Perguntas que todo mundo faz

De onde veio a água da Terra? O que as sondas acharam

A Terra nasceu quente demais para guardar água. A resposta mais provável é que ela chegou depois, de fora — e o sabor da água denuncia quem a trouxe.

Publicado em 8 min de leitura
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Foto real do núcleo do cometa 67P, uma pedra escura de duas partes com crateras e pedregulhos, tirada pela sonda Rosetta
Foto: ESA/Rosetta/NAVCAM
Neste artigo
  1. O problema: a Terra nasceu quente demais
  2. A digital da água: o deutério
  3. O que os cometas responderam: "não fui eu"
  4. O que os asteroides responderam: "pode ter sido eu"
  5. Onde essa água nasceu, antes de tudo
  6. O que ainda está em aberto

A resposta curta é que a água da Terra provavelmente veio de fora, trazida por corpos rochosos depois que o planeta já estava formado — e as medições feitas até hoje apontam mais para os asteroides do que para os cometas. Não é um palpite: existe um jeito de identificar a "digital" de cada água do Sistema Solar, e foi comparando essa digital que os cientistas foram eliminando suspeitos. O cometa que a sonda europeia Rosetta visitou, por exemplo, tem uma água tão diferente da nossa que ele saiu da lista.

Este artigo explica por que a pergunta existe (a Terra deveria ter nascido seca), como se mede a digital da água, e o que cada tipo de corpo celeste respondeu quando foi medido.

O problema: a Terra nasceu quente demais

Hoje a água cobre cerca de 71% da superfície do planeta, e 97% de toda a água da Terra está nos oceanos, que têm profundidade média de 3,6 km. É muita água.

O incômodo é que ela não deveria estar aqui. Uma das hipóteses mais aceitas sobre a formação da Terra, há cerca de 4,6 bilhões de anos, é que o planeta recém-nascido estava tão quente que qualquer água original teria evaporado e escapado para o espaço. Um planeta derretido não segura oceano, do mesmo jeito que uma panela no fogo não segura o caldo: ele vira vapor e vai embora.

Se a Terra nasceu seca e hoje tem oceano, a água chegou depois, quando o planeta já tinha esfriado. E o único jeito de ela chegar é de carona, em pedras que caíram aqui. A dúvida, então, deixa de ser "de onde veio" e passa a ser "quem entregou": cometas, asteroides, ou os dois em alguma proporção.

A formação do planeta e desse período de bombardeio está contada em Como se formou o Sistema Solar? A história, passo a passo.

A digital da água: o deutério

Para descobrir o entregador, os cientistas usam um truque elegante. Nem toda água é exatamente igual.

A molécula de água normal tem dois átomos de hidrogênio. Mas existe uma versão mais pesada do hidrogênio, chamada deutério, que é o mesmo hidrogênio com um nêutron a mais no núcleo — como se um dos ingredientes da receita viesse numa versão mais pesada, sem mudar o gosto. Toda água do universo tem um pouquinho de deutério misturado, e a proporção entre deutério e hidrogênio comum (os cientistas escrevem D/H) muda de lugar para lugar.

Pense numa marca de água mineral. Duas garrafas podem parecer idênticas, mas a análise química diz de qual fonte cada uma saiu. O D/H é essa análise. E ele é especialmente útil porque, segundo os modelos, essa proporção depende de onde e quando o gelo se formou no Sistema Solar jovem: quanto mais longe do Sol e mais frio, mais deutério.

Então o plano é simples de enunciar: medir o D/H da água dos oceanos, medir o D/H de cometas e asteroides, e ver quem bate.

Pedaços escuros de rocha e pó do asteroide Bennu numa bandeja de metal com réguas gravadas
A amostra do asteroide Bennu, fotografada no laboratório da NASA em Houston. Foram 121,6 gramas trazidos à Terra em 2023 — o dobro do que a missão prometia. Material desse tipo é o principal suspeito de ter entregado a água dos nossos oceanos. Foto: Erika Blumenfeld & Joseph Aebersold

O que os cometas responderam: "não fui eu"

Durante décadas o cometa foi o suspeito óbvio, pela razão mais simples do mundo: cometa é basicamente uma pedra suja cheia de gelo. Se alguém ia trazer água, seria ele. A diferença entre cometa, asteroide e meteorito está explicada em Meteoro, meteorito, asteroide e cometa: qual é a diferença?.

O problema apareceu quando as medições começaram. Até a época do resultado da Rosetta, 11 cometas tinham tido o D/H medido, e os valores estavam espalhados. Só um deles batia com a água dos oceanos da Terra: o cometa 103P/Hartley 2, medido pelo telescópio espacial Herschel, da Agência Espacial Europeia (ESA), em 2011.

O golpe veio em dezembro de 2014. A sonda Rosetta, da ESA, estava orbitando o cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko e usou um instrumento chamado ROSINA — um medidor que identifica moléculas uma a uma — para analisar o vapor de água que saía do cometa. O resultado, publicado na revista Science em 10 de dezembro de 2014 por uma equipe liderada por Kathrin Altwegg, da Universidade de Berna: o D/H do 67P é mais de três vezes maior que o da água dos oceanos terrestres.

Três vezes mais deutério não é um detalhe de medição. É outra água. Nas palavras da própria pesquisadora, o achado "descarta a ideia de que os cometas da família de Júpiter contenham apenas água parecida com a dos oceanos da Terra". A história dessa missão está em Rosetta e Philae: a sonda que pousou num cometa.

O que os asteroides responderam: "pode ter sido eu"

Enquanto os cometas iam sendo riscados, os asteroides foram ganhando força — e pelo caminho mais caseiro possível: os meteoritos, pedaços de asteroide que caem na Terra e podem ser analisados em laboratório, sem precisar de foguete.

A água presa nos minerais desses meteoritos bate com a dos nossos oceanos. O detalhe é que asteroide tem muito menos água que cometa, proporcionalmente. Mas isso não é um problema fatal: se o número de impactos for grande o suficiente, muita gente carregando pouca água cada uma ainda enche a piscina. É a diferença entre encher um balde com um jarro (poucas viagens) ou com uma colher (muitas viagens). As duas funcionam, uma só precisa de mais paciência.

A conferência mais recente dessa pista veio do asteroide Bennu. A sonda OSIRIS-REx recolheu material da superfície dele em 20 de outubro de 2020 e devolveu a cápsula à Terra em 24 de setembro de 2023, com 121,6 gramas de rocha e poeira — mais que o dobro do exigido pela missão e a maior amostra de asteroide já coletada no espaço. Em janeiro de 2025, a NASA divulgou que a análise encontrou moléculas que, aqui na Terra, são essenciais para a vida, e sinais de uma história de água salgada dentro do asteroide. O que mais saiu de lá está em O que a NASA achou dentro do asteroide Bennu?.

Suspeito Como se mede O que a digital diz
Cometas da família de Júpiter Sonda no local (Rosetta/ROSINA) ou telescópio Valores espalhados; o 67P tem mais de 3× o deutério da Terra
Cometa 103P/Hartley 2 Telescópio Herschel (ESA), 2011 Bate com a água da Terra — o único dos 11 medidos na época
Cometas da Nuvem de Oort Telescópio Nenhum batia com a água da Terra; o 67P tem mais deutério que todos eles
Meteoritos do Cinturão de Asteroides Laboratório, aqui na Terra Batem com a água da Terra

Onde essa água nasceu, antes de tudo

Há uma pergunta embaixo da pergunta: de onde cometas e asteroides tiraram a água deles?

A resposta que os astrônomos vêm montando é que o gelo é mais velho que o Sistema Solar. Ele se forma no espaço entre as estrelas, grudado em grãos de poeira minúsculos, do tamanho das partículas da fumaça de uma vela. Quando uma dessas nuvens desaba e vira um sistema de estrelas e planetas, o gelo já está lá dentro, de carona na poeira.

Essa ideia ganhou uma confirmação importante em 15 de abril de 2026, com um estudo publicado no periódico The Astrophysical Journal: o telescópio SPHEREx, da NASA, mapeou a região de formação de estrelas chamada Cygnus X e encontrou a assinatura química de gelo de água espalhada por ela, justamente onde há mais poeira. A poeira, descobriu-se, funciona como guarda-sol: protege o gelo da radiação ultravioleta das estrelas recém-nascidas, que de outro jeito o destruiria. O telescópio que fez isso está explicado em SPHEREx: o telescópio que vê o céu em 102 cores, e as nuvens onde isso acontece, em O que é uma nebulosa? Tipos, como se formam e como ver.

Vale guardar a ressalva, porque a própria NASA a faz: descobrir que a água da Terra começou assim é o objetivo da missão, não uma conclusão fechada.

A borda da Terra vista da Estação Espacial à noite, com o brilho da Lua refletido no oceano Pacífico e estrelas no céu escuro
O reflexo da Lua no oceano Pacífico, fotografado da Estação Espacial. Toda essa água provavelmente chegou aqui de carona, em pedras que caíram num planeta já formado. Foto: NASA/JSC

O que ainda está em aberto

Seria desonesto encerrar com "foram os asteroides, caso resolvido". O que existe hoje é o seguinte:

  • A balança pende para os asteroides. A combinação de meteoritos que batem com a nossa água e cometas que não batem empurra o peso da entrega para o Cinturão de Asteroides.
  • Os cometas não foram eliminados. O Hartley 2 mostra que existe cometa com água igual à nossa. A diversidade entre eles é maior do que se imaginava, e a própria equipe da Rosetta sugeriu que os cometas da família de Júpiter podem ter se formado numa faixa de distâncias bem mais larga do que se pensava.
  • Pode não ter havido um único entregador. A proporção de cada tipo de corpo na conta final continua em debate aberto.
  • Poucos corpos foram medidos. Onze cometas, na época do resultado do 67P, é uma amostra pequena para um Sistema Solar com bilhões de objetos.

É um caso em andamento, com provas acumulando de um lado da mesa. E é bom que seja assim: a mesma pergunta, feita sobre outros planetas, é o que orienta a busca por mundos onde a vida poderia existir.

Perguntas frequentes

De onde veio a água da Terra?

A hipótese mais aceita é que ela foi trazida de fora, por corpos que caíram na Terra depois que o planeta esfriou. Quando a Terra se formou, há cerca de 4,6 bilhões de anos, ela estava quente demais para manter água. As medições feitas até hoje apontam mais para os asteroides do que para os cometas como principais entregadores.

Foram os cometas que trouxeram a água dos oceanos?

Provavelmente não sozinhos, e talvez nem em grande parte. Dos 11 cometas que tiveram a composição da água medida até o resultado da Rosetta, apenas o 103P/Hartley 2 batia com a água da Terra. O cometa 67P, medido de perto pela Rosetta em 2014, tem mais de três vezes mais deutério que os nossos oceanos.

O que é o deutério e por que ele importa nessa história?

Deutério é uma versão mais pesada do hidrogênio, com um nêutron a mais. A proporção entre deutério e hidrogênio comum na água funciona como uma digital: ela depende de onde e quando aquele gelo se formou. Comparando a digital da água de um cometa com a dos nossos oceanos, dá para dizer se aquele tipo de corpo poderia ter trazido a nossa água.

A água do meu copo é mais velha que o Sol?

Boa parte dela provavelmente sim, e essa é a parte mais bonita da história. O gelo de água se forma no espaço entre as estrelas, grudado em grãos de poeira, antes de a estrela e os planetas existirem. Foi isso que o telescópio SPHEREx mostrou na região Cygnus X, num estudo divulgado em abril de 2026.

Marte também recebeu água do mesmo jeito?

Provavelmente sim, e há bastante evidência de que Marte foi um planeta úmido no passado. A diferença é que ele não conseguiu segurar essa água na superfície, como contamos em Por que Marte perdeu a atmosfera (e a Terra não)?.

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