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Quantos satélites observam a Terra o tempo todo?

Uma frota de satélites fotografa o planeta inteiro duas vezes por dia. Um deles se aposenta em 2 de novembro de 2026. Veja quem são e o que fazem.

Publicado em 6 min de leitura
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A Terra vista do espaço por um satélite de observação, com a África do Sul, Madagascar e um ciclone sobre o oceano Índico
Foto: NASA/Goddard (Ocean Biology Processing Group)
Neste artigo
  1. O que é o JPSS, em uma frase
  2. Quem são os três
  3. O que eles enxergam
  4. A altura e a largura da faixa
  5. O que muda em 2 de novembro de 2026
  6. Por que isso importa no Brasil
  7. Quantos ainda vêm por aí

Agora, enquanto você lê isto, há satélites de observação da Terra passando de polo a polo e fotografando o planeta inteiro em faixas. A frota principal dessa tarefa chama-se JPSS, tem hoje três satélites em operação e consegue cobrir o mundo todo duas vezes por dia. Um deles, o mais velho, para de enviar dados novos em 2 de novembro de 2026.

Não são os únicos olhos no céu — existem dezenas de satélites de observação da Terra de várias agências. Mas é essa frota que entrega, todo santo dia, as imagens que viram previsão do tempo, alerta de queimada e mapa de fumaça.

O que é o JPSS, em uma frase

JPSS é a sigla de Joint Polar Satellite System, o sistema conjunto de satélites polares — "conjunto" porque é tocado por duas instituições americanas juntas: a NASA, que constrói e lança, e a NOAA, a agência de oceanos e atmosfera, que opera depois de pronto.

A palavra importante é polar. Esses satélites não ficam parados sobre um ponto do planeta. Eles dão voltas passando por cima do polo norte e do polo sul, enquanto a Terra gira embaixo deles. O efeito é o de descascar uma laranja: a cada volta o satélite enxerga uma faixa nova, e em algumas horas a casca inteira já passou por baixo.

Cada satélite da frota dá 14 voltas por dia — uma a cada hora e quarenta e três minutos, mais ou menos. Juntando as faixas, a NASA entrega uma visão completa do globo duas vezes por dia: uma de dia e uma de noite.

Técnicos de macacão branco abaixam um satélite coberto de manta térmica dourada sobre o adaptador que o prende ao foguete
O JPSS-2 sendo encaixado no adaptador do foguete, em outubro de 2022, na base de Vandenberg. Depois de chegar à órbita, ele passou a se chamar NOAA-21. Foto: USSF 30th Space Wing/Carlos R. Velasco

Quem são os três

A frota atual tem três satélites no ar, lançados com cinco a seis anos de intervalo entre um e outro:

Satélite Nome antes do lançamento Lançamento
Suomi NPP NPP 28 de outubro de 2011
NOAA-20 JPSS-1 18 de novembro de 2017
NOAA-21 JPSS-2 10 de novembro de 2022

Repare na coluna do meio: esses satélites trocam de nome. Eles são construídos com nome de projeto (JPSS-1, JPSS-2) e só viram "NOAA-alguma coisa" depois que chegam à órbita e passam a funcionar. É burocracia, mas explica por que a mesma máquina aparece com dois nomes diferentes nas notícias.

O Suomi NPP é o mais velho e o mais importante da história: lançado em 2011, ele foi feito para ser uma ponte. De um lado, a geração anterior de satélites da NASA; do outro, o JPSS, que ainda nem existia. Ele serviu de protótipo e acabou trabalhando por quinze anos.

O que eles enxergam

Cada satélite da frota carrega pelo menos quatro instrumentos. O mais conhecido é o VIIRS, que é a câmera principal.

VIIRS significa, em português, "conjunto de radiômetros de imagem no visível e no infravermelho". Radiômetro é um aparelho que mede a quantidade de luz que chega até ele — não só a luz que o olho humano vê, mas também o calor, que é luz infravermelha.

O VIIRS enxerga em 22 canais diferentes, de comprimentos de onda de 0,41 a 12,01 micrômetros. Um micrômetro é um milésimo de milímetro: a espessura de um fio de cabelo tem uns 70 deles. Os canais mais curtos são a luz azul que a gente vê; os mais longos são calor puro, invisível.

Entre esses 22 canais há um que é uma joia: a banda dia/noite, sensível o bastante para enxergar à noite usando só a luz da Lua e das cidades. É ela que produz aquelas imagens do planeta iluminado por dentro, assunto de A Terra à noite: como o satélite vê até um apagão.

A altura e a largura da faixa

O Suomi NPP trabalha a cerca de 830 km de altitude — quase a distância em linha reta entre São Paulo e Brasília, só que para cima. É uma órbita bem mais alta que a da Estação Espacial, que voa por volta de 400 km.

A faixa que o VIIRS varre a cada passagem tem cerca de 3.000 km de largura. Para ter ideia: é quase a distância em linha reta entre Porto Alegre e Manaus. Uma única passagem cobre o Brasil quase inteiro de leste a oeste.

A órbita é sol-síncrona, um arranjo esperto: o satélite cruza o equador sempre no mesmo horário solar local, por volta de 1h30 da tarde. Isso significa que todas as fotos de um mesmo lugar são tiradas com o Sol na mesma posição, o que permite comparar a imagem de hoje com a de dez anos atrás sem confundir mudança real com mudança de iluminação.

O que muda em 2 de novembro de 2026

Em agosto de 2026, a NOAA anunciou o fim da entrega de dados novos do Suomi NPP. A data marcada é 2 de novembro de 2026, às 13h00 UTC — 10h00 no horário de Brasília. A própria NASA avisa que a data pode mudar, e que novas atualizações virão conforme novembro se aproxima.

Cinco instrumentos param de entregar dados junto com ele: o VIIRS (imagens), o CrIS e o ATMS (temperatura e umidade da atmosfera), o OMPS (ozônio) e o CERES (o balanço de energia do planeta).

O recado da NASA a quem usa esses dados é direto: migrar agora para o NOAA-21 e o NOAA-20, que são mais novos, carregam instrumentos equivalentes e foram feitos justamente para continuar o trabalho. Quem usa dado de ozônio, por exemplo, não fica a ver navios — o acompanhamento do buraco antártico, contado em O buraco na camada de ozônio ainda existe?, segue com os satélites mais novos.

Vale dizer o que não vai acontecer: o Suomi NPP não vai cair na sua cabeça em 2 de novembro. Parar de entregar dados novos é uma coisa; reentrar na atmosfera é outra, e acontece muito depois, pelo processo explicado em Quanto tempo um satélite fica no espaço antes de cair?.

Por que isso importa no Brasil

A parte mais concreta para quem mora aqui é o fogo. Os focos de calor que aparecem nos mapas de queimada durante a seca saem, em boa medida, do VIIRS desses satélites — o mesmo instrumento, nos três.

Quando o mais velho sai de cena, o trabalho continua nos outros dois, com resolução igual ou melhor. Quem quiser ver esses focos por conta própria, de graça, encontra o passo a passo em Como ver os focos de calor do Brasil de graça.

Quantos ainda vêm por aí

O plano prevê quatro missões JPSS ao todo, com operação esperada até pelo menos 2031, e cada uma leva um VIIRS a bordo. Ou seja: o sistema foi desenhado para não ter buraco — quando um satélite envelhece, já existe outro no ar fazendo a mesma medida há anos, o que permite comparar os dois e garantir que a série de dados continue batendo.

Essa sobreposição é o detalhe que separa um registro climático sério de uma coleção de fotos bonitas. Sem ela, qualquer troca de satélite viraria um degrau artificial no gráfico, e ninguém saberia dizer se o planeta mudou ou se foi só a câmera que mudou.

Perguntas frequentes

Quantos satélites observam a Terra agora?

Só na frota JPSS, que faz a cobertura global diária, são três em operação: Suomi NPP, NOAA-20 e NOAA-21. Somando todas as agências e todos os tipos de satélite de observação da Terra, o número passa de dezenas, mas não há um censo único e atualizado que valha para todos.

O satélite Suomi NPP vai ser desligado?

A entrega de dados científicos novos cessa em 2 de novembro de 2026, às 10h00 de Brasília, segundo o anúncio da NOAA. A NASA avisa que a data pode mudar. O arquivo com tudo o que ele já mediu desde 2011 continua disponível e não é apagado.

Qual é a diferença entre JPSS-2 e NOAA-21?

É o mesmo satélite. JPSS-2 era o nome do projeto antes do lançamento; NOAA-21 é o nome que ele ganhou depois de chegar à órbita, em novembro de 2022.

Esses satélites conseguem ver minha casa?

Não. O VIIRS foi feito para enxergar o planeta inteiro todo dia, não para dar zoom. Cada ponto da imagem cobre centenas de metros de lado, o que é ótimo para acompanhar fumaça, nuvem e temperatura do mar, e inútil para enxergar um telhado.

Por que a órbita passa pelos polos?

Porque é o jeito de ver o planeta inteiro com um satélite só. Enquanto o satélite vai de polo a polo, a Terra gira embaixo dele e apresenta uma faixa nova a cada volta. Um satélite parado sobre o equador veria sempre a mesma metade do mundo.

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