Agora, enquanto você lê isto, há satélites de observação da Terra passando de polo a polo e fotografando o planeta inteiro em faixas. A frota principal dessa tarefa chama-se JPSS, tem hoje três satélites em operação e consegue cobrir o mundo todo duas vezes por dia. Um deles, o mais velho, para de enviar dados novos em 2 de novembro de 2026.
Não são os únicos olhos no céu — existem dezenas de satélites de observação da Terra de várias agências. Mas é essa frota que entrega, todo santo dia, as imagens que viram previsão do tempo, alerta de queimada e mapa de fumaça.
O que é o JPSS, em uma frase
JPSS é a sigla de Joint Polar Satellite System, o sistema conjunto de satélites polares — "conjunto" porque é tocado por duas instituições americanas juntas: a NASA, que constrói e lança, e a NOAA, a agência de oceanos e atmosfera, que opera depois de pronto.
A palavra importante é polar. Esses satélites não ficam parados sobre um ponto do planeta. Eles dão voltas passando por cima do polo norte e do polo sul, enquanto a Terra gira embaixo deles. O efeito é o de descascar uma laranja: a cada volta o satélite enxerga uma faixa nova, e em algumas horas a casca inteira já passou por baixo.
Cada satélite da frota dá 14 voltas por dia — uma a cada hora e quarenta e três minutos, mais ou menos. Juntando as faixas, a NASA entrega uma visão completa do globo duas vezes por dia: uma de dia e uma de noite.

Quem são os três
A frota atual tem três satélites no ar, lançados com cinco a seis anos de intervalo entre um e outro:
| Satélite | Nome antes do lançamento | Lançamento |
|---|---|---|
| Suomi NPP | NPP | 28 de outubro de 2011 |
| NOAA-20 | JPSS-1 | 18 de novembro de 2017 |
| NOAA-21 | JPSS-2 | 10 de novembro de 2022 |
Repare na coluna do meio: esses satélites trocam de nome. Eles são construídos com nome de projeto (JPSS-1, JPSS-2) e só viram "NOAA-alguma coisa" depois que chegam à órbita e passam a funcionar. É burocracia, mas explica por que a mesma máquina aparece com dois nomes diferentes nas notícias.
O Suomi NPP é o mais velho e o mais importante da história: lançado em 2011, ele foi feito para ser uma ponte. De um lado, a geração anterior de satélites da NASA; do outro, o JPSS, que ainda nem existia. Ele serviu de protótipo e acabou trabalhando por quinze anos.
O que eles enxergam
Cada satélite da frota carrega pelo menos quatro instrumentos. O mais conhecido é o VIIRS, que é a câmera principal.
VIIRS significa, em português, "conjunto de radiômetros de imagem no visível e no infravermelho". Radiômetro é um aparelho que mede a quantidade de luz que chega até ele — não só a luz que o olho humano vê, mas também o calor, que é luz infravermelha.
O VIIRS enxerga em 22 canais diferentes, de comprimentos de onda de 0,41 a 12,01 micrômetros. Um micrômetro é um milésimo de milímetro: a espessura de um fio de cabelo tem uns 70 deles. Os canais mais curtos são a luz azul que a gente vê; os mais longos são calor puro, invisível.
Entre esses 22 canais há um que é uma joia: a banda dia/noite, sensível o bastante para enxergar à noite usando só a luz da Lua e das cidades. É ela que produz aquelas imagens do planeta iluminado por dentro, assunto de A Terra à noite: como o satélite vê até um apagão.
A altura e a largura da faixa
O Suomi NPP trabalha a cerca de 830 km de altitude — quase a distância em linha reta entre São Paulo e Brasília, só que para cima. É uma órbita bem mais alta que a da Estação Espacial, que voa por volta de 400 km.
A faixa que o VIIRS varre a cada passagem tem cerca de 3.000 km de largura. Para ter ideia: é quase a distância em linha reta entre Porto Alegre e Manaus. Uma única passagem cobre o Brasil quase inteiro de leste a oeste.
A órbita é sol-síncrona, um arranjo esperto: o satélite cruza o equador sempre no mesmo horário solar local, por volta de 1h30 da tarde. Isso significa que todas as fotos de um mesmo lugar são tiradas com o Sol na mesma posição, o que permite comparar a imagem de hoje com a de dez anos atrás sem confundir mudança real com mudança de iluminação.
O que muda em 2 de novembro de 2026
Em agosto de 2026, a NOAA anunciou o fim da entrega de dados novos do Suomi NPP. A data marcada é 2 de novembro de 2026, às 13h00 UTC — 10h00 no horário de Brasília. A própria NASA avisa que a data pode mudar, e que novas atualizações virão conforme novembro se aproxima.
Cinco instrumentos param de entregar dados junto com ele: o VIIRS (imagens), o CrIS e o ATMS (temperatura e umidade da atmosfera), o OMPS (ozônio) e o CERES (o balanço de energia do planeta).
O recado da NASA a quem usa esses dados é direto: migrar agora para o NOAA-21 e o NOAA-20, que são mais novos, carregam instrumentos equivalentes e foram feitos justamente para continuar o trabalho. Quem usa dado de ozônio, por exemplo, não fica a ver navios — o acompanhamento do buraco antártico, contado em O buraco na camada de ozônio ainda existe?, segue com os satélites mais novos.
Vale dizer o que não vai acontecer: o Suomi NPP não vai cair na sua cabeça em 2 de novembro. Parar de entregar dados novos é uma coisa; reentrar na atmosfera é outra, e acontece muito depois, pelo processo explicado em Quanto tempo um satélite fica no espaço antes de cair?.
Por que isso importa no Brasil
A parte mais concreta para quem mora aqui é o fogo. Os focos de calor que aparecem nos mapas de queimada durante a seca saem, em boa medida, do VIIRS desses satélites — o mesmo instrumento, nos três.
Quando o mais velho sai de cena, o trabalho continua nos outros dois, com resolução igual ou melhor. Quem quiser ver esses focos por conta própria, de graça, encontra o passo a passo em Como ver os focos de calor do Brasil de graça.
Quantos ainda vêm por aí
O plano prevê quatro missões JPSS ao todo, com operação esperada até pelo menos 2031, e cada uma leva um VIIRS a bordo. Ou seja: o sistema foi desenhado para não ter buraco — quando um satélite envelhece, já existe outro no ar fazendo a mesma medida há anos, o que permite comparar os dois e garantir que a série de dados continue batendo.
Essa sobreposição é o detalhe que separa um registro climático sério de uma coleção de fotos bonitas. Sem ela, qualquer troca de satélite viraria um degrau artificial no gráfico, e ninguém saberia dizer se o planeta mudou ou se foi só a câmera que mudou.




