Um cometa rasante é um cometa cuja órbita o leva a passar raspando no Sol — e a maioria não sobrevive à passagem. Eles são muito mais comuns do que se imaginava: um único observatório solar, o SOHO, já descobriu mais de 5.000 cometas, o que é mais da metade de todos os cometas conhecidos pela humanidade. Quase todos pertencem a uma mesma família, são pequenos como uma casa e evaporam antes de chegar à superfície. Este artigo conta o que são, por que só dá para vê-los com o Sol tapado e o que acontece nos últimos minutos de um deles.
Se a diferença entre cometa, asteroide e meteoro ainda embaralha, resolva isso primeiro em Meteoro, meteorito, asteroide e cometa: qual é a diferença?. Em uma frase: cometa é uma bola de gelo e poeira que ganha cauda quando o calor do Sol a aquece.
Por que eles só aparecem com o Sol tapado
Tente olhar para um poste de luz à noite e enxergar um mosquito voando a dez centímetros dele. Não dá: o brilho da lâmpada apaga tudo em volta. Com o Sol é a mesma coisa, elevada a um número absurdo.
A solução é um instrumento chamado coronógrafo — uma câmera com um disco metálico no meio, que tapa o Sol de propósito. Com a lâmpada coberta, aparece o que estava escondido ao redor: a coroa solar, que é a atmosfera externa do Sol, e qualquer coisa que esteja passando por ali. O coronógrafo do SOHO se chama LASCO, e a NASA descreve a função dele exatamente assim: ele bloqueia o clarão do Sol, o que torna os cometas visíveis.
É por isso que esses cometas não são achados por telescópio de quintal nem por observatório de montanha. Eles só existem para nós dentro da foto do coronógrafo.
O SOHO é um observatório de NASA e Agência Espacial Europeia lançado em 2 de dezembro de 1995, que trabalha a 1,5 milhão de quilômetros da Terra, num ponto de equilíbrio gravitacional entre nós e o Sol chamado L1. Dali ele tem o Sol à vista 24 horas por dia, sem a Terra entrar na frente — a lógica desses pontos está em O que é o ponto L2, onde ficam os telescópios. Em dezembro de 2025 ele completou 30 anos de operação contínua.
Mais da metade de todos os cometas conhecidos
Este é o número que costuma derrubar o queixo de quem ouve pela primeira vez.
| Dado | Valor |
|---|---|
| Cometas rasantes conhecidos antes do SOHO | 25 |
| Cometas descobertos pelo SOHO | mais de 5.000 (marca atingida em março de 2024) |
| Fatia de todos os cometas conhecidos | mais da metade |
| Quantas pessoas assinam essas descobertas | mais de 70, de 18 países |
| Cometas vistos pelo LASCO nos 15 primeiros anos | mais de 2.000 |
Antes de 1995, em toda a história da astronomia, 25 cometas rasantes tinham sido descobertos. Um único aparelho multiplicou esse número por duzentos. Não é que o Sol tenha ficado mais movimentado: é que ninguém tinha, até então, uma câmera apontada para lá o tempo todo, com a lâmpada tapada.

A família Kreutz: milhares de cacos de um cometa só
A esmagadora maioria desses cometas não é formada por visitantes independentes. Eles são parentes.
O grupo se chama família Kreutz, em homenagem a Heinrich Kreutz, o astrônomo que fez os primeiros estudos sistemáticos de cometas rasantes nas décadas de 1880 e 1890. Já em 2012, um artigo científico com coautoria do Centro de Voo Espacial Goddard, da NASA, contava mais de 1.400 membros do grupo entre os cometas do SOHO — e o chamava de o maior grupo de cometas conhecido.
A origem é a parte bonita da história: acredita-se que todos sejam fragmentos de um único cometa que se partiu. O mesmo artigo estima que a quebra tenha sido relativamente recente em escala astronômica, cerca de 2.500 anos atrás.
Pense num prato de vidro que caiu no chão da cozinha. Você varre os cacos grandes e acha que acabou; semanas depois ainda está encontrando lasquinhas embaixo da geladeira. A família Kreutz é isso, em escala de Sistema Solar — e as lasquinhas continuam aparecendo, uma por semana, há trinta anos.
E a história é antiga: a NASA registra que cometas rasantes podem ter sido observados já em 372 a.C. Um grande cometa descrito por Aristóteles pode ter sido um Kreutz.
O que acontece quando um deles chega lá
Não é um mergulho com explosão final. É uma evaporação.
Quando o cometa se aproxima, ele brilha cada vez mais forte — o gelo vira gás, a cauda cresce — e depois simplesmente some, consumido pela radiação solar. A NASA é categórica num ponto que surpreende: nunca se viu um cometa realmente atingir a superfície do Sol. Eles acabam antes.
Um caso foi acompanhado em detalhe absurdo. Em 6 de julho de 2011, o cometa C/2011 N3 foi observado morrendo dentro da coroa solar pelo Observatório de Dinâmica Solar da NASA, em cinco faixas de luz ultravioleta ao mesmo tempo. O cometa chegou a cerca de 100 mil quilômetros da superfície do Sol antes de o sinal desaparecer.
Nos dez minutos finais de observação, ele perdeu entre 600 e 60 mil toneladas de material. No limite superior dessa faixa, isso dá 100 toneladas por segundo virando gás. A partir dessa perda de massa, os pesquisadores calcularam o tamanho do que estava sobrando: um núcleo de 10 a 50 metros de diâmetro.
Guarde esse número, porque ele muda a imagem mental que a maioria tem. Um cometa rasante típico não é um mundo de gelo: é uma pedra de gelo do tamanho de uma casa ou de um prédio de dez andares. Para comparação, o núcleo do cometa mais famoso de todos é de outra categoria — veja Cometa Halley: quando volta (2061) e por que é o mais famoso.
O que decide quem escapa
Tamanho. Só isso.
O mesmo artigo de 2012 afirma que apenas os maiores membros do grupo Kreutz, com diâmetros de até cerca de 100 metros, conseguiram sobreviver à passagem mais próxima do Sol. E registra que, até ali, o SOHO nunca tinha presenciado uma sobrevivência — até o cometa Lovejoy reaparecer do outro lado do Sol, em 15 e 16 de dezembro de 2011.
Faz sentido quando se pensa em gelo. Um cubo de gelo pequeno no copo derrete em minutos; uma pedra grande de gelo dura a tarde inteira, porque tem mais volume para cada pedaço de superfície exposta ao calor. Na coroa solar vale a mesma física, com a temperatura em outro patamar.
Dois cometas rasantes acompanhados pelo SOHO em 1998 passaram a 50 mil quilômetros da superfície do Sol. Para dar escala: é menos de um sétimo da distância entre a Terra e a Lua. Nessa altura, o cometa está dentro da atmosfera da estrela.

Quem acha esses cometas
Aqui está a parte que mais impressiona: a maior parte dessas descobertas não foi feita por astrônomos profissionais. As imagens do SOHO são públicas, e gente comum vasculha quadro a quadro procurando o risquinho de luz que se move na direção do Sol. A NASA registra que as descobertas levam a assinatura de mais de 70 pessoas, de 18 países diferentes.
O caso emblemático é o do cometa de número 5.000, encontrado em 25 de março de 2024 por um voluntário que fez a primeira descoberta aos 13 anos de idade. Quem quiser entrar nessa — e dá, de graça, do Brasil — encontra o caminho em Dá para ajudar a NASA de casa? 49 projetos abertos.




