a coroa solar, que é a atmosfera externa do Sol, e qualquer coisa que esteja passando por ali. O coronógrafo do SOHO se chama LASCO, e a NASA descreve a função dele exatamente assim: ele bloqueia o clarão do Sol, o que torna os cometas visíveis.

É por isso que esses cometas não são achados por telescópio de quintal nem por observatório de montanha. Eles só existem para nós dentro da foto do coronógrafo.

O SOHO é um observatório de NASA e Agência Espacial Europeia lançado em 2 de dezembro de 1995, que trabalha a 1,5 milhão de quilômetros da Terra, num ponto de equilíbrio gravitacional entre nós e o Sol chamado L1. Dali ele tem o Sol à vista 24 horas por dia, sem a Terra entrar na frente — a lógica desses pontos está em O que é o ponto L2, onde ficam os telescópios. Em dezembro de 2025 ele completou 30 anos de operação contínua.

Mais da metade de todos os cometas conhecidos

Este é o número que costuma derrubar o queixo de quem ouve pela primeira vez.

Dado Valor
Cometas rasantes conhecidos antes do SOHO 25
Cometas descobertos pelo SOHO mais de 5.000 (marca atingida em março de 2024)
Fatia de todos os cometas conhecidos mais da metade
Quantas pessoas assinam essas descobertas mais de 70, de 18 países
Cometas vistos pelo LASCO nos 15 primeiros anos mais de 2.000

Antes de 1995, em toda a história da astronomia, 25 cometas rasantes tinham sido descobertos. Um único aparelho multiplicou esse número por duzentos. Não é que o Sol tenha ficado mais movimentado: é que ninguém tinha, até então, uma câmera apontada para lá o tempo todo, com a lâmpada tapada.

Imagem azul do coronógrafo do SOHO, com o disco do Sol em vermelho no centro e um cometa entrando por cima e saindo por baixo do quadro
Composição do SOHO com o cometa ISON entrando pela parte de cima e reaparecendo embaixo, em novembro de 2013. O disco central é uma imagem do Sol feita por outro satélite, encaixada no buraco que o coronógrafo deixa. Foto: NASA/GSFC

A família Kreutz: milhares de cacos de um cometa só

A esmagadora maioria desses cometas não é formada por visitantes independentes. Eles são parentes.

O grupo se chama família Kreutz, em homenagem a Heinrich Kreutz, o astrônomo que fez os primeiros estudos sistemáticos de cometas rasantes nas décadas de 1880 e 1890. Já em 2012, um artigo científico com coautoria do Centro de Voo Espacial Goddard, da NASA, contava mais de 1.400 membros do grupo entre os cometas do SOHO — e o chamava de o maior grupo de cometas conhecido.

A origem é a parte bonita da história: acredita-se que todos sejam fragmentos de um único cometa que se partiu. O mesmo artigo estima que a quebra tenha sido relativamente recente em escala astronômica, cerca de 2.500 anos atrás.

Pense num prato de vidro que caiu no chão da cozinha. Você varre os cacos grandes e acha que acabou; semanas depois ainda está encontrando lasquinhas embaixo da geladeira. A família Kreutz é isso, em escala de Sistema Solar — e as lasquinhas continuam aparecendo, uma por semana, há trinta anos.

E a história é antiga: a NASA registra que cometas rasantes podem ter sido observados já em 372 a.C. Um grande cometa descrito por Aristóteles pode ter sido um Kreutz.

O que acontece quando um deles chega lá

Não é um mergulho com explosão final. É uma evaporação.

Quando o cometa se aproxima, ele brilha cada vez mais forte — o gelo vira gás, a cauda cresce — e depois simplesmente some, consumido pela radiação solar. A NASA é categórica num ponto que surpreende: nunca se viu um cometa realmente atingir a superfície do Sol. Eles acabam antes.

Um caso foi acompanhado em detalhe absurdo. Em 6 de julho de 2011, o cometa C/2011 N3 foi observado morrendo dentro da coroa solar pelo Observatório de Dinâmica Solar da NASA, em cinco faixas de luz ultravioleta ao mesmo tempo. O cometa chegou a cerca de 100 mil quilômetros da superfície do Sol antes de o sinal desaparecer.

Nos dez minutos finais de observação, ele perdeu entre 600 e 60 mil toneladas de material. No limite superior dessa faixa, isso dá 100 toneladas por segundo virando gás. A partir dessa perda de massa, os pesquisadores calcularam o tamanho do que estava sobrando: um núcleo de 10 a 50 metros de diâmetro.

Guarde esse número, porque ele muda a imagem mental que a maioria tem. Um cometa rasante típico não é um mundo de gelo: é uma pedra de gelo do tamanho de uma casa ou de um prédio de dez andares. Para comparação, o núcleo do cometa mais famoso de todos é de outra categoria — veja Cometa Halley: quando volta (2061) e por que é o mais famoso.

O que decide quem escapa

Tamanho. Só isso.

O mesmo artigo de 2012 afirma que apenas os maiores membros do grupo Kreutz, com diâmetros de até cerca de 100 metros, conseguiram sobreviver à passagem mais próxima do Sol. E registra que, até ali, o SOHO nunca tinha presenciado uma sobrevivência — até o cometa Lovejoy reaparecer do outro lado do Sol, em 15 e 16 de dezembro de 2011.

Faz sentido quando se pensa em gelo. Um cubo de gelo pequeno no copo derrete em minutos; uma pedra grande de gelo dura a tarde inteira, porque tem mais volume para cada pedaço de superfície exposta ao calor. Na coroa solar vale a mesma física, com a temperatura em outro patamar.

Dois cometas rasantes acompanhados pelo SOHO em 1998 passaram a 50 mil quilômetros da superfície do Sol. Para dar escala: é menos de um sétimo da distância entre a Terra e a Lua. Nessa altura, o cometa está dentro da atmosfera da estrela.

Ilustração do SOHO, uma nave em forma de caixa com dois painéis solares retangulares e uma antena dourada, sobre fundo preto
Ilustração do SOHO, o observatório de NASA e Agência Espacial Europeia que descobriu mais cometas que qualquer outro instrumento da história. Não é foto: nenhuma nave fotografou o SOHO no lugar onde ele trabalha. Foto: ESA/NASA/SOHO

Quem acha esses cometas

Aqui está a parte que mais impressiona: a maior parte dessas descobertas não foi feita por astrônomos profissionais. As imagens do SOHO são públicas, e gente comum vasculha quadro a quadro procurando o risquinho de luz que se move na direção do Sol. A NASA registra que as descobertas levam a assinatura de mais de 70 pessoas, de 18 países diferentes.

O caso emblemático é o do cometa de número 5.000, encontrado em 25 de março de 2024 por um voluntário que fez a primeira descoberta aos 13 anos de idade. Quem quiser entrar nessa — e dá, de graça, do Brasil — encontra o caminho em Dá para ajudar a NASA de casa? 49 projetos abertos.

Perguntas frequentes

O que é um cometa rasante?

É um cometa cuja órbita passa extremamente perto do Sol. A maioria dos que conhecemos pertence à família Kreutz e é descoberta nas imagens do observatório SOHO. Eles costumam ser pequenos — de 10 a 50 metros de diâmetro, pelo cálculo feito num caso acompanhado em 2011 — e quase nunca sobrevivem à aproximação.

Um cometa pode cair dentro do Sol?

Na prática, eles acabam antes de chegar lá. A NASA afirma que os físicos solares nunca viram um cometa atingir de fato a superfície do Sol: o que se observa é o cometa brilhar cada vez mais e depois desaparecer, evaporado pela radiação solar. O caso mais bem documentado chegou a cerca de 100 mil quilômetros da superfície antes de sumir.

Quantos cometas o SOHO já descobriu?

Mais de 5.000, marca atingida em março de 2024. Isso representa mais da metade de todos os cometas conhecidos pela humanidade. Antes do lançamento do SOHO, em 1995, apenas 25 cometas rasantes tinham sido descobertos em toda a história.

Dá para ver um cometa rasante da Terra, a olho nu?

Em geral não. Eles são pequenos e estão sempre na direção do Sol, ofuscados pelo brilho dele; só aparecem nas imagens de coronógrafo, que tapam o disco solar de propósito. A exceção são os raros membros grandes da família, como o cometa Lovejoy, que sobreviveu à passagem de dezembro de 2011 e ficou visível depois.

Por que tantos cometas rasantes são parecidos?

Porque são parentes. Acredita-se que a família Kreutz seja formada por fragmentos de um único cometa que se partiu, segundo estimativa de um artigo científico de 2012, há cerca de 2.500 anos. Mais de 1.400 dos cometas achados pelo SOHO já tinham sido identificados como membros desse grupo naquela época, o que faz dele o maior grupo de cometas conhecido.

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