Sim, o Hubble vai cair — mas não agora, e a NASA está correndo atrás de quem possa impedir. Em 29 de outubro de 2026, a agência publicou um pedido formal de informações (Request for Information, o documento em que o governo americano pergunta ao mercado quem sabe fazer determinada coisa) perguntando a empresas privadas se elas conseguem ir até o telescópio e empurrá-lo para uma órbita mais alta. As respostas são aceitas até 30 de novembro de 2026, às 15h no horário da costa leste dos Estados Unidos — 17h em Brasília. Pela análise da própria NASA, sem nenhuma intervenção o Hubble reentra na atmosfera entre 2033 e 2034, e uma missão de salvamento teria de acontecer até 2032.
Por que um telescópio de 12 toneladas vai caindo sozinho
O Hubble não está "caindo" no sentido de despencar. Ele está perdendo altura devagar, por um motivo que vale para todo satélite baixo: arrasto atmosférico.
Mesmo a 480 quilômetros de altura, onde o Hubble voa, não existe vácuo perfeito. Sobram resquícios finíssimos de ar. Cada volta que o telescópio dá — e ele dá uma a cada 95 minutos, a cerca de 27 mil km/h, segundo a ficha técnica da NASA — raspa nesses resquícios e tira um pouquinho de energia. É como empurrar a mão pela janela do carro na estrada: você não sente um muro, mas sente a resistência. Multiplicada por 36 anos, essa resistência derruba a órbita.
A conta piora quando o Sol fica agitado. Nos períodos de maior atividade solar, a atmosfera da Terra incha, sobe de altura e passa a raspar mais no satélite. É por isso que a NASA fala em faixa de datas, e não em dia marcado.
O detalhe que decide tudo: o Hubble não tem motor
Esta é a parte que surpreende quem ouve falar do telescópio pela primeira vez. O Hubble não tem sistema de propulsão. Nenhum. Ele tem giroscópios e rodas de reação para se apontar — para girar em cima do próprio eixo e mirar um alvo —, mas não tem um único motor capaz de mudar a órbita dele.
Isso não foi descuido. Quando o telescópio foi projetado, a resposta para "quem vai levantar a órbita dele?" já existia e se chamava ônibus espacial. E foi exatamente isso que aconteceu cinco vezes: ao terminar o conserto, os astronautas usavam os motores do ônibus para deixar o Hubble um pouco mais alto do que o encontraram. Com a aposentadoria da frota de ônibus espaciais em 2011, o telescópio ficou sem carona.

O que a NASA pediu às empresas, em três opções
O pedido de 29 de outubro não encomenda nada: ele pergunta. E pergunta sobre três caminhos diferentes, nas palavras do próprio documento:
| Opção | O que seria feito | Para quê |
|---|---|---|
| Subir a órbita | Uma nave acopla ao Hubble e o leva a uma altitude maior | Ganhar anos ou décadas de vida |
| Fazer manutenção | Trocar ou melhorar peças já em órbita | Recuperar capacidade perdida |
| Encerrar com controle | Reentrada controlada ou descarte em órbita de cemitério | Evitar queda descontrolada |
O chefe da NASA, Jared Isaacman, resumiu assim: "o Hubble ainda tem ciência importante pela frente, e nós deveríamos olhar para toda oportunidade razoável de mantê-lo entregando o máximo de tempo possível". Nicky Fox, responsável pela diretoria de ciência da agência, foi mais direta sobre o motivo da pressa: a indústria comercial "evoluiu rapidamente nos últimos anos" em captura e manutenção de satélites em órbita — algo que o site já contou em Dá para consertar um satélite quebrado no espaço?.
Cinco visitas, 32 astronautas, quatro naves
Antes de 2011, consertar o Hubble era rotina planejada. Foram cinco missões de serviço, com 32 astronautas no total, usando quatro ônibus espaciais diferentes: Discovery, Endeavour, Columbia e Atlantis.
| Missão | Datas | O que ficou famosa por fazer |
|---|---|---|
| SM1 | 2 a 13 de dezembro de 1993 | Corrigiu o defeito do espelho |
| SM2 | 11 a 21 de fevereiro de 1997 | Ampliou a faixa de luz observada |
| SM3A | 19 a 27 de dezembro de 1999 | Emergência: trocou giroscópios queimados |
| SM3B | 1º a 12 de março de 2002 | Nova câmera e painéis solares |
| SM4 | 11 a 24 de maio de 2009 | A última visita; consertos finais |
Vale notar o caso da SM3A. Em novembro de 1999 o quarto de seis giroscópios do Hubble falhou, e o telescópio precisava de pelo menos três para fazer ciência. Ele entrou em hibernação e ficou esperando socorro — a NASA partiu a terceira missão em duas metades só para chegar mais rápido. Hoje o Hubble opera com um giroscópio só, guardando os outros como reserva, decisão tomada justamente para esticar a vida útil.
Duas páginas da NASA, duas datas diferentes
Aqui vale uma honestidade que o leitor merece. A página de perguntas frequentes do Hubble, atualizada em junho de 2026, diz que a reentrada "não é esperada antes de meados da década de 2030". Já o comunicado de 30 de outubro de 2026 — o mais recente e o mais específico — fala em 2033 a 2034.
As duas são da NASA e as duas estão no ar. A diferença é que a primeira é uma estimativa genérica e a segunda vem de uma análise feita para fundamentar a consulta às empresas. Usamos a segunda, mas quem for conferir na fonte vai achar as duas.
A mesma página de perguntas frequentes já adiantava o plano técnico: um módulo de propulsão seria acoplado ao telescópio, e aí uma de duas coisas aconteceria — reentrada controlada sobre o Oceano Pacífico Sul, a mesma região isolada onde a Estação Espacial deve cair, explicada em A Estação Espacial vai cair? O fim da ISS em 2030; ou um empurrão para uma órbita bem mais alta, deixando o telescópio inativo lá em cima por mais algumas décadas.
O que se perde se ninguém for
Dá para medir o que está em jogo. Em mais de 36 anos de operação, o Hubble fez mais de 1,7 milhão de observações e rendeu mais de 23 mil artigos científicos revisados por outros cientistas. Não existe livro-texto de astronomia hoje que não tenha alguma coisa vinda dele.
E ele continua sendo uma máquina difícil de substituir. A NASA descreve a precisão de apontamento do telescópio com uma comparação própria: 0,007 segundo de arco, o equivalente a acertar com um laser a cabeça do presidente Roosevelt gravada numa moeda de dez centavos a 320 quilômetros de distância.
O James Webb também não é um substituto direto, e o motivo está na ficha técnica dos dois. O Hubble enxerga do ultravioleta ao infravermelho próximo — de 115 a 2.500 nanômetros, segundo a NASA —, enquanto o Webb foi construído para o infravermelho. São faixas diferentes de luz, para perguntas diferentes. Se quiser a ficha completa do telescópio, ela está em Telescópio Hubble: o que é e o que ele já descobriu.
O que esperar daqui para a frente
Um pedido de informações não é contrato, nem promessa, nem data de lançamento. É a NASA levantando a mão e perguntando quem consegue. O que se sabe com segurança, hoje:
- As respostas das empresas vão até 30 de novembro de 2026.
- Se alguma proposta virar missão, ela precisa voar até 2032.
- Sem missão nenhuma, o telescópio reentra entre 2033 e 2034, com margem que depende do Sol.
Nada disso impede o Hubble de trabalhar enquanto isso. Ele segue observando, com um giroscópio, a 480 quilômetros de altura, e segue entregando imagem.




