A NASA mede a temperatura média da Terra e publica o resultado ano a ano desde 1880, numa tabela aberta que qualquer pessoa pode baixar. Isso permite uma conta pessoal que quase ninguém faz: quanto o planeta esquentou desde o ano em que você nasceu. A resposta curta, para a maioria dos brasileiros vivos hoje, está entre 0,3 °C e 1,1 °C, dependendo da sua idade. Parece pouco. Não é — e a parte mais impressionante da série não é o número em si, mas o fato de que os dez anos mais quentes dos 146 anos medidos são dez dos últimos onze.
De onde vem esse número
A série se chama Análise de Temperatura de Superfície do GISS, feita pelo Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA. Ela junta duas coisas: as medições de milhares de estações meteorológicas em terra firme e as medições de temperatura da superfície do mar feitas por navios, boias e satélites.
Um detalhe importante para entender a tabela: os valores não são temperaturas absolutas, do tipo "a Terra estava a 14,2 graus". São anomalias — ou seja, quanto aquele ano ficou acima ou abaixo de uma referência. A referência usada pela NASA é a média do período de 1951 a 1980.
Por que medir assim? Porque é mais confiável. Saber se Cuiabá ficou meio grau acima do normal dela é muito mais fácil do que saber a temperatura absoluta exata do planeta inteiro. A anomalia permite comparar maçãs com maçãs ao longo de 146 anos, mesmo com estações aparecendo e desaparecendo.
A tabela do seu ano de nascimento
Aqui está a conta. Para cada ano de nascimento, comparei a média dos onze anos em volta dele com a média da década mais recente fechada, de 2016 a 2025. Uso médias de vários anos de propósito: um ano isolado pode estar quente ou frio por causa do El Niño ou de um vulcão, e o que interessa aqui é a tendência, não o sorteio de um ano específico.
| Se você nasceu em | O planeta esquentou, desde então |
|---|---|
| 1950 | 1,07 °C |
| 1960 | 1,05 °C |
| 1970 | 1,03 °C |
| 1980 | 0,87 °C |
| 1990 | 0,71 °C |
| 2000 | 0,50 °C |
| 2010 | 0,33 °C |
Nasceu num ano intermediário? Fique com o valor mais próximo: a mudança entre um ano e o seguinte é pequena.
Repare numa coisa curiosa na tabela: entre 1950 e 1970 o número quase não muda. Isso não é erro de conta. A temperatura global ficou relativamente estável durante aquelas décadas e disparou depois — quem nasceu em 1970 viu praticamente a mesma quantidade de aquecimento que quem nasceu vinte anos antes, porque quase tudo aconteceu depois dos dois.
O que 1 grau significa, e o que não significa
Esta é a parte que mais gera mal-entendido, e vale parar nela.
Um grau de média global não quer dizer "um grau a mais no termômetro da sua varanda". É uma média de tudo: oceano e continente, verão e inverno, dia e noite, polo e Equador. Os oceanos cobrem a maior parte do planeta e demoram muito a mudar de temperatura, o que puxa a média para baixo. Em cima dos continentes, e principalmente perto dos polos, a mudança é bem maior que a média.
E há um segundo ponto, mais importante: o estrago não está na média, está nas pontas. Quando a curva inteira de temperaturas se desloca um pouco para a direita, os dias de calor extremo — que antes eram raros — passam a acontecer com muito mais frequência. É o mesmo efeito de empurrar um dado viciado: você não deixa de tirar números baixos, mas passa a tirar seis com uma frequência estranha.

Os dez anos mais quentes são todos agora
Se a tabela acima já impressiona, este talvez seja o dado mais contundente da série inteira.
A medição cobre 146 anos, de 1880 a 2025. Se o clima estivesse apenas oscilando, os anos mais quentes estariam espalhados por essa faixa toda. Não estão. Os dez anos mais quentes já medidos são dez dos últimos onze anos — de 2015 para cá, com uma única exceção no meio.
O ano mais quente de toda a série é 2024, com 1,28 °C acima da referência de 1951-1980. Em seguida vêm 2025 (1,18 °C) e 2023 (1,17 °C).
Comparando com a largada da série: a média da década de 1880 era 0,21 °C abaixo da referência, o que coloca o aquecimento total medido desde então em torno de 1,2 °C.
Por que a NASA mede o clima da Terra
Pode parecer estranho que a agência espacial seja a dona desse número. Faz sentido quando se lembra que boa parte da medição moderna vem de cima.
Satélites medem a temperatura da superfície do mar, a altura dos oceanos, a extensão do gelo, a umidade do solo e a composição da atmosfera, continuamente e no mundo inteiro — inclusive sobre regiões onde não há nenhuma estação no chão. Como essa medição do oceano é feita está em Como se mede a temperatura do oceano inteiro?, e o que o mar vem fazendo em resposta está em O nível do mar está subindo? O que o satélite mediu.
O mecanismo, em uma linha
Este artigo é sobre o que foi medido, não sobre a causa — mas ficaria incompleto sem a frase: o planeta retém calor porque certos gases da atmosfera deixam a luz do Sol entrar e dificultam a saída do calor. Quanto mais desses gases, mais calor fica retido.
Isso não é controverso nem recente: é física conhecida há mais de um século, e é a mesma coisa que torna o planeta habitável em primeiro lugar — sem nenhum efeito estufa, a Terra seria congelada. A explicação completa, com os gases um a um, está em O que é o efeito estufa? A explicação simples.
Como conferir você mesmo
Uma vantagem dessa série é que ela não exige confiar em ninguém. A tabela é um arquivo de texto público no site do GISS, com uma linha por ano desde 1880 e uma coluna com a média anual, em centésimos de grau.
Qualquer pessoa pode abrir, procurar o próprio ano de nascimento, procurar o ano passado e subtrair. É exatamente isso que foi feito aqui — com a única diferença de que usei médias de vários anos em vez de anos isolados, para não deixar um El Niño distorcer o resultado.
Essa transparência é, aliás, a melhor resposta para quem desconfia do número: ele não vem de um comunicado, vem de uma planilha que está aberta.
Uma ressalva honesta sobre os dados
Duas coisas que o leitor merece saber.
Primeiro: o ano de 2026 ainda não está fechado. A série disponível vai até setembro de 2026, então todas as contas aqui param no último ano completo, que é 2025. Quando o ano fechar, os números mudam um pouco.
Segundo: a série é revisada. Estações novas entram, erros antigos são corrigidos, métodos melhoram. Isso significa que o valor exato de um ano específico pode mudar na terceira casa decimal de uma versão para outra. O desenho geral — décadas estáveis até os anos 1970, subida consistente depois, e os anos mais quentes todos no fim — não muda.




