Não são a mesma coisa, e a diferença não é detalhe de geógrafo: ela muda o que acontece com o nível do mar quando esse gelo derrete. No Ártico, o gelo principal é mar congelado boiando sobre a água. Na Antártida, o gelo principal é neve empilhada e comprimida em cima de um continente de pedra.
A raiz da diferença é a geografia dos dois polos, e ela é quase um espelho. O Ártico é um oceano cercado de continentes — se você pudesse furar o Polo Norte, cairia na água. A Antártida é um continente cercado de oceano — no Polo Sul há chão, debaixo de quilômetros de gelo.
Os três tipos de gelo, e por que confundi-los dá errado
Antes dos polos, vale separar três palavras que o noticiário costuma misturar.
Gelo marinho é água do mar que congelou. Ele se forma na superfície do oceano, boia, tem poucos metros de espessura e vai e volta com as estações: cresce no inverno, derrete no verão. Curiosamente, ele não é salgado como a água que o formou, e o motivo está em Por que o gelo do mar não é salgado?.
Manto de gelo, ou calota, é outra história. Ele não vem do mar: vem da neve. Neve cai, não derrete, outra neve cai por cima, e o peso vai comprimindo a de baixo até virar gelo maciço. Repetindo isso por dezenas de milhares de anos, você chega a uma camada de quilômetros de espessura, apoiada em rocha. É água doce, e é velha.
Iceberg é um pedaço que se soltou de uma calota ou de uma geleira e caiu no mar. Então o iceberg é gelo de terra boiando: feito de água doce, mesmo cercado de água salgada. Aquele bloco branco enorme que afundou o Titanic não era mar congelado — era um naco da Groenlândia viajando.
A confusão tem consequência prática. Gelo marinho derretendo não sobe o nível do mar, porque ele já estava boiando e já deslocava o próprio peso de água — é o copo de refrigerante com gelo, que não transborda quando o gelo derrete. Calota derretendo sobe, porque é água que estava guardada em cima de terra e vai parar no oceano, água que antes não estava lá.
Como ficou a conta em 2026
Os números abaixo são da NASA e do centro americano de dados de neve e gelo, medidos por satélite. O registro contínuo por satélite começou em 1979, o que dá cerca de 47 anos de comparação.
| Medida | Valor | Data | Posição no histórico |
|---|---|---|---|
| Máximo do gelo marinho do Ártico | 14,29 milhões de km² | 15 de março de 2026 | empatado com o menor já registrado |
| Mínimo do gelo marinho do Ártico | 4,6 milhões de km² | 12 de setembro de 2026 | empatado em 10º menor |
| Máximo do gelo marinho antártico | 17,59 milhões de km² | 14 de setembro de 2026 | 3º menor já registrado |
O máximo do Ártico de 2026 ficou cerca de 1,3 milhão de km² abaixo da média do período de 1981 a 2010. Esse "abaixo da média" é difícil de sentir em quilômetros quadrados, então: é mais ou menos uma Mato Grosso e meia de gelo que deixou de existir em relação ao que era normal — e o Mato Grosso é o terceiro maior estado do Brasil.
Vale a honestidade sobre o número antártico: a NASA o publicou em 12 de outubro de 2026 dizendo que o pico provavelmente ocorreu em 14 de setembro. O gelo antártico oscila muito de um dia para o outro, e às vezes o que parecia ser o pico é ultrapassado depois. É estimativa, e a agência diz que é.
O detalhe que mostra como esse gelo é instável
Um episódio deste ano explica bem por que o gelo marinho é traiçoeiro de medir.
Em agosto de 2026, a extensão do gelo antártico encolheu cerca de 300 mil km² em seis dias — uma área maior que o estado de São Paulo sumindo em menos de uma semana — e depois voltou a crescer.
Não foi derretimento. Segundo Walt Meier, cientista que acompanha esses dados, foi o vento: ele empurrou e compactou o gelo fino e solto da borda, juntando o que estava espalhado. A mesma quantidade de gelo passou a ocupar menos área.
É uma distinção que importa: extensão (quanto do mar está coberto) não é a mesma coisa que volume (quanto gelo existe). O vento muda a primeira sem mexer na segunda.

A calota da Antártida, em números
O gelo que fica em cima do continente antártico é de outra ordem de grandeza.
Ele cobre cerca de 12,4 milhões de km² — uma vez e meia o Brasil inteiro — com espessura média de aproximadamente 2 quilômetros, e boa parte passando de 3 quilômetros. Pense em empilhar o Pão de Açúcar cinco vezes e cobrir com isso um continente inteiro.
Juntas, a calota da Antártida e a da Groenlândia guardam cerca de dois terços de toda a água doce da Terra. O quanto isso representa do total de água do planeta está em Quanta água tem a Terra, e quanto dela dá para beber.
E essas calotas estão perdendo massa. Medindo pela gravidade com os satélites GRACE, de 2002 a 2025, a NASA calcula perdas anuais médias de:
- Groenlândia: cerca de 264 bilhões de toneladas por ano, o que empurra o nível do mar para cima em cerca de 0,8 milímetro por ano.
- Antártida: cerca de 135 bilhões de toneladas por ano, equivalentes a cerca de 0,4 milímetro por ano de nível do mar.
Uma ressalva honesta sobre esses dois números: a própria página da NASA se contradiz um pouco, trazendo 266 num trecho, 264 em outro e 260 no gráfico, e 135 contra 130 para a Antártida. A diferença não muda a conclusão, mas quem procurar a fonte vai achar valores ligeiramente diferentes, e é melhor saber disso de antemão. Como esses satélites conseguem pesar gelo de longe está explicado em Como dois satélites pesam a água escondida da Terra.
Menos de um milímetro por ano parece desprezível. Não é: é um acréscimo que não para, e que se soma a outro efeito maior, o da água do mar que se expande ao esquentar. Para uma cidade litorânea brasileira, o problema não é o nível médio — é a maré alta de um dia de ressaca partindo de um patamar mais alto que o de trinta anos atrás.
Por que os dois polos não se comportam igual
O Ártico tem uma tendência clara: os 20 menores mínimos de toda a série aconteceram entre 2007 e 2026. Vinte entre vinte, nos últimos vinte anos. Não é oscilação, é direção.
O gelo antártico é mais bagunçado. Ele varia muito de ano para ano, e os cientistas da NASA são declaradamente cautelosos em chamar as perdas recentes de tendência de longo prazo. O ano de 2023 registrou lá, ao mesmo tempo, o menor mínimo e o menor máximo da série; desde 2016 os valores vêm ficando abaixo do normal, mas com solavancos.
A assimetria tem a ver com aquela geografia de espelho. O gelo do Ártico fica num oceano fechado por continentes, aquecendo junto com eles; o da Antártida fica num mar aberto que dá a volta no mundo, à mercê de ventos e correntes que mudam de humor.
Há ainda um efeito que empurra o Ártico ladeira abaixo sozinho: gelo é branco e reflete a luz do Sol de volta; mar aberto é escuro e absorve. Quanto mais gelo derrete, mais mar escuro aparece, mais calor é absorvido e mais gelo derrete. Esse círculo vicioso é assunto de O que é albedo? Por que cor decide temperatura.




