Está subindo, e não é estimativa: é medida. A NASA publica o número junto com a margem de erro e a data. Na medição de outubro de 2026, o nível médio global do mar estava 115,8 milímetros acima do valor de 1993, com uma incerteza declarada de 4,0 milímetros para mais ou para menos. São 11,6 centímetros em pouco mais de três décadas.
Onze centímetros e meio parecem pouco — é quase a altura de uma lata de refrigerante. Mas o número é uma média do oceano inteiro, e é aí que está o espanto: para a superfície de todos os mares do planeta subir um centímetro, é preciso acrescentar uma quantidade de água difícil de imaginar. E a medida vem com o ano de início, a margem de erro e o método declarados, coisa rara em debate sobre clima.
Como se mede a altura do mar inteiro
A ideia parece impossível: o mar nunca está parado. Tem onda, tem maré, tem vento. Como se mede a "altura" de uma coisa que balança o tempo todo?
A resposta é um instrumento chamado altímetro de radar. O satélite dispara um pulso de rádio para baixo, cronometra o tempo até o eco voltar e calcula a distância até a superfície. Como se sabe com precisão onde o satélite está, dá para converter essa distância em altura da água.
Cada medida isolada é um caos de ondas. Mas são milhões de medidas por dia, repetidas ano após ano, e a média dessa confusão é estável o suficiente para enxergar milímetros. É o mesmo princípio de pesar uma pessoa numa balança velha: uma leitura oscila, dez leituras dão um número confiável.
Um aviso de leitura, porque a própria página da NASA mostra dois números: no texto corrido ela ainda diz que o mar subiu cerca de 91 milímetros desde 1993, valor de uma atualização anterior, enquanto o quadro da medição mais recente, de outubro de 2026, marca 115,8 milímetros. Quando uma fonte se contradiz assim, o caminho é ficar com o dado datado — e dizer que a divergência existe.
Essa régua não é de um satélite só, e é isso que garante a série longa: ela vem de uma sequência de missões que se substituem sem interromper a medição, hoje formada pela série Sentinel-6, pela Jason-3 e pela SWOT, esta última dedicada a mapear a superfície das águas com detalhe fino. A maré de todo dia, que sobe e desce por outro motivo completamente diferente, está explicada em O que é maré? Por que o mar sobe e desce.

De onde vem essa água: dois terços e um terço
A água que faz o mar subir tem duas origens, e a NASA separa as contribuições com clareza:
| Origem | Participação | O que é |
|---|---|---|
| Degelo em terra | cerca de dois terços | água que estava guardada em geleiras e calotas e foi parar no oceano |
| Aquecimento da água | cerca de um terço | o oceano esquenta e, ao esquentar, ocupa mais volume |
A segunda linha costuma surpreender, porque não envolve água nova nenhuma. Água quente ocupa mais espaço que a mesma água fria. É o mesmo motivo pelo qual não se enche uma panela até a borda antes de ferver, e pelo qual o termômetro de mercúrio funciona: o líquido se dilata, e o nível sobe sem que ninguém tenha acrescentado nada.
Esse efeito é pequeno numa panela e gigantesco num oceano, porque o oceano é fundo. Alguns milímetros de dilatação em cada metro de profundidade, somados ao longo de quilômetros de coluna d'água, dão centímetros na superfície.
Quanto à primeira linha, há uma distinção que muita gente erra: gelo que já estava boiando não conta. Só o gelo que estava apoiado em terra firme faz diferença, e o porquê está destrinchado em O gelo do Ártico e o da Antártida são a mesma coisa?.
Por que o oceano guarda tanto calor
Para entender o terço da dilatação, vale um número que explica quase tudo em clima: cerca de 90% do calor extra acumulado pelo aquecimento do planeta no último século foi parar no oceano, e não no ar.
A água tem uma teimosia térmica enorme — é por isso que a areia da praia queima o pé ao meio-dia e o mar, ao lado, continua agradável. O mesmo sol, os mesmos raios, materiais diferentes.
A conta do calor acumulado é feita e publicada: na última medida divulgada, de dezembro de 2024, o oceano havia ganhado 372 zettajoules de calor desde 1955, com margem de 2 para mais ou para menos. Zettajoule é uma unidade que ninguém usa na vida real, e por isso o que importa não é o valor absoluto, e sim que ele é medido e que não para de crescer. Esse calor é medido por uma frota de boias que afundam e sobem no oceano, combinada com dados de satélite.
O mar não sobe igual em todo lugar
Esse é o ponto que mais confunde, e o mais importante para quem mora no litoral.
A média global sobe. Mas a NASA é explícita: o nível local pode ser bem diferente da média. Três motivos:
- O continente se mexe. Há litorais que estão afundando e outros subindo, por razões geológicas ou por bombeamento de água subterrânea. Onde a terra afunda, o mar parece subir mais rápido.
- As correntes mudam de lugar. O oceano não é uma piscina nivelada; as correntes empilham água em certas regiões e a tiram de outras.
- A proximidade do degelo pesa. Em alguns lugares próximos a geleiras que derretem, o nível pode até cair, por efeito da gravidade local e do ajuste da crosta terrestre.
Na prática, isso significa que não existe um número único válido para o litoral brasileiro, e desconfie de quem der um. O que existe é a média global, medida com margem de erro, e a necessidade de medidas locais para cada trecho de costa.

Por que isso importa para quem mora no litoral
Onze centímetros e meio de média global não alagam cidade nenhuma sozinhos. O problema é outro: eles mudam o ponto de partida de todo evento extremo.
Pense na ressaca que já entra na avenida à beira-mar algumas vezes por ano. Ela depende da maré alta, do vento e das ondas — e agora começa de um nível de base mais alto. O mesmo vento, a mesma maré e a mesma onda chegam alguns centímetros mais longe que chegariam antes. O que era evento raro vira ocasional; o que era ocasional vira rotina.
É por isso que o número que parece pequeno preocupa quem planeja cidade, porto e estrada no litoral. Não é o oceano engolindo o calçadão de uma vez: é a conta da inundação excepcional mudando de patamar, devagar e sem volta num horizonte humano.
O que este texto não vai dizer
Honestidade sobre o que falta. Não há aqui uma previsão de quanto o mar vai subir até 2100, e isso é proposital.
Projeções de nível do mar existem, são levadas a sério e sempre vêm em pares: um cenário de emissões e uma faixa de incerteza. Publicar um único número solto, sem dizer de qual cenário ele saiu e qual é a margem, é o jeito mais rápido de transformar ciência em manchete errada — para mais ou para menos.
O que este texto traz é o que já foi medido, com data, método e margem de erro: 115,8 ± 4,0 milímetros em outubro de 2026, em relação a 1993. Medições de marégrafos nas costas, mais antigas e menos completas, mostram o mar subindo na maior parte dos litorais do planeta há pelo menos cem anos.
E o vai e vem dentro do próprio gráfico?
Um detalhe curioso de quem olha os dados: a curva do nível do mar não sobe em linha reta. Ela sobe serrilhada, com uma subida e uma descida a cada ano.
Esse serrote não é erro de medição: é o ciclo da água do planeta aparecendo no gráfico. O vento tira umidade do oceano, essa umidade cai como chuva e neve sobre os continentes e demora um tempo até voltar pelos rios. Enquanto está em terra, ela falta no mar, e o nível global cai um pouco. Quando volta, sobe de novo.
Como a maior parte das terras do planeta está no hemisfério norte, o ritmo desse serrote acompanha o inverno e o verão de lá, não os nossos. É o tipo de detalhe que mostra o quanto o planeta funciona como um sistema só — e o quanto é preciso ter uma série longa para enxergar a tendência por baixo do ruído, como se vê também em Quanta água tem a Terra, e quanto dela dá para beber e em Como dois satélites pesam a água escondida da Terra.




