Sim, a Estação Espacial Internacional vai cair — mas não do jeito que a pergunta sugere. Ela não vai despencar por acidente: vai ser trazida de volta de propósito, numa manobra planejada há anos, para cair num pedaço vazio do oceano Pacífico, a milhares de quilômetros de qualquer pessoa.
A previsão da NASA é operar a estação até 2030, e fazer a reentrada controlada no fim de 2030 ou no começo de 2031. Como todo cronograma espacial, essas datas podem mudar — e a própria NASA marcou 2027 como o ano de decidir se segue com o plano ou estende a vida da estação.
Para quem está no chão, no Brasil ou em qualquer outro lugar, o risco é praticamente nulo. E a razão para isso é justamente o fato de a queda ser planejada.
Por que ela não fica lá em cima para sempre
Muita gente imagina que, uma vez em órbita, a coisa fica lá parada. Não fica.
A Estação orbita a cerca de 400 quilômetros de altitude — a distância de São Paulo ao Rio de Janeiro, só que para cima. Nessa altura ainda existe um resto finíssimo de atmosfera. É pouquíssimo ar, mas a estação atravessa ele a 28 mil quilômetros por hora, e nessa velocidade até o quase-nada freia.
O resultado é que a ISS perde altura o tempo todo. Sem intervenção, ela cairia sozinha em poucos anos. Por isso, algumas vezes por ano, naves acopladas ligam os motores e empurram a estação de volta para cima. É o equivalente a ter de dar corda no relógio para sempre.
Fora isso, há o desgaste. A Estação é habitada sem interrupção desde novembro de 2000 — são mais de 25 anos de gente morando lá, como contamos em Como é a rotina de um astronauta na ISS (comida, sono, exercício). Os módulos mais antigos já passaram do dobro da vida útil para a qual foram projetados, e a estrutura sofre com variações brutais de temperatura a cada volta, que dura 90 minutos: são 16 nasceres e 16 pores do sol por dia, cada um com um choque térmico.

O plano, passo a passo
O roteiro divulgado pela NASA tem etapas bem definidas. Todas as datas são previsões:
| Quando (previsto) | O que acontece |
|---|---|
| Até 2030 | A estação segue funcionando e recebendo tripulações normalmente |
| Início a meados de 2028 | Começa a baixar de altitude, aproveitando o próprio arrasto da atmosfera e manobras do segmento russo |
| Meados de 2029 | É lançado o veículo feito só para desorbitá-la, que se acopla à estação |
| Fim de 2030 ou início de 2031 | O veículo faz a queima final e empurra a estação para dentro da atmosfera |
A lógica de baixar antes é econômica e prática: quanto mais baixa a estação estiver, menos combustível o empurrão final precisa gastar. A atmosfera faz parte do trabalho de graça.
Um veículo construído só para isso
Em junho de 2024, a NASA contratou a SpaceX para construir o que chamou de Veículo de Desorbitação dos Estados Unidos — um contrato de até 843 milhões de dólares para uma máquina que vai ser usada uma única vez e vai morrer junto com a carga que está empurrando.
Na prática, é uma cápsula Dragon — a mesma que leva astronautas — com um compartimento traseiro muito maior e cheio de propelente. Ela sobe, se acopla à estação e fica lá esperando. Quando chegar a hora, liga os motores e faz a queima que transforma a órbita num mergulho.
Por que não simplesmente empurrar a estação para uma órbita mais alta e deixá-la lá como museu? Porque seria muito mais caro: subir 430 toneladas exige muito mais combustível do que descê-las, e a estação ainda ficaria lá em cima como um obstáculo gigante para outras naves, por séculos.
E por que não deixar cair sozinha? Porque uma reentrada descontrolada de 430 toneladas é justamente o que ninguém quer. Aí a queda cairia onde desse.
Onde ela vai cair: o Ponto Nemo
O alvo é uma região do Pacífico Sul conhecida como Ponto Nemo — o ponto do oceano mais distante de qualquer terra firme do planeta. O pedaço de terra mais próximo está a cerca de 2.700 quilômetros dali, o que equivale mais ou menos à distância entre Porto Alegre e Belém.
Existe uma curiosidade boa nisso: com frequência, os seres humanos mais próximos do Ponto Nemo são os próprios astronautas da estação passando por cima, a 400 km de altitude, e não alguém em terra.
A região é apelidada de cemitério de espaçonaves. Há décadas ela é o destino escolhido para reentradas controladas, e mais de duas centenas de veículos já foram descartados ali: naves de carga, estágios de foguete e a estação russa Mir. É um lugar sem rota comercial importante, sem ilha habitada e com pouca vida marinha na superfície, justamente por ficar no meio de uma corrente que gira sobre si mesma.
Isso é perigoso para quem está no chão?
O risco é considerado muito baixo, e vale entender por quê — sem minimizar o que é real.
Numa reentrada, o atrito com o ar aquece a estrutura a milhares de graus e a maior parte dela se desmancha e vaporiza. Mas nem tudo queima. Peças maciças, tanques de titânio e trechos de estrutura mais densa podem chegar ao mar em pedaços. É exatamente por isso que a operação é controlada: a queima final é calculada para que o rastro de destroços — que pode se espalhar por mais de mil quilômetros — caia inteiro dentro de uma faixa de oceano vazio.
Durante os dias da manobra, autoridades de aviação e navegação emitem avisos fechando a área. Nada disso passa perto do Brasil, que fica do outro lado do continente em relação ao ponto de queda.
O que não é ficção é o caso do lixo espacial não planejado, que é um problema separado e real, com casos documentados inclusive no Brasil — reunimos os episódios em Lixo espacial pode cair na sua cabeça? Os casos reais.
Já aconteceu antes — de dois jeitos diferentes
A história espacial tem um exemplo de cada tipo, e a comparação explica tudo.
Skylab, 1979. A primeira estação espacial americana perdeu altitude mais rápido do que o previsto e não havia veículo capaz de controlá-la. A reentrada foi descontrolada: os destroços caíram no oceano Índico e espalharam pedaços pelo interior da Austrália Ocidental. Ninguém se feriu, mas foi sorte, não projeto. Um município australiano chegou a multar a NASA por jogar lixo.
Mir, 2001. A estação russa, com cerca de 120 toneladas, foi desorbitada de forma controlada em março daquele ano, com uma nave de carga acoplada fazendo as queimas. Caiu exatamente onde se pretendia, no Pacífico Sul. Foi o ensaio geral do que se planeja fazer agora, com uma estação quase quatro vezes mais pesada.
A ISS segue o modelo da Mir, não o do Skylab. A diferença entre os dois é o motivo de existir um contrato de 843 milhões de dólares para um único empurrão.
O que vem depois da ISS
O fim da Estação não é o fim da presença humana em órbita — e essa é a parte que costuma escapar das manchetes.
- Estações comerciais. Várias empresas americanas desenvolvem estações privadas para ocupar o espaço deixado pela ISS, com a NASA planejando ser cliente em vez de dona. Os cronogramas são otimistas e costumam atrasar, então vale acompanhar sem cravar datas. O mercado que se forma aí é o mesmo de Turismo espacial: as empresas que já vendem passagem.
- A estação chinesa. A Tiangong é bem menor que a ISS, opera de forma independente desde 2022 e não tem relação com esse cronograma. Se a ISS sair de cena antes das substitutas ficarem prontas, a China pode ficar, por um período, com a única estação permanentemente habitada — um cenário que aparece no contexto de EUA x China: a nova corrida pela Lua.
Enquanto isso não acontece, a Estação continua passando sobre o Brasil e continua visível a olho nu, como um ponto muito brilhante que atravessa o céu em silêncio. Ainda dá tempo de ver: o passo a passo está em Como ver a Estação Espacial passar sobre a sua cidade. Nos próximos anos, essa vai ser a última chance.




