Medos e assuntos virais

Quanto a Terra esquentou desde que você nasceu?

A NASA publica a temperatura do planeta ano a ano desde 1880. Procure o seu ano de nascimento na tabela e veja quanto o mundo mudou desde então.

Publicado em 6 min de leitura
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Vista aérea de uma geleira branca descendo entre montanhas escuras cobertas de neve na Groenlândia
Foto: NASA/GSFC
Neste artigo
  1. De onde vem esse número
  2. A tabela do seu ano de nascimento
  3. O que 1 grau significa, e o que não significa
  4. Os dez anos mais quentes são todos agora
  5. Por que a NASA mede o clima da Terra
  6. O mecanismo, em uma linha
  7. Como conferir você mesmo
  8. Uma ressalva honesta sobre os dados

A NASA mede a temperatura média da Terra e publica o resultado ano a ano desde 1880, numa tabela aberta que qualquer pessoa pode baixar. Isso permite uma conta pessoal que quase ninguém faz: quanto o planeta esquentou desde o ano em que você nasceu. A resposta curta, para a maioria dos brasileiros vivos hoje, está entre 0,3 °C e 1,1 °C, dependendo da sua idade. Parece pouco. Não é — e a parte mais impressionante da série não é o número em si, mas o fato de que os dez anos mais quentes dos 146 anos medidos são dez dos últimos onze.

De onde vem esse número

A série se chama Análise de Temperatura de Superfície do GISS, feita pelo Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA. Ela junta duas coisas: as medições de milhares de estações meteorológicas em terra firme e as medições de temperatura da superfície do mar feitas por navios, boias e satélites.

Um detalhe importante para entender a tabela: os valores não são temperaturas absolutas, do tipo "a Terra estava a 14,2 graus". São anomalias — ou seja, quanto aquele ano ficou acima ou abaixo de uma referência. A referência usada pela NASA é a média do período de 1951 a 1980.

Por que medir assim? Porque é mais confiável. Saber se Cuiabá ficou meio grau acima do normal dela é muito mais fácil do que saber a temperatura absoluta exata do planeta inteiro. A anomalia permite comparar maçãs com maçãs ao longo de 146 anos, mesmo com estações aparecendo e desaparecendo.

A tabela do seu ano de nascimento

Aqui está a conta. Para cada ano de nascimento, comparei a média dos onze anos em volta dele com a média da década mais recente fechada, de 2016 a 2025. Uso médias de vários anos de propósito: um ano isolado pode estar quente ou frio por causa do El Niño ou de um vulcão, e o que interessa aqui é a tendência, não o sorteio de um ano específico.

Se você nasceu em O planeta esquentou, desde então
1950 1,07 °C
1960 1,05 °C
1970 1,03 °C
1980 0,87 °C
1990 0,71 °C
2000 0,50 °C
2010 0,33 °C

Nasceu num ano intermediário? Fique com o valor mais próximo: a mudança entre um ano e o seguinte é pequena.

Repare numa coisa curiosa na tabela: entre 1950 e 1970 o número quase não muda. Isso não é erro de conta. A temperatura global ficou relativamente estável durante aquelas décadas e disparou depois — quem nasceu em 1970 viu praticamente a mesma quantidade de aquecimento que quem nasceu vinte anos antes, porque quase tudo aconteceu depois dos dois.

O que 1 grau significa, e o que não significa

Esta é a parte que mais gera mal-entendido, e vale parar nela.

Um grau de média global não quer dizer "um grau a mais no termômetro da sua varanda". É uma média de tudo: oceano e continente, verão e inverno, dia e noite, polo e Equador. Os oceanos cobrem a maior parte do planeta e demoram muito a mudar de temperatura, o que puxa a média para baixo. Em cima dos continentes, e principalmente perto dos polos, a mudança é bem maior que a média.

E há um segundo ponto, mais importante: o estrago não está na média, está nas pontas. Quando a curva inteira de temperaturas se desloca um pouco para a direita, os dias de calor extremo — que antes eram raros — passam a acontecer com muito mais frequência. É o mesmo efeito de empurrar um dado viciado: você não deixa de tirar números baixos, mas passa a tirar seis com uma frequência estranha.

Cientistas de pé sobre uma placa de gelo marinho cercada por poças de água turquesa, sob céu cinzento
Pesquisadores da NASA sobre o gelo marinho do Ártico, cercados por poças de degelo. O gelo é um dos lugares onde um aquecimento pequeno na média mundial aparece de forma grande e visível. Foto: (NASA/Kathryn Hansen)

Os dez anos mais quentes são todos agora

Se a tabela acima já impressiona, este talvez seja o dado mais contundente da série inteira.

A medição cobre 146 anos, de 1880 a 2025. Se o clima estivesse apenas oscilando, os anos mais quentes estariam espalhados por essa faixa toda. Não estão. Os dez anos mais quentes já medidos são dez dos últimos onze anos — de 2015 para cá, com uma única exceção no meio.

O ano mais quente de toda a série é 2024, com 1,28 °C acima da referência de 1951-1980. Em seguida vêm 2025 (1,18 °C) e 2023 (1,17 °C).

Comparando com a largada da série: a média da década de 1880 era 0,21 °C abaixo da referência, o que coloca o aquecimento total medido desde então em torno de 1,2 °C.

Por que a NASA mede o clima da Terra

Pode parecer estranho que a agência espacial seja a dona desse número. Faz sentido quando se lembra que boa parte da medição moderna vem de cima.

Satélites medem a temperatura da superfície do mar, a altura dos oceanos, a extensão do gelo, a umidade do solo e a composição da atmosfera, continuamente e no mundo inteiro — inclusive sobre regiões onde não há nenhuma estação no chão. Como essa medição do oceano é feita está em Como se mede a temperatura do oceano inteiro?, e o que o mar vem fazendo em resposta está em O nível do mar está subindo? O que o satélite mediu.

O mecanismo, em uma linha

Este artigo é sobre o que foi medido, não sobre a causa — mas ficaria incompleto sem a frase: o planeta retém calor porque certos gases da atmosfera deixam a luz do Sol entrar e dificultam a saída do calor. Quanto mais desses gases, mais calor fica retido.

Isso não é controverso nem recente: é física conhecida há mais de um século, e é a mesma coisa que torna o planeta habitável em primeiro lugar — sem nenhum efeito estufa, a Terra seria congelada. A explicação completa, com os gases um a um, está em O que é o efeito estufa? A explicação simples.

Como conferir você mesmo

Uma vantagem dessa série é que ela não exige confiar em ninguém. A tabela é um arquivo de texto público no site do GISS, com uma linha por ano desde 1880 e uma coluna com a média anual, em centésimos de grau.

Qualquer pessoa pode abrir, procurar o próprio ano de nascimento, procurar o ano passado e subtrair. É exatamente isso que foi feito aqui — com a única diferença de que usei médias de vários anos em vez de anos isolados, para não deixar um El Niño distorcer o resultado.

Essa transparência é, aliás, a melhor resposta para quem desconfia do número: ele não vem de um comunicado, vem de uma planilha que está aberta.

Uma ressalva honesta sobre os dados

Duas coisas que o leitor merece saber.

Primeiro: o ano de 2026 ainda não está fechado. A série disponível vai até setembro de 2026, então todas as contas aqui param no último ano completo, que é 2025. Quando o ano fechar, os números mudam um pouco.

Segundo: a série é revisada. Estações novas entram, erros antigos são corrigidos, métodos melhoram. Isso significa que o valor exato de um ano específico pode mudar na terceira casa decimal de uma versão para outra. O desenho geral — décadas estáveis até os anos 1970, subida consistente depois, e os anos mais quentes todos no fim — não muda.

Perguntas frequentes

Quanto a Terra esquentou no total?

Cerca de 1,2 °C entre a década de 1880 e a década de 2016-2025, segundo a série de temperatura da NASA. A maior parte desse aquecimento aconteceu a partir dos anos 1970.

Qual foi o ano mais quente já registrado?

2024, com 1,28 °C acima da média de 1951 a 1980. Em seguida vêm 2025 e 2023. Os dez anos mais quentes dos 146 anos medidos são dez dos últimos onze.

Um grau a mais é pouco, não é?

Não, porque é uma média do planeta inteiro, incluindo todo o oceano, que muda de temperatura muito devagar. Sobre os continentes a mudança é maior, e o efeito prático aparece principalmente no aumento da frequência de extremos de calor.

De onde a NASA tira essa temperatura?

De milhares de estações meteorológicas em terra somadas a medições de temperatura da superfície do mar feitas por navios, boias e satélites. A tabela resultante é publicada aberta, ano a ano, desde 1880.

Por que a referência é o período de 1951 a 1980?

É apenas um ponto de comparação fixo, escolhido por ser um período com boa cobertura de estações e anterior ao aquecimento mais rápido. Mudar a referência mudaria todos os números juntos, mas não mudaria a diferença entre um ano e outro.

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