Quase todo telescópio famoso faz a mesma coisa: aponta para um pedacinho do céu e fica olhando. O SPHEREx faz o oposto — ele fotografa o céu inteiro, e fotografa em 102 cores diferentes de luz infravermelha, uma faixa que o olho humano não enxerga. Lançado em 11 de março de 2025 e tocado pelo Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA, ele foi feito para responder a três perguntas que parecem não ter nada a ver entre si: o que aconteceu na primeira fração de segundo depois do Big Bang, como as galáxias se formaram, e de onde veio a água.
Um telescópio que varre, em vez de mirar
A diferença entre o SPHEREx e um telescópio como o Hubble é a mesma que existe entre tirar uma foto panorâmica do estádio inteiro e usar um binóculo para olhar um jogador.
O Hubble e o James Webb são binóculos: enxergam fundo, com muito detalhe, um recorte minúsculo de cada vez. O SPHEREx é a panorâmica: enxerga tudo, com menos detalhe, mas sem deixar nada de fora. Ao longo de uma missão planejada de dois anos, ele vai reunir informação sobre mais de 450 milhões de galáxias e mais de 100 milhões de estrelas da Via Láctea.
Os dois tipos se completam. É a varredura que descobre onde estão as coisas interessantes; é o binóculo que depois vai olhar uma a uma, como mostram As descobertas mais impressionantes do telescópio James Webb.
O que são "102 cores", afinal
Uma câmera comum guarda três cores: vermelho, verde e azul. Misturadas, elas enganam bem o olho humano, mas jogam fora quase toda a informação que a luz carregava.
A luz de verdade é um espectro — uma escala contínua, como as teclas de um piano. Quando um astrônomo separa a luz nessas "teclas" em vez de amontoá-la em três, ele está fazendo espectroscopia, e é aí que a física aparece: cada substância absorve e emite luz em comprimentos de onda específicos, como uma impressão digital.
O SPHEREx separa a luz infravermelha em 102 faixas. Na prática, isso quer dizer que ele não vê apenas "tem alguma coisa brilhando ali": ele vê do que aquilo é feito e, pelo deslocamento das marcas, a que distância está.
Pense na diferença entre ouvir um acorde e ouvir cada nota dele separadamente. Com três cores, você ouve o acorde. Com 102, identifica o instrumento.
Por que ele parece um megafone gigante
A foto que abre este artigo mostra o motivo do formato esquisito. Aqueles cones espelhados são três escudos de fótons concêntricos, e eles existem para resolver um problema de física incômodo.
Infravermelho é, em boa medida, radiação de calor: qualquer coisa morna emite. Então, para enxergar o infravermelho fraquinho que vem do outro lado do universo, o telescópio precisa estar mais frio que aquilo que está tentando ver. O SPHEREx opera abaixo de −210 °C.
Os escudos bloqueiam a luz e o calor do Sol e da Terra, que de outro modo ofuscariam os detectores. É como tentar ouvir um sussurro dentro de um show: não adianta aumentar o ouvido, é preciso primeiro tirar o barulho. O conjunto foi montado pela BAE Systems, em Boulder, no Colorado.
As três perguntas que ele quer responder
1. O que aconteceu no primeiro instante. A teoria mais aceita diz que o universo recém-nascido passou por um crescimento violentíssimo numa fração ínfima de segundo. Esse episódio teria deixado marcas na forma como as galáxias estão distribuídas hoje, e é num mapa tridimensional de centenas de milhões delas que dá para procurar o padrão. O começo da história está em O que é o Big Bang? A explicação simples, sem fórmula.
2. Como as galáxias cresceram. Com distância e composição de tanta gente ao mesmo tempo, dá para montar a linha do tempo da evolução das galáxias em vez de estudar casos isolados.
3. De onde veio a água. Esta é a mais concreta das três, e a que mais mexe com quem gosta do assunto: o SPHEREx é a primeira missão de infravermelho projetada especificamente para procurar moléculas congeladas no céu inteiro. Água, gás carbônico e monóxido de carbono já tinham sido detectados por outros telescópios, mas sempre em pontos escolhidos.

O que ele já achou: gelo preso na poeira
Um dos primeiros resultados científicos da missão saiu em 15 de abril de 2026, num estudo publicado no periódico The Astrophysical Journal, e é um bom exemplo do que um levantamento do céu inteiro consegue fazer.
O SPHEREx mapeou Cygnus X, uma das regiões de nascimento de estrelas mais agitadas da Via Láctea, e mostrou as assinaturas químicas de gelo de água espalhado por ela. O resultado reforça uma hipótese elegante: o gelo interestelar se forma na superfície de grãos de poeira minúsculos, não maiores que as partículas da fumaça de uma vela.
As regiões com mais gelo coincidem com as de mais poeira — e a poeira, descobriu-se, funciona como guarda-sol: ela protege o gelo da radiação ultravioleta das estrelas recém-nascidas, que de outra forma o destruiria. Nuvens desse tipo, e o que acontece dentro delas, é o tema de O que é uma nebulosa? Tipos, como se formam e como ver.
A conexão com a nossa história é o que a NASA põe entre os objetivos da missão: descobrir se a água que acabou nos oceanos da Terra começou assim, como gelo grudado em poeira, muito antes de existir um planeta onde pousar.
SPHEREx, Hubble e Webb: quem faz o quê
| Telescópio | Campo de visão | Enxerga em | Ponto forte |
|---|---|---|---|
| Hubble | Estreito | Visível, ultravioleta e infravermelho próximo | Imagens detalhadas de alvos escolhidos |
| James Webb | Estreito | Infravermelho | Enxergar longe e através da poeira |
| SPHEREx | O céu inteiro | Infravermelho, em 102 faixas | Inventário completo, para achar o que vale olhar depois |
Quem quiser comparar com o mais famoso de todos pode ler Telescópio Hubble: o que é e o que ele já descobriu.
Quatro mapas do céu inteiro
A missão não faz um mapa só: a meta são quatro varreduras completas do céu. Até o fim de 2025, o SPHEREx já tinha terminado a primeira delas, registrando a posição de centenas de milhões de galáxias em três dimensões.
Repetir o mapa quatro vezes tem uma razão prática: comparando as passagens, os cientistas separam o que é real do que é ruído e descobrem o que mudou no intervalo. No céu, muita coisa muda.
Os dados são seus também
O conjunto de dados do SPHEREx é livre, disponível para cientistas e para o público. O processamento e o arquivo ficam no IPAC, no Caltech, na Califórnia.
A equipe científica reúne pesquisadores de 13 instituições dos Estados Unidos, da Coreia do Sul e de Taiwan, sob a liderança do investigador principal Jamie Bock, do Caltech, e do cientista do projeto Olivier Doré, do JPL.




