Perguntas que todo mundo faz

O gelo do Ártico e o da Antártida são a mesma coisa?

Não são. Um é mar congelado boiando, o outro é neve empilhada em cima de terra. A diferença decide se o degelo sobe o nível do mar.

Publicado em 7 min de leitura
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Vista aérea de gelo marinho do Ártico, uma superfície branca rachada com poças de água azul-turquesa espalhadas por toda a extensão
Foto: NASA/GSFC
Neste artigo
  1. Os três tipos de gelo, e por que confundi-los dá errado
  2. Como ficou a conta em 2026
  3. O detalhe que mostra como esse gelo é instável
  4. A calota da Antártida, em números
  5. Por que os dois polos não se comportam igual

Não são a mesma coisa, e a diferença não é detalhe de geógrafo: ela muda o que acontece com o nível do mar quando esse gelo derrete. No Ártico, o gelo principal é mar congelado boiando sobre a água. Na Antártida, o gelo principal é neve empilhada e comprimida em cima de um continente de pedra.

A raiz da diferença é a geografia dos dois polos, e ela é quase um espelho. O Ártico é um oceano cercado de continentes — se você pudesse furar o Polo Norte, cairia na água. A Antártida é um continente cercado de oceano — no Polo Sul há chão, debaixo de quilômetros de gelo.

Os três tipos de gelo, e por que confundi-los dá errado

Antes dos polos, vale separar três palavras que o noticiário costuma misturar.

Gelo marinho é água do mar que congelou. Ele se forma na superfície do oceano, boia, tem poucos metros de espessura e vai e volta com as estações: cresce no inverno, derrete no verão. Curiosamente, ele não é salgado como a água que o formou, e o motivo está em Por que o gelo do mar não é salgado?.

Manto de gelo, ou calota, é outra história. Ele não vem do mar: vem da neve. Neve cai, não derrete, outra neve cai por cima, e o peso vai comprimindo a de baixo até virar gelo maciço. Repetindo isso por dezenas de milhares de anos, você chega a uma camada de quilômetros de espessura, apoiada em rocha. É água doce, e é velha.

Iceberg é um pedaço que se soltou de uma calota ou de uma geleira e caiu no mar. Então o iceberg é gelo de terra boiando: feito de água doce, mesmo cercado de água salgada. Aquele bloco branco enorme que afundou o Titanic não era mar congelado — era um naco da Groenlândia viajando.

A confusão tem consequência prática. Gelo marinho derretendo não sobe o nível do mar, porque ele já estava boiando e já deslocava o próprio peso de água — é o copo de refrigerante com gelo, que não transborda quando o gelo derrete. Calota derretendo sobe, porque é água que estava guardada em cima de terra e vai parar no oceano, água que antes não estava lá.

Como ficou a conta em 2026

Os números abaixo são da NASA e do centro americano de dados de neve e gelo, medidos por satélite. O registro contínuo por satélite começou em 1979, o que dá cerca de 47 anos de comparação.

Medida Valor Data Posição no histórico
Máximo do gelo marinho do Ártico 14,29 milhões de km² 15 de março de 2026 empatado com o menor já registrado
Mínimo do gelo marinho do Ártico 4,6 milhões de km² 12 de setembro de 2026 empatado em 10º menor
Máximo do gelo marinho antártico 17,59 milhões de km² 14 de setembro de 2026 3º menor já registrado

O máximo do Ártico de 2026 ficou cerca de 1,3 milhão de km² abaixo da média do período de 1981 a 2010. Esse "abaixo da média" é difícil de sentir em quilômetros quadrados, então: é mais ou menos uma Mato Grosso e meia de gelo que deixou de existir em relação ao que era normal — e o Mato Grosso é o terceiro maior estado do Brasil.

Vale a honestidade sobre o número antártico: a NASA o publicou em 12 de outubro de 2026 dizendo que o pico provavelmente ocorreu em 14 de setembro. O gelo antártico oscila muito de um dia para o outro, e às vezes o que parecia ser o pico é ultrapassado depois. É estimativa, e a agência diz que é.

O detalhe que mostra como esse gelo é instável

Um episódio deste ano explica bem por que o gelo marinho é traiçoeiro de medir.

Em agosto de 2026, a extensão do gelo antártico encolheu cerca de 300 mil km² em seis dias — uma área maior que o estado de São Paulo sumindo em menos de uma semana — e depois voltou a crescer.

Não foi derretimento. Segundo Walt Meier, cientista que acompanha esses dados, foi o vento: ele empurrou e compactou o gelo fino e solto da borda, juntando o que estava espalhado. A mesma quantidade de gelo passou a ocupar menos área.

É uma distinção que importa: extensão (quanto do mar está coberto) não é a mesma coisa que volume (quanto gelo existe). O vento muda a primeira sem mexer na segunda.

Vista aérea de montanhas da Antártida cobertas de gelo e neve, com picos rochosos escuros aparecendo entre as camadas brancas
O outro tipo de gelo: aqui ele está em cima de terra. Montanhas da Antártida fotografadas de avião durante uma campanha da NASA. As pedras escuras saindo da neve mostram que há um continente debaixo de tudo isso. Foto: NASA/GSFC

A calota da Antártida, em números

O gelo que fica em cima do continente antártico é de outra ordem de grandeza.

Ele cobre cerca de 12,4 milhões de km² — uma vez e meia o Brasil inteiro — com espessura média de aproximadamente 2 quilômetros, e boa parte passando de 3 quilômetros. Pense em empilhar o Pão de Açúcar cinco vezes e cobrir com isso um continente inteiro.

Juntas, a calota da Antártida e a da Groenlândia guardam cerca de dois terços de toda a água doce da Terra. O quanto isso representa do total de água do planeta está em Quanta água tem a Terra, e quanto dela dá para beber.

E essas calotas estão perdendo massa. Medindo pela gravidade com os satélites GRACE, de 2002 a 2025, a NASA calcula perdas anuais médias de:

  • Groenlândia: cerca de 264 bilhões de toneladas por ano, o que empurra o nível do mar para cima em cerca de 0,8 milímetro por ano.
  • Antártida: cerca de 135 bilhões de toneladas por ano, equivalentes a cerca de 0,4 milímetro por ano de nível do mar.

Uma ressalva honesta sobre esses dois números: a própria página da NASA se contradiz um pouco, trazendo 266 num trecho, 264 em outro e 260 no gráfico, e 135 contra 130 para a Antártida. A diferença não muda a conclusão, mas quem procurar a fonte vai achar valores ligeiramente diferentes, e é melhor saber disso de antemão. Como esses satélites conseguem pesar gelo de longe está explicado em Como dois satélites pesam a água escondida da Terra.

Menos de um milímetro por ano parece desprezível. Não é: é um acréscimo que não para, e que se soma a outro efeito maior, o da água do mar que se expande ao esquentar. Para uma cidade litorânea brasileira, o problema não é o nível médio — é a maré alta de um dia de ressaca partindo de um patamar mais alto que o de trinta anos atrás.

Por que os dois polos não se comportam igual

O Ártico tem uma tendência clara: os 20 menores mínimos de toda a série aconteceram entre 2007 e 2026. Vinte entre vinte, nos últimos vinte anos. Não é oscilação, é direção.

O gelo antártico é mais bagunçado. Ele varia muito de ano para ano, e os cientistas da NASA são declaradamente cautelosos em chamar as perdas recentes de tendência de longo prazo. O ano de 2023 registrou lá, ao mesmo tempo, o menor mínimo e o menor máximo da série; desde 2016 os valores vêm ficando abaixo do normal, mas com solavancos.

A assimetria tem a ver com aquela geografia de espelho. O gelo do Ártico fica num oceano fechado por continentes, aquecendo junto com eles; o da Antártida fica num mar aberto que dá a volta no mundo, à mercê de ventos e correntes que mudam de humor.

Há ainda um efeito que empurra o Ártico ladeira abaixo sozinho: gelo é branco e reflete a luz do Sol de volta; mar aberto é escuro e absorve. Quanto mais gelo derrete, mais mar escuro aparece, mais calor é absorvido e mais gelo derrete. Esse círculo vicioso é assunto de O que é albedo? Por que cor decide temperatura.

Perguntas frequentes

Se todo o gelo do Ártico derretesse, o mar subiria?

Quase nada, porque o grosso do gelo ártico é gelo marinho, que já está boiando. O que subiria o mar de verdade seria o degelo da Groenlândia, que fica no Ártico mas é uma calota apoiada em terra — e essa, sim, é hoje a maior contribuinte individual entre as duas grandes calotas.

Existe terra debaixo do gelo do Polo Norte?

Não. O Polo Norte fica no meio do Oceano Ártico, e o gelo ali é uma camada flutuante de poucos metros. Já o Polo Sul fica sobre o continente antártico, com quilômetros de gelo entre a superfície e a rocha.

Qual polo é mais frio?

A Antártida, com folga. Ela é um continente alto — o gelo em cima da rocha eleva muito a altitude média — e cercado por um oceano que isola o continente das correntes quentes. O Ártico, por ser um oceano, tem a água embaixo do gelo funcionando como um amortecedor de temperatura.

Por que outros planetas também têm calotas?

Porque o mesmo mecanismo básico funciona em qualquer lugar: nos polos chega menos luz do Sol, faz mais frio e o que for volátil se acumula ali. Em Marte, as calotas têm uma diferença curiosa em relação às nossas — boa parte do que se acumula lá não é água, e sim gás congelado, como se explica em As calotas de Marte são de gelo ou de gelo seco?.

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