Tecnologia e negócios

Quanto tempo um satélite fica no espaço antes de cair?

De poucos anos a mais de mil. O que decide não é o tamanho nem o combustível do satélite: é a altura da órbita. Veja a tabela, altura por altura.

Publicado em 7 min de leitura
Compartilhar:
Um objeto se desfazendo em fragmentos incandescentes ao reentrar na atmosfera, visto contra o preto do espaço
Foto: Alex Gerst
Neste artigo
  1. Por que a altura decide tudo
  2. A tabela: quanto tempo em cada altura
  3. A Estação Espacial e o empurrão que nunca acaba
  4. A faixa que não se limpa sozinha
  5. E a órbita geoestacionária, a 36 mil km?
  6. O que acontece quando ele finalmente cai

Um satélite morto a 400 quilômetros de altura cai sozinho em poucos anos. O mesmo satélite, a 800 quilômetros, fica lá em cima por séculos. E acima de 1.000 quilômetros, segundo a própria NASA, ele "normalmente continua circulando a Terra por mil anos ou mais". A diferença entre uma coisa e outra não é o tamanho do satélite, nem o combustível que ele leva, nem a marca do foguete que o lançou. É só a altura.

Essa é a resposta curta. A longa é mais interessante, porque explica por que a Estação Espacial precisa de um empurrão algumas vezes por ano, por que a faixa entre 750 e 1.000 km é a mais entulhada de lixo do espaço e por que alguns satélites nunca vão cair — vão ser empurrados para mais longe de propósito.

Por que a altura decide tudo

A ideia de que o espaço é vazio é quase verdadeira, e é esse "quase" que manda em tudo.

A 400 km de altura ainda existe atmosfera. Pouquíssima: o ar ali é trilhões de vezes mais rarefeito que o do nível do mar. Se você pudesse ficar parado naquele ar, não sentiria absolutamente nada. Acontece que nada em órbita fica parado. Um satélite a 400 km atravessa esse quase-nada a 27.600 km/h, e nessa velocidade até um gás ultrarrarefeito empurra para trás.

É o mesmo princípio de tirar a mão pela janela do carro. A 20 km/h você mal sente o ar; a 120 km/h ele força o braço para trás com violência. O ar é o mesmo; a velocidade é que mudou.

Esse empurrão contínuo, chamado arrasto atmosférico, tira energia da órbita. Com menos energia, o satélite desce um pouco. Mais baixo, o ar é mais denso, o freio é mais forte, e ele desce mais depressa. Em algum ponto o processo dispara: a órbita afunda em semanas, depois em dias, e o satélite entra na atmosfera densa e queima.

Como a densidade do ar cai muito rápido com a altura, subir algumas centenas de quilômetros não dobra o tempo de vida: multiplica por centenas. Onde começa o espaço, e por que a atmosfera não acaba de repente, está em Onde começa o espaço? A linha de Kármán, a 100 km.

A tabela: quanto tempo em cada altura

As faixas de tempo abaixo são as publicadas pelo Escritório do Programa de Detritos Orbitais da NASA. A velocidade, o período e o número de voltas por dia são cálculo próprio, feitos com a constante gravitacional da Terra e o raio do planeta — números que qualquer pessoa pode refazer.

Altura Velocidade Uma volta Voltas por dia Quanto tempo até cair
400 km (Estação Espacial) 27.600 km/h 92 min 15,6 Poucos anos, sem empurrão
600 km 27.200 km/h 97 min 14,9 Alguns anos
800 km 26.800 km/h 101 min 14,3 Séculos
1.000 km 26.500 km/h 105 min 13,7 Mil anos ou mais
2.000 km 24.800 km/h 127 min 11,3 Praticamente para sempre
35.786 km (geoestacionária) 11.100 km/h 23h56 1,0 Não cai; é preciso tirar de lá

Para dar noção do que significa "séculos": um satélite parado a 800 km percorre, em cem anos, 23,5 bilhões de quilômetros — mais longe do que a Voyager 1 está da Terra hoje, depois de quase cinquenta anos de viagem. Só que ele faz essa distância inteira dando voltas no mesmo lugar.

Um satélite cilíndrico com a lateral escura flutuando sobre nuvens brancas e o azul do oceano
Um satélite de comunicações fotografado logo depois de ser solto de um ônibus espacial, em 1984. Da altura em que ele foi liberado, um satélite morto leva alguns anos para reentrar. Foto: NASA/JSC

A Estação Espacial e o empurrão que nunca acaba

A Estação Espacial Internacional é o exemplo vivo da tabela. Ela orbita perto dos 400 km, na faixa em que o arrasto é mais forte, e perde altura o tempo todo. Sem intervenção, cairia sozinha em poucos anos.

Por isso, algumas vezes por ano, naves acopladas ligam os motores e empurram a estação de volta para cima. É o equivalente a dar corda num relógio: enquanto houver quem dê corda, ele anda; no dia em que ninguém der, ele para. O plano para quando esse dia chegar está em A Estação Espacial vai cair? O fim da ISS em 2030.

A altura baixa não é um defeito de projeto. Ela é escolhida de propósito, por três razões: é mais barato levar carga até lá, a radiação é menor para quem mora a bordo, e, se algo der errado, a própria atmosfera limpa a sujeira em poucos anos. É também o que faz a estação ser tão fácil de ver do quintal — Como ver a Estação Espacial passar sobre a sua cidade explica o passo a passo.

O mesmo raciocínio vale para os satélites minúsculos que hoje voam de carona às dezenas: um cubesat solto da Estação dura tipicamente de meses a poucos anos, e é justamente por isso que essa órbita virou a favorita dos projetos de universidade, como conta O que é um cubesat, o satélite do tamanho de uma caixa.

Um cubesat sendo ejetado de um lançador da Estação Espacial contra o preto do espaço, com a Terra ao fundo
Um cubesat no instante em que é solto de um lançador da Estação Espacial. Nessa altura, satélites pequenos como esse reentram em poucos anos, mesmo sem qualquer sistema de propulsão. Foto: NASA/JSC

A faixa que não se limpa sozinha

Agora a parte incômoda. A NASA registra que a maior concentração de detritos orbitais está entre 750 e 1.000 km — exatamente a faixa onde a limpeza natural deixa de funcionar.

Não é coincidência. Essa altura é ótima para satélites de observação da Terra e de sensoriamento remoto: alta o bastante para enxergar muita coisa de uma vez, baixa o bastante para enxergar com detalhe. Foi para lá que décadas de missões mandaram equipamento — e é de lá que nada volta.

Os números do inventário variam conforme a agência e o método de contagem, e vale conhecer os dois lados: a NASA cataloga mais de 25 mil objetos maiores que 10 cm, cerca de 500 mil entre 1 e 10 cm e mais de 100 milhões maiores que 1 milímetro, somando mais de 9 mil toneladas de material em órbita. As estimativas europeias, usadas em Lixo espacial pode cair na sua cabeça? Os casos reais, chegam a valores maiores porque incluem populações modeladas além das rastreadas.

Tudo isso anda a 7 a 8 km por segundo. Quando dois objetos se cruzam, a velocidade média do impacto é de cerca de 10 km/s e pode chegar a 15 — mais de dez vezes a velocidade de uma bala de fuzil. Por isso a Estação Espacial desvia de detritos quando a chance de colisão passa de 1 em 10 mil, o que acontece em média uma vez por ano.

A resposta prática a esse problema tem nome: descarte programado. As diretrizes internacionais pedem que todo satélite em órbita baixa seja retirado de órbita ao fim da missão, e operadores e reguladores vêm apertando esse prazo. Satélites modernos de constelação, como os que formam o trem de luzes no céu: o que são os satélites Starlink, voam de propósito abaixo de 600 km justamente para que a física resolva o problema caso o controle falhe.

E a órbita geoestacionária, a 36 mil km?

A 35.786 km de altura acontece uma coincidência útil: o período orbital é de exatamente um dia, então o satélite parece parado no céu. É onde ficam boa parte dos satélites de televisão e de meteorologia.

Ali não existe arrasto nenhum que importe. Um satélite geoestacionário nunca vai cair — ficaria lá por milhões de anos. Como a faixa é estreita e disputada, a prática consolidada é gastar o último combustível para subir o satélite algumas centenas de quilômetros, para uma órbita-cemitério acima da geoestacionária, liberando a vaga. Não é limpeza: é arrumar o entulho num canto onde ele não atrapalhe.

O que acontece quando ele finalmente cai

A maior parte do satélite não chega ao chão. Ele entra na atmosfera a mais de 25 mil km/h, e o ar comprimido à frente dele esquenta a milhares de graus — o que desmancha painéis solares, antenas e estruturas leves em questão de segundos.

O que costuma sobreviver são peças densas e feitas de materiais que aguentam calor: tanques de titânio, motores, eixos e engrenagens. A NASA registra que, nos últimos cinquenta anos, em média um objeto catalogado reentrou na atmosfera por dia, e que nunca houve confirmação de ferimento grave ou dano significativo a propriedade causado por reentrada. A explicação é geográfica antes de ser tecnológica: dois terços da Terra são oceano, e a maior parte do resto é deserto, floresta ou tundra.

Quando a reentrada é de algo muito grande, como uma estação espacial, ela não é deixada ao acaso: a queda é comandada por motores para cair numa área remota do Pacífico Sul. Os casos reais em que pedaços chegaram ao chão, inclusive no Brasil, estão em Lixo espacial pode cair na sua cabeça? Os casos reais.

Perguntas frequentes

Quanto tempo um satélite fica em órbita?

Depende quase só da altura. Abaixo de 600 km, um satélite sem controle reentra em poucos anos. A 800 km, o tempo de decaimento é medido em séculos. Acima de 1.000 km, mil anos ou mais. Na órbita geoestacionária, a 35.786 km, ele praticamente não cai — precisa ser removido de lá de propósito.

Por que um satélite cai se no espaço não tem ar?

Porque tem, só que muito pouco. Mesmo a 400 km de altura restam vestígios de atmosfera, e o satélite os atravessa a 27,6 mil km/h. Nessa velocidade, até um gás ultrarrarefeito freia. O freio tira energia da órbita, o satélite desce, embaixo o ar é mais denso, e o processo se acelera até a reentrada.

Quantos satélites já caíram na Terra?

A NASA estima que, nos últimos cinquenta anos, em média um objeto catalogado reentrou na atmosfera por dia — o que dá algo em torno de 18 mil reentradas. A maioria queima completamente. Nunca houve confirmação de ferimento grave causado por esses destroços.

A Estação Espacial vai cair?

Ela cai um pouco todo dia e é empurrada de volta algumas vezes por ano por naves acopladas. O plano oficial prevê operação até 2030 e uma reentrada comandada, com um veículo construído só para isso, no início da década seguinte. Nada disso será acidental.

Onde tem mais lixo espacial?

Entre 750 e 1.000 km de altura, segundo a NASA. É a faixa preferida dos satélites de observação da Terra e, ao mesmo tempo, aquela em que o arrasto atmosférico já é fraco demais para limpar sozinho o que foi deixado lá.

Gostou? Compartilhe: WhatsAppFacebookTelegramX

Leia também

Mais em Tecnologia