A Terra tem cerca de 1,39 bilhão de quilômetros cúbicos de água. Desse total, 96,5% é salgada e está nos oceanos. Sobram 3,5% de água doce — e, dessa fatia, cerca de 68% está congelada em geleiras e calotas polares, outro terço está debaixo da terra e só uns 2% correm em rios, lagos e riachos, que é de onde quase toda a água que você bebeu hoje saiu. Em números de bolso: a água de superfície de fácil acesso para oito bilhões de pessoas é sete centésimos de 1% de toda a água do planeta. Este texto arruma essas frações numa conta que cabe na cabeça, e explica por que os próprios números da NASA não batem entre si.
A resposta em uma bola
Um bilhão e trezentos e noventa milhões de quilômetros cúbicos é um número que não quer dizer nada para ninguém. Então vamos para a imagem que a NASA usa.
Se você juntasse toda a água da Terra numa bola só — mares, geleiras, lençóis subterrâneos, rios, nuvens, tudo —, essa bola teria cerca de 1.384 quilômetros de diâmetro.
É quase a distância em linha reta entre São Paulo e Salvador, que dá uns 1.450 km. Uma bola desse tamanho pousada no Brasil cobriria boa parte do Sudeste e do Nordeste.
E essa bola é pequena perto do planeta. A Terra tem 12.742 km de diâmetro, ou seja, nove vezes mais. A água que define o nome "planeta azul" é uma tinta fina sobre uma bola de pedra.
A conta de onde está cada gota
| Onde está | Fatia de toda a água |
|---|---|
| Oceanos | 96,5% |
| Calotas polares, geleiras e neve permanente | cerca de 1,7% |
| Água subterrânea, lagos, rios, riachos e solo | cerca de 1,7% |
| Vapor na atmosfera | um milésimo de 1% |
O vapor merece um parágrafo só para ele. É a menor fatia da tabela por uma distância enorme — um milésimo de 1% —, e é a que manda no clima e no tempo. Toda chuva que já caiu no Brasil passou por essa fração mínima.
A analogia do galão de 20 litros
Troque o planeta inteiro por um galão de água mineral daqueles de bebedouro, de 20 litros. Agora as frações viram volumes que dá para enxergar:
- Água salgada: 19,3 litros. Praticamente o galão inteiro.
- Água doce: 700 mililitros. Pouco mais que uma garrafinha.
- Doce e congelada: 476 mililitros dessa garrafinha. A maior parte dela.
- Doce e subterrânea: entre 155 e 210 mililitros, mais ou menos um copo americano.
- Em rios, lagos e riachos: 14 mililitros. Uma colher de sopa.
É nessa colher de sopa que cabem o Tietê, o Amazonas, o Nilo, o Mississippi e todos os reservatórios de abastecimento do mundo.
Vale ser preciso sobre o que isso significa e o que não significa. Não quer dizer que a humanidade esteja prestes a ficar sem água: a colher se enche de novo, pela chuva, o tempo todo. Quer dizer que o estoque disponível a qualquer momento é fino, e que a conta não tem folga.
Por que quase toda a água doce é gelo
Os 68% da água doce que estão congelados não estão espalhados: estão concentrados em dois lugares, a Antártida e a Groenlândia, mais as geleiras de montanha.
A foto abaixo mostra a segunda delas. Aquela mancha branca guarda camadas de gelo empilhadas há dezenas de milhares de anos, cada uma registrando como era o clima no ano em que caiu.

Água congelada é água doce de verdade — ela só não está disponível. Está sólida, está longe de todo mundo e, no caso das calotas, está sobre o mar ou sobre um continente onde ninguém mora.
É a mesma diferença entre ter dinheiro na poupança e ter dinheiro na carteira. As geleiras são a poupança do planeta, e a colher de sopa dos rios é a carteira.
A água que some de verdade, e a que reaparece
Nos últimos vinte anos passou a ser possível pesar essa água à distância, com um par de satélites que mede variações minúsculas da gravidade da Terra. Onde a água desaparece, o chão fica mais leve e a gravidade cai um tiquinho. Como isso funciona está contado em Como dois satélites pesam a água escondida da Terra.
Foi assim que se descobriu que boa parte das maiores perdas de água do planeta não está nos rios: está nos lençóis subterrâneos bombeados para irrigação, que não se repõem no ritmo em que são esvaziados.
Na superfície, o mesmo tipo de perda é visível a olho nu por satélite. A imagem abaixo mostra um reservatório americano depois de catorze anos de seca.

O Brasil dentro dessa conta
Aqui a escala muda de lado, e a favor.
Pelas contas da NASA, o rio Amazonas sozinho responde por cerca de 18% de toda a água doce que os rios do mundo despejam nos oceanos — proporção calculada sobre as médias de 1980 a 2009. Uma página mais antiga da agência arredonda para "quase 20%".
E a bacia amazônica guarda, segundo o mesmo levantamento, perto de 38% de toda a água estocada em rios no planeta, a maior fatia de qualquer região avaliada.
Traduzindo: aquela colher de sopa do galão é, em boa medida, brasileira. De cada cinco gotas que os rios do mundo levam ao mar, perto de uma passa pela foz do Amazonas, no Pará.
Vale uma ressalva honesta, porque ela muda o sentido da notícia: ter o maior rio não é o mesmo que ter a água no lugar onde as pessoas estão. O Sudeste brasileiro concentra população longe da Amazônia, e é por isso que seca em São Paulo é um problema mesmo com o Amazonas intacto.
Por que os números da própria NASA não batem
Se você procurar essas porcentagens em duas páginas diferentes da NASA, vai achar duas respostas. Isso incomoda, e tem explicação.
A página de divulgação científica da agência diz que a água cobre 71% da superfície. Outra fala em 75% — mas esta soma oceanos e gelo. Não é contradição: são coisas diferentes com nomes parecidos.
Já a água doce aparece como 3,5% numa página e como 2,5% ou 3% em outras. A diferença está em onde cada fonte corta a fronteira entre doce e salobra, e em quanto da água subterrânea é contada como aproveitável.
E há um número que é francamente incerto: a própria NASA avisa que estimar a água subterrânea é particularmente difícil e os valores variam muito. A faixa publicada é larga — entre 22% e 30% de toda a água doce.
O motivo é prosaico: ninguém mediu. Água subterrânea não se vê de avião nem se mede com régua; o que existe são modelos, poços de amostra e, desde 2002, a pesagem por gravidade feita de órbita.
Então a leitura correta desta página é: as ordens de grandeza são sólidas — a esmagadora maioria é salgada, a maior parte da doce é gelo, o que corre em rio é uma fração mínima —, e a segunda casa decimal não é.
E a água que não está na Terra
Para encerrar com a comparação que sempre vem à cabeça: nossos vizinhos têm água, e nenhum deles tem assim.
A Lua tem gelo escondido em crateras que nunca veem o Sol, assunto de Tem água na Lua? Onde está o gelo e quanto tem. Marte tem bem mais, quase toda congelada nas calotas e no subsolo, como mostra Tem água em Marte? Onde está o gelo e quanto tem.
A diferença não é só de quantidade: é de estado. A Terra é, até onde se sabe, o único lugar do Sistema Solar onde há água líquida em grande quantidade e de forma estável na superfície. Como ela foi parar aqui é uma história em aberto, contada em De onde veio a água da Terra? O que as sondas acharam.




