Perguntas que todo mundo faz

Por que o gelo do mar não é salgado?

A água do mar congela, mas o sal quase não entra no gelo. Entenda o que acontece com o sal, por que sobra um pouco e por que gelo velho é quase doce.

Publicado em 7 min de leitura
Compartilhar:
Pedaços soltos de gelo marinho boiando num mar escuro e calmo do Ártico, com o Sol baixo atrás de nuvens refletido na água
Foto: NASA/Kathryn Hansen
Neste artigo
  1. A regra da treliça: por que o sal fica de fora
  2. O "se" dessa frase: por que sobra sal mesmo assim
  3. A conta em números: o gelo vai perdendo sal com a idade
  4. Como o sal vai embora depois que o gelo já existe
  5. Então dá para beber?
  6. As cavernas de salmoura e quem mora nelas
  7. O efeito que sai do gelo e muda o planeta

A água do mar é salgada, mas o gelo que se forma nela é quase doce. O motivo é bonito de simples: quando a água congela, as moléculas de água se encaixam numa estrutura rígida e organizada, uma espécie de treliça — e o sal não cabe nessa treliça. Ele é empurrado para fora e fica na água que sobra em volta, que vira a água mais salgada do oceano.

"Quase doce" é o termo certo, e não "doce". Um pouco de sal fica preso, porque na vida real o congelamento é rápido demais para expulsar tudo. E, quanto mais velho o gelo, menos sal ele tem.

A regra da treliça: por que o sal fica de fora

Gelo não é água parada. É água arrumada: cada molécula ocupa uma posição fixa num padrão que se repete, como os tijolos de uma parede. Esse padrão só comporta moléculas de água. Os íons de sal — os pedacinhos de sódio e cloro em que o sal de cozinha se separa quando dissolvido — não têm o formato nem o tamanho para encaixar ali.

A analogia que funciona é a da caixa de ovos. Cada ovo entra no seu espaço, direitinho. Agora tente guardar uma bola de gude na mesma caixa: ela não tem onde se acomodar e acaba rolando para fora. Ao congelar, a água monta a caixa de ovos, e o sal é a bola de gude.

A NASA descreve o processo exatamente assim: se a água do mar pudesse congelar muito lentamente, o resultado seria gelo puro, porque todo o sal seria rejeitado.

O "se" dessa frase: por que sobra sal mesmo assim

O detalhe está no "lentamente". No mar de verdade, ninguém congela devagar.

Segundo a mesma fonte da NASA, o ritmo de congelamento é normalmente rápido demais para permitir que se forme gelo puro, e o que acontece é isto: pequenas bolsas de água muito salgada ficam presas dentro da estrutura do gelo antes de terem tempo de escorrer. Essa água salgada aprisionada tem nome — salmoura — e é só a água do mar que não conseguiu sair a tempo, concentrada porque a água em volta dela virou gelo.

Pense em fazer gelo em casa com água com açúcar e apressar o processo. Se você congelar devagar, o açúcar tende a se concentrar no fundo do copo. Se congelar rápido, ele fica distribuído em bolsinhas no meio da pedra.

A conta em números: o gelo vai perdendo sal com a idade

Aqui está a parte mais útil da resposta, e ela está publicada pela NASA, com as fontes científicas citadas.

Para começar, a referência: a água do mar tem de 30 a 35 partes de sal por mil — ou seja, cerca de 3% a 3,5% do peso dela é sal. Esse número é o assunto de Como os satélites medem o sal do mar?, que mostra como ele é medido do espaço. E a conta de quanto da água do planeta é salgada, congelada ou bebível está em Quanta água tem a Terra, e quanto dela dá para beber.

Agora o gelo, com os valores típicos que a agência publica:

Tipo de gelo marinho Sal (partes por mil) Comparado com a água do mar
Água do mar (referência) 30 a 35 —
Gelo recém-formado 10 a 15 menos da metade
Gelo de primeiro ano (1 a 2 m de espessura) 5 a 8 cerca de um quinto
Gelo de vários anos 0,1 a 3,0 de 1% a 10%

Leia a tabela de cima para baixo e você verá a história inteira: o gelo nasce com metade do sal da água que o formou e vai perdendo o resto com o tempo. Esse processo tem nome — dessalinização — e é uma das coisas que mais mudam no gelo marinho conforme ele envelhece.

Gelo de primeiro ano é o que se formou no inverno atual. Gelo de vários anos é o que sobreviveu a pelo menos um verão sem derreter: ele é mais espesso, tem a superfície arredondada e cheia de lombadas em vez das bordas angulosas do gelo novo.

Como o sal vai embora depois que o gelo já existe

A salmoura presa não fica presa para sempre. A NASA cita dois mecanismos que apressam a drenagem dela.

O primeiro é a gravidade, pura e simples. A salmoura é mais densa e mais pesada que o gelo em volta, e vai escorrendo para baixo com o tempo, abrindo caminho pela estrutura.

O segundo é a percolação da água de degelo: no verão, a superfície do gelo derrete, e essa água doce escorre para dentro, lavando as bolsas de salmoura e empurrando o sal para fora, como quem enxágua uma esponja.

Depois de alguns verões, sobra pouca coisa — os tais 0,1 a 3 partes por mil.

Um iceberg encravado em meio a uma extensa planície branca de gelo marinho, visto de cima, projetando sombra sobre a neve
Um iceberg encravado no gelo marinho do Mar de Bellingshausen, na Antártida, fotografado de um avião da NASA em 19 de outubro de 2012. O iceberg e o gelo plano em volta são coisas diferentes: o iceberg é água doce que se desprendeu de uma geleira em terra, e o gelo plano é mar congelado. Foto: NASA/James Yungel

Então dá para beber?

Esta é a pergunta que todo mundo faz, e a resposta honesta tem duas partes.

A primeira é o que os números dizem: gelo marinho de vários anos, com 0,1 a 3 partes de sal por mil, é bem menos salgado que a água do mar, e a faixa de baixo dessa escala é praticamente água doce.

A segunda é o que esta página não vai afirmar. O número varia muito de um pedaço para outro do mesmo bloco de gelo, e a NASA não publica nenhuma recomendação de potabilidade. Então: é plausível que gelo velho derretido seja bebível em muitos casos, mas isso não é uma garantia, e não é uma orientação de sobrevivência vinda de fonte oficial. Para gelo novo, a resposta é mais simples: com 10 a 15 partes por mil, ele é salgado demais e não serve.

Vale guardar também a distinção que confunde quase todo mundo: iceberg não é gelo marinho. Iceberg é um pedaço que se quebrou de uma geleira em terra firme, e geleira é feita de neve acumulada — ou seja, de água doce desde o começo. Por isso iceberg derretido é água potável e sempre foi. Já o gelo marinho é mar congelado. São duas coisas diferentes boiando no mesmo lugar.

As cavernas de salmoura e quem mora nelas

A salmoura aprisionada não é só um detalhe químico. Ela cria um mundo.

Segundo a NASA, canais dentro do gelo marinho podem se encher de água salgada e oferecer habitat para produtores primários como algas e plâncton, que conseguem prosperar ali — e isso, por sua vez, permite que animais maiores se alimentem em meio ao gelo.

Ou seja: aquelas bolsas que ficaram presas por acidente de congelamento viram uma rede de corredores minúsculos, e é dentro deles que começa a cadeia alimentar polar. O gelo não é um deserto branco; é um prédio cheio de inquilinos.

O efeito que sai do gelo e muda o planeta

Falta uma consequência, e ela é grande.

Quando o gelo expulsa o sal, esse sal não some: ele fica na água logo abaixo. E essa água, agora mais salgada e muito fria, é a água mais densa e pesada que existe no oceano. Água pesada afunda. É assim que nasce boa parte da circulação profunda que leva calor do equador para os polos — o mecanismo explicado em Como os satélites medem o sal do mar?.

Há ainda um segundo efeito, visual e imediato. Gelo é branco e devolve luz; mar é escuro e absorve. A NASA quantifica o contraste: com cobertura de gelo, só 30% a 50% da luz solar que chega é absorvida, e o resto é refletido; sem o gelo, de 85% a 95% é absorvida. Esse é o assunto de O que é albedo? Por que cor decide temperatura.

Para dar escala ao tamanho da coisa: o gelo marinho cobre cerca de 7% dos oceanos da Terra e pode chegar a 3 metros de espessura ou mais — ou seja, bem mais que a altura de uma pessoa, em gelo, boiando.

Perguntas frequentes

O gelo do mar é salgado?

Muito pouco, e cada vez menos com o tempo. A água do mar tem de 30 a 35 partes de sal por mil. O gelo recém-formado fica com 10 a 15, o gelo de primeiro ano com 5 a 8, e o gelo de vários anos com apenas 0,1 a 3,0 partes por mil, segundo os valores publicados pela NASA.

Por que o sal não entra no gelo?

Porque, ao congelar, as moléculas de água se organizam numa estrutura rígida e repetitiva na qual os íons de sal não encaixam. Eles são rejeitados e ficam na água em volta. Se o congelamento fosse muito lento, o resultado seria gelo puro; como na natureza ele é rápido, bolsas de água salgada acabam presas dentro do gelo.

Dá para beber gelo do mar derretido?

Gelo marinho de vários anos é bem menos salgado que a água do mar e, na faixa mais baixa, é quase doce. Mas a NASA não publica recomendação de potabilidade e o valor varia bastante de um pedaço para outro, então isso não deve ser tratado como garantia. Gelo recém-formado, com 10 a 15 partes por mil, é salgado demais.

Qual é a diferença entre gelo marinho e iceberg?

Gelo marinho é água do mar congelada, e por isso carrega um pouco de sal. Iceberg é um bloco que se desprendeu de uma geleira em terra firme, formada por neve acumulada ao longo de milhares de anos — portanto é água doce desde a origem.

O que acontece com o sal que o gelo expulsa?

Ele fica na água logo abaixo do gelo, que se torna mais salgada e mais fria que o resto do oceano. Essa combinação a deixa muito densa, e água densa afunda. Esse afundamento é um dos motores da circulação profunda dos oceanos.

Gostou? Compartilhe: WhatsAppFacebookTelegramX

Leia também

Mais em Perguntas
  • Perguntas

    Por que não existe gravidade artificial de verdade?

    A gravidade artificial não é ficção: a física permite, e a receita é conhecida desde o começo do século XX. Basta girar a nave. O problema é o tamanho. Para produzir no chão…

    ·7 min de leitura
  • Perguntas

    O que é o limite de Roche?

    O limite de Roche é a distância mínima que um corpo pode chegar de um planeta sem se despedaçar. Mais perto do que isso, a diferença de puxão da gravidade do planeta entre um…

    ·8 min de leitura
  • Perguntas

    As três leis de Kepler explicadas sem matemática

    As três leis de Kepler descrevem como qualquer coisa gira em volta de outra no espaço, e cabem em três frases: a órbita tem formato de elipse, e não de círculo; o planeta anda…

    ·8 min de leitura
  • Perguntas

    O brilho do ar (airglow): por que o céu nunca escurece

    Vá para o lugar mais escuro que você conseguir, numa noite sem Lua, longe de qualquer cidade. Espere a vista se acostumar. Mesmo ali, o céu não fica preto. Sobra sempre um…

    ·8 min de leitura