Curiosidades

Por que astronautas fotografam a Terra à mão?

Com tantos satélites, por que a tripulação da Estação ainda aponta uma câmera pela janela? São 1,5 milhão de fotos, e elas fazem o que satélite nenhum faz.

Publicado em 6 min de leitura
Compartilhar:
Vista de dentro da cúpula da Estação Espacial, com sete janelas abertas para a Terra azul e a silhueta de um astronauta segurando uma câmera
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. Mais de 1,5 milhão de fotos desde 1961
  2. O que um satélite não consegue fazer
  3. Como a tripulação sabe o que fotografar
  4. A janela que mudou tudo
  5. Quando a foto vira socorro
  6. O Brasil passa debaixo da Estação o tempo todo
  7. O arquivo é público, e dá para ajudar

Porque o olho humano escolhe, e o satélite não. Um satélite de observação cumpre um trajeto fixo, aponta para baixo na hora marcada e registra o que estiver ali, com ou sem nuvem, interessante ou não. Um astronauta com uma câmera na mão vê a tempestade se formando, percebe que a luz está boa, muda a lente, inclina a câmera e dispara. É a diferença entre uma máquina fotográfica de rua e um fotógrafo. A NASA mantém esse trabalho desde o começo da era espacial, num programa chamado Crew Earth Observations — observações da Terra pela tripulação —, e o resultado é o maior acervo de fotografias do nosso planeta feitas por seres humanos.

Mais de 1,5 milhão de fotos desde 1961

O número impressiona: segundo o próprio programa, hospedado no Centro Espacial Johnson, os astronautas já tiraram mais de 1,5 milhão de fotografias da Terra. A série começou nas primeiras missões do projeto Mercury, em 1961, e não foi interrompida desde então, porque a Estação Espacial Internacional está habitada sem parar desde novembro de 2000.

Para dar escala: 1,5 milhão de fotos é mais do que um fotógrafo profissional dedicado produziria em várias vidas de trabalho. É como se alguém tivesse disparado uma foto a cada vinte minutos, dia e noite, sem parar, durante 65 anos.

Astronauta careca de camiseta azul segurando uma câmera junto ao rosto, fotografando através da janela redonda da cúpula, com nuvens brancas cobrindo a Terra do lado de fora
O astronauta Scott Kelly fotografa a Terra pela janela central da cúpula. O vidro é grosso e tem várias camadas, e a foto precisa ser feita bem perpendicular a ele para não distorcer. Foto: NASA/JSC

E essa continuidade é justamente o que dá valor científico ao acervo. Ter uma foto bonita de um glaciar é uma coisa; ter o mesmo glaciar fotografado em 1984, em 2001 e em 2024, do mesmo ângulo, é outra completamente diferente. Nenhum satélite atual estava no ar em 1961. A tripulação, sim.

O que um satélite não consegue fazer

Vale ser justo com os satélites: eles fazem coisas que nenhum astronauta faz. Cobrem o planeta inteiro, inclusive os oceanos onde não há ninguém olhando, e medem coisas que o olho não vê, como explicamos em Quantos satélites observam a Terra o tempo todo?.

Mas eles têm três limitações que a câmera na mão resolve.

A primeira é a rigidez. O satélite de observação costuma passar sempre no mesmo horário local, em órbitas planejadas para isso. Se o fenômeno aconteceu fora do horário dele, ficou sem registro.

A segunda é o ângulo. Satélite de observação olha para baixo, reto. O astronauta pode apontar de lado e fotografar a borda da atmosfera, a sombra alongada de uma montanha no fim da tarde ou um relâmpago visto por cima das nuvens — coisas que só existem em ângulo oblíquo.

A terceira é o julgamento. Alguém que está olhando percebe quando algo fora do script está acontecendo: uma erupção vulcânica que começou agora, uma mancha de fumaça que não estava ali ontem, um ciclone mudando de forma. É o mesmo raciocínio que leva a agência a usar aviões mesmo tendo satélites, assunto de Por que a NASA usa avião se já tem satélite?.

Como a tripulação sabe o que fotografar

Não é improviso. Na Terra, uma equipe de cientistas escolhe e atualiza periodicamente uma lista de alvos e manda mensagens para a tripulação avisando quando vêm as melhores oportunidades de fotografar cada um.

A lista de alvos do programa é longa e bem específica: deltas de rios, recifes de coral, cidades em expansão, fumaça industrial, regiões sujeitas a enchente e a seca ligadas ao El Niño, geleiras de montanha, locais de pesquisa ecológica, estruturas tectônicas e crateras de impacto parecidas com as de Marte, que servem de treino para quem estuda outros planetas.

E os astronautas são treinados para isso antes de subir: o programa diz que eles recebem formação em observação científica de fenômenos geológicos, oceanográficos, ambientais e meteorológicos, além do treinamento no próprio equipamento fotográfico.

Astronauta de camiseta vermelha flutuando dentro da cúpula da Estação Espacial, segurando uma câmera com teleobjetiva apontada para uma das janelas
A cúpula vira estúdio fotográfico. As câmeras ficam penduradas ali, prontas, porque a oportunidade de uma foto dura poucos segundos a 28 mil km/h. Foto: NASA/JSC

A janela que mudou tudo

Por décadas, fotografar da espaçonave era um exercício de contorcionismo: janelas pequenas, grossas e mal posicionadas. Isso mudou com a cúpula, o módulo de observação instalado na Estação, com sete janelas — uma grande, redonda, no centro, e seis em volta. É uma sacada de vidro voltada para a Terra.

A diferença não é só de conforto. Com a cúpula, o fotógrafo vê o alvo chegando, acompanha a aproximação e tem tempo de enquadrar. Sem ela, a pessoa descobre o alvo quando ele já está passando.

E ele passa depressa. A Estação dá uma volta completa na Terra a cada 90 minutos, a uma altitude entre 354 e 460 km, voando a quase 28 mil km/h. Nessa velocidade, uma cidade inteira cruza o campo de visão em segundos, o que torna o trabalho mais parecido com fotografar um carro de corrida do que uma paisagem. Como é o dia a dia a bordo está em Como é a rotina de um astronauta na ISS (comida, sono, exercício).

Quando a foto vira socorro

A parte do programa com consequência mais direta na vida das pessoas é o apoio a desastres. O programa declara que uma das suas ênfases principais é o monitoramento de resposta a desastres, em apoio à Carta Internacional de Desastres — o acordo pelo qual agências espaciais de vários países liberam imagens de graça quando uma catástrofe acontece em algum lugar do mundo.

Na prática funciona assim: aconteceu uma enchente, um terremoto, uma erupção ou um ciclone, a Carta é acionada e quem está em órbita fotografa a região. Como a Estação passa por cima de quase todo o planeta várias vezes ao dia, às vezes a foto da tripulação chega antes da passagem do satélite certo.

O Brasil passa debaixo da Estação o tempo todo

Aqui está o detalhe que interessa a quem lê daqui. A Estação voa numa órbita inclinada 51,6 graus em relação ao equador, o que significa que o caminho dela cobre todas as latitudes entre 51,6° norte e 51,6° sul.

O Brasil inteiro cabe nessa faixa com folga: o país vai de cerca de 5° norte, em Roraima, a 33° sul, no Chuí. Nenhum ponto do território brasileiro fica fora do alcance da câmera da tripulação. Por isso o acervo tem tanta coisa nossa: a foz do Amazonas, o Pantanal alagado e seco, as luzes do litoral do Sudeste à noite, a fumaça das queimadas — o mesmo fenômeno que acompanhamos por satélite em Como os satélites veem as queimadas na Amazônia. Se quiser ver a Estação passando sobre a sua cidade a olho nu, o jeito está em Como ver a Estação Espacial passar sobre a sua cidade.

O arquivo é público, e dá para ajudar

Todas essas fotos ficam num site aberto da NASA, o Gateway to Astronaut Photography of Earth, e podem ser baixadas por qualquer pessoa, de graça.

Há um problema curioso nesse acervo: muita foto antiga não tem registro exato de onde foi tirada. O astronauta disparou, a foto foi arquivada, e ninguém anotou a coordenada. Hoje parte desse trabalho de identificar o lugar é feita por voluntários pela internet, em ferramentas do próprio programa — é um dos muitos jeitos de participar de ciência sem sair de casa, que listamos em Dá para ajudar a NASA de casa? 49 projetos abertos.

E, se o assunto for simplesmente olhar coisas bonitas, várias das imagens mais famosas da história foram feitas exatamente assim, por uma pessoa com uma câmera na mão dentro de uma nave. Reunimos dez delas em 10 fotos reais do espaço que parecem mentira (acervo NASA).

Perguntas frequentes

Quantas fotos da Terra os astronautas já tiraram?

Mais de 1,5 milhão, segundo o programa Crew Earth Observations da NASA. A série começou nas missões Mercury, em 1961, e não parou desde então, porque a Estação Espacial Internacional está ocupada sem interrupção desde novembro de 2000.

Por que não deixar tudo com os satélites?

Porque satélite de observação segue um trajeto e um horário fixos, olha quase sempre para baixo e não decide nada. O astronauta escolhe o alvo, muda o ângulo, espera a luz melhorar e reage ao que está acontecendo na hora. As duas formas se completam: o satélite cobre tudo, a tripulação pega o que foge do script.

Que câmera os astronautas usam?

Câmeras fotográficas comuns de mercado, do tipo profissional, com lentes trocáveis — não são instrumentos científicos especiais. O programa registra que a tripulação usa câmeras de mão há mais de quarenta anos. O que muda é o treinamento de quem segura e a janela de onde se fotografa.

O que é a cúpula da Estação Espacial?

É o módulo de observação com sete janelas voltadas para a Terra: uma grande e redonda no centro e seis em volta. Além de servir para fotografia, ela é usada para operar o braço robótico e acompanhar a chegada de naves de carga. Virou também o lugar favorito da tripulação nas horas de folga.

Dá para ver as fotos dos astronautas?

Dá. O acervo fica num site público da NASA e qualquer pessoa pode pesquisar e baixar as imagens sem pagar nada. Parte das fotos antigas ainda não tem a localização identificada, e voluntários de qualquer lugar do mundo ajudam a descobrir onde cada uma foi tirada.

Gostou? Compartilhe: WhatsAppFacebookTelegramX