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Telescópio Hubble: o que é e o que ele já descobriu

Ele subiu com um defeito no espelho que quase virou fiasco e acabou mudando a astronomia. O que o Hubble descobriu e como ele está funcionando hoje.

Publicado em 8 min de leitura
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Nuvem de gás em forma de ampulheta com anéis alaranjados e uma estrela brilhante esverdeada no centro, fotografada pelo telescópio Hubble
Foto: NASA/JPL-Caltech/ESA, the Hubble Heritage Team STScI/AURA
Neste artigo
  1. O que é o Hubble, em uma frase
  2. Por que colocar um telescópio no espaço
  3. O defeito no espelho e o conserto mais caro da história
  4. As descobertas que mudaram a astronomia
  5. O campo profundo: dez dias apontando para o nada
  6. Hubble e James Webb: qual é a diferença
  7. Como o Hubble está hoje (e até quando)

O Hubble é um telescópio do tamanho de um ônibus urbano que orbita a Terra desde 1990 e fotografa o universo de fora da atmosfera, onde nada embaça a imagem. Ele não é o maior telescópio que existe — há espelhos bem maiores em montanhas do Chile e do Havaí —, mas é, de longe, o mais produtivo: mais de 1,6 milhão de observações e mais de 21 mil artigos científicos saíram dele. Foi o Hubble que ajudou a fechar a idade do universo, que mostrou que a expansão está acelerando e que fotografou milhares de galáxias num pedaço de céu que parecia vazio.

E quase nada disso aconteceu. Nas primeiras semanas de operação, descobriu-se que o espelho principal tinha sido polido errado, e as fotos saíam borradas. A história de como isso foi consertado é uma das melhores da exploração espacial.

O que é o Hubble, em uma frase

É um telescópio de espelho de 2,4 metros de diâmetro que fica a cerca de 515 km de altitude, dá uma volta na Terra a cada 95 minutos — aproximadamente 27 mil km/h — e observa principalmente a luz visível, além de um pouco de ultravioleta e de infravermelho próximo.

Foi lançado em 24 de abril de 1990 pelo ônibus espacial Discovery, na missão STS-31, e leva o nome de Edwin Hubble, o astrônomo que provou nos anos 1920 que existem outras galáxias além da nossa e que o universo está se expandindo.

Para dar a escala do objeto: ele tem uns 13 metros de comprimento e pesa mais de 11 toneladas. Não é um instrumento de bancada; é um satélite grande com um telescópio dentro.

Por que colocar um telescópio no espaço

A atmosfera é ótima para respirar e péssima para observar. O ar está sempre se mexendo, com bolsões de temperaturas diferentes que desviam a luz de forma irregular. É por isso que as estrelas parecem piscar, assunto de Por que as estrelas piscam?.

Do chão, esse embaralhamento limita a nitidez de qualquer telescópio, por melhor que seja. É como tentar ler a placa de um carro através da água de uma piscina: aumentar o zoom não resolve, porque o problema não está no equipamento, está no caminho.

Há um segundo motivo. A atmosfera bloqueia quase todo o ultravioleta e boa parte do infravermelho, justamente as faixas de luz que carregam informação sobre estrelas muito quentes e sobre nuvens de poeira. Do espaço, essas faixas ficam disponíveis.

O preço disso é alto: subir, manter e consertar um telescópio em órbita custa muito mais do que construí-lo numa montanha. O Hubble vale o investimento porque faz o que nenhum telescópio de solo consegue com a mesma estabilidade e por muito mais tempo seguido.

O defeito no espelho e o conserto mais caro da história

Semanas depois do lançamento, as primeiras imagens chegaram. Estavam borradas.

O problema era o espelho principal. Ele tinha sido polido com uma precisão extraordinária — só que para a forma errada. A borda ficou cerca de 2,2 micrômetros mais plana do que deveria, algo em torno de um trinta avos da espessura de um fio de cabelo. Parece nada. Em óptica, é uma catástrofe: a luz que bate no centro e a que bate na borda deixavam de convergir no mesmo ponto, e cada estrela virava um borrão com halo.

O erro tinha origem num instrumento de calibração montado errado durante a fabricação, e os testes que poderiam ter pego a falha não foram feitos por questão de custo e de prazo. O telescópio que era para ser o orgulho da NASA virou piada de programa de TV.

A solução veio em dezembro de 1993, na missão STS-61. Sete astronautas passaram onze dias em órbita e fizeram cinco caminhadas espaciais para instalar duas coisas: uma câmera nova, já com a correção embutida na própria óptica, e um conjunto de espelhinhos chamado COSTAR, que funcionava como um par de óculos para os outros instrumentos. Deu certo na primeira tentativa. As imagens que chegaram depois disso são as que o mundo conhece.

Missão de serviço Quando O que fez
SM1 (STS-61) Dezembro de 1993 Corrigiu a óptica com a câmera WFPC2 e o COSTAR
SM2 (STS-82) Fevereiro de 1997 Instrumentos novos, incluindo capacidade no infravermelho
SM3A (STS-103) Dezembro de 1999 Troca de emergência dos giroscópios
SM3B (STS-109) Março de 2002 Câmera nova e painéis solares novos
SM4 (STS-125) Maio de 2009 Última visita: dois instrumentos novos e reparos internos. Depois dela, o ônibus espacial foi aposentado

Desde 2009 ninguém mais encostou no Hubble. Tudo o que ele faz hoje é feito com o que tem a bordo.

As descobertas que mudaram a astronomia

É difícil escolher, mas cinco resultados se destacam.

A idade do universo. Medindo com precisão inédita a distância e a velocidade de afastamento de galáxias, o Hubble estreitou muito a margem de erro do ritmo de expansão do universo. Isso foi decisivo para chegar ao número que hoje se usa, cerca de 13,8 bilhões de anos, contado em O que é o Big Bang? A explicação simples, sem fórmula.

A expansão está acelerando. Em 1998, dois grupos independentes observaram explosões de estrelas muito distantes e encontraram algo que ninguém esperava: o universo não está apenas se expandindo, está se expandindo cada vez mais rápido. O Hubble foi peça-chave nessas medidas. O resultado rendeu o Nobel de Física de 2011 e criou o problema chamado energia escura, primo do assunto de Matéria escura: o que é a parte invisível do universo.

Buracos negros são comuns. Antes do Hubble, buracos negros gigantes no centro de galáxias eram suspeita. Ao medir a velocidade das estrelas e do gás perto do centro de dezenas de galáxias, o telescópio mostrou que praticamente toda galáxia grande tem um.

Atmosferas de outros mundos. Em 2001, o Hubble fez a primeira detecção de atmosfera em um planeta de outra estrela, observando a luz que atravessava o gás daquele planeta durante a passagem dele na frente da estrela. Abriu uma área inteira da astronomia.

O choque de um cometa em Júpiter. Em julho de 1994, os pedaços do cometa Shoemaker-Levy 9 caíram em Júpiter, e o Hubble acompanhou tudo. Foi a primeira vez que a humanidade assistiu, ao vivo, a uma colisão entre dois corpos do Sistema Solar.

Campo preto coberto de galáxias de todos os formatos e cores — espirais, manchas alaranjadas e riscos azulados
O Campo Ultraprofundo Extremo: milhares de galáxias num pedaço de céu do tamanho de um grão de areia à distância do braço estendido. A luz mais antiga dessa imagem viajou mais de 13 bilhões de anos. Foto: NASA/GSFC

O campo profundo: dez dias apontando para o nada

Essa merece uma seção só dela, porque foi uma aposta.

Em dezembro de 1995, o diretor do instituto que opera o telescópio decidiu usar dez dias seguidos de observação — um recurso caríssimo, disputado por centenas de cientistas — apontando o Hubble para um pedaço de céu escolhido justamente por parecer vazio. Sem estrela conhecida, sem galáxia catalogada, um quadrado de céu do tamanho de uma cabeça de alfinete segurada com o braço esticado.

Muita gente achou desperdício. O resultado foi o Campo Profundo do Hubble: cerca de 3.000 galáxias naquele nadinha de céu. Repetindo o exercício em qualquer direção, a conclusão é inescapável: o universo está cheio de galáxias por toda parte, inclusive onde parece não haver nada.

Versões posteriores, feitas com exposições ainda mais longas em 2004 e 2012, chegaram a mais de dez mil galáxias no mesmo tipo de recorte — e são a base da conversa de Por que o espaço é escuro se existem bilhões de estrelas? e de O espaço tem fim? Até onde vai o universo.

Hubble e James Webb: qual é a diferença

Muita gente acha que o James Webb "substituiu" o Hubble. Não substituiu: eles enxergam coisas diferentes e trabalham juntos.

Hubble James Webb
Lançamento 24 de abril de 1990 25 de dezembro de 2021
Espelho 2,4 metros 6,5 metros
Onde fica Órbita da Terra, a 515 km A 1,5 milhão de km da Terra
Que luz enxerga Visível, ultravioleta e infravermelho próximo Infravermelho, principalmente
Dá para consertar? Foi consertado cinco vezes Não; está longe demais
Melhor para Luz visível, ultravioleta, objetos do Sistema Solar, acompanhar mudanças ao longo de décadas Enxergar através da poeira e ver as galáxias mais antigas e distantes

Na prática, o Webb vê mais longe no tempo, e o Hubble vê cores que o Webb não capta — inclusive o ultravioleta, que nenhum outro telescópio grande em operação cobre. O que o vizinho anda descobrindo está em As descobertas mais impressionantes do telescópio James Webb.

Estrela brilhante cercada por dois lóbulos de gás alaranjado que se expandem em direções opostas, com filamentos finos ao redor
A estrela Eta Carinae e o gás que ela expeliu numa erupção registrada em 1843, quando ela chegou a ser a segunda estrela mais brilhante do céu. Imagem feita pelo Hubble. Foto: NASA, ESA and the Hubble SM4 ERO Team

Como o Hubble está hoje (e até quando)

Aos 36 anos de órbita, o Hubble continua produzindo ciência, mas com limitações.

O ponto mais delicado são os giroscópios, os aparelhos que mantêm o telescópio apontado com estabilidade. Ele foi projetado para operar com três. Ao longo dos anos vários falharam, e em junho de 2024 a NASA passou a operá-lo em "modo de um giroscópio", guardando os outros como reserva. Isso reduz a agilidade para trocar de alvo e a parte do céu acessível a cada momento, mas mantém a qualidade das imagens — e é uma decisão tomada justamente para esticar a vida útil do telescópio até meados da década de 2030.

O outro ponto é a altitude. Sem ônibus espacial, ninguém pode empurrar o Hubble para uma órbita mais alta, e o atrito com os resquícios de atmosfera vai baixando a órbita aos poucos. Sem alguma forma de reimpulsão, a reentrada é prevista para algum momento da década de 2030 — a data exata depende da atividade do Sol, que infla a atmosfera e acelera o processo. Estudos sobre uma missão comercial para elevar a órbita já foram feitos, mas nada está confirmado.

Enquanto isso, ele continua no ar, fotografando. Se a conversa acendeu a vontade de olhar o céu por conta própria, o caminho barato está em Melhor telescópio para iniciantes: guia de compra no Brasil.

Perguntas frequentes

Quando o telescópio Hubble foi lançado?

Em 24 de abril de 1990, a bordo do ônibus espacial Discovery, na missão STS-31. Ele entrou em órbita a pouco mais de 600 km de altitude e hoje está em torno de 515 km, porque a órbita vai baixando devagar com o tempo.

O Hubble ainda está funcionando em 2026?

Sim. Ele opera desde junho de 2024 no chamado modo de um giroscópio, o que limita a rapidez para mudar de alvo e a fatia do céu disponível a cada momento, mas não prejudica a qualidade das imagens. A NASA adotou esse modo justamente para estender a operação até meados da década de 2030.

Qual foi o problema do espelho do Hubble?

A borda do espelho principal foi polida cerca de 2,2 micrômetros mais plana do que o projeto pedia, por causa de um instrumento de calibração montado errado na fábrica. O efeito é chamado de aberração esférica e deixava todas as imagens borradas. Astronautas corrigiram o problema em dezembro de 1993, instalando uma câmera nova e um conjunto de espelhos corretivos.

O James Webb substituiu o Hubble?

Não. O Webb observa principalmente em infravermelho e enxerga mais longe no tempo; o Hubble observa luz visível e ultravioleta, faixas que o Webb não cobre. Os dois são usados em conjunto, muitas vezes no mesmo alvo, e o Hubble é o único telescópio grande em operação capaz de observar no ultravioleta.

Dá para ver o Hubble da Terra a olho nu?

Dá, em condições favoráveis, mas ele é bem menos brilhante que a Estação Espacial e passa mais rápido de se identificar. Ele aparece como um ponto que se desloca sem piscar e não é visível de qualquer latitude com facilidade: a órbita dele é menos inclinada que a da Estação, o que limita as passagens vistas do sul do Brasil.

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