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O Hubble vai cair? A NASA pediu ajuda a empresas

A NASA abriu em 29 de outubro de 2026 uma consulta a empresas para subir o Hubble de órbita. Sem isso, a reentrada é prevista para 2033 ou 2034.

Publicado em 6 min de leitura
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O telescópio Hubble flutuando sozinho contra o preto do espaço, com os painéis solares abertos dos dois lados
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. Por que um telescópio de 12 toneladas vai caindo sozinho
  2. O detalhe que decide tudo: o Hubble não tem motor
  3. O que a NASA pediu às empresas, em três opções
  4. Cinco visitas, 32 astronautas, quatro naves
  5. Duas páginas da NASA, duas datas diferentes
  6. O que se perde se ninguém for
  7. O que esperar daqui para a frente

Sim, o Hubble vai cair — mas não agora, e a NASA está correndo atrás de quem possa impedir. Em 29 de outubro de 2026, a agência publicou um pedido formal de informações (Request for Information, o documento em que o governo americano pergunta ao mercado quem sabe fazer determinada coisa) perguntando a empresas privadas se elas conseguem ir até o telescópio e empurrá-lo para uma órbita mais alta. As respostas são aceitas até 30 de novembro de 2026, às 15h no horário da costa leste dos Estados Unidos — 17h em Brasília. Pela análise da própria NASA, sem nenhuma intervenção o Hubble reentra na atmosfera entre 2033 e 2034, e uma missão de salvamento teria de acontecer até 2032.

Por que um telescópio de 12 toneladas vai caindo sozinho

O Hubble não está "caindo" no sentido de despencar. Ele está perdendo altura devagar, por um motivo que vale para todo satélite baixo: arrasto atmosférico.

Mesmo a 480 quilômetros de altura, onde o Hubble voa, não existe vácuo perfeito. Sobram resquícios finíssimos de ar. Cada volta que o telescópio dá — e ele dá uma a cada 95 minutos, a cerca de 27 mil km/h, segundo a ficha técnica da NASA — raspa nesses resquícios e tira um pouquinho de energia. É como empurrar a mão pela janela do carro na estrada: você não sente um muro, mas sente a resistência. Multiplicada por 36 anos, essa resistência derruba a órbita.

A conta piora quando o Sol fica agitado. Nos períodos de maior atividade solar, a atmosfera da Terra incha, sobe de altura e passa a raspar mais no satélite. É por isso que a NASA fala em faixa de datas, e não em dia marcado.

O detalhe que decide tudo: o Hubble não tem motor

Esta é a parte que surpreende quem ouve falar do telescópio pela primeira vez. O Hubble não tem sistema de propulsão. Nenhum. Ele tem giroscópios e rodas de reação para se apontar — para girar em cima do próprio eixo e mirar um alvo —, mas não tem um único motor capaz de mudar a órbita dele.

Isso não foi descuido. Quando o telescópio foi projetado, a resposta para "quem vai levantar a órbita dele?" já existia e se chamava ônibus espacial. E foi exatamente isso que aconteceu cinco vezes: ao terminar o conserto, os astronautas usavam os motores do ônibus para deixar o Hubble um pouco mais alto do que o encontraram. Com a aposentadoria da frota de ônibus espaciais em 2011, o telescópio ficou sem carona.

Dois astronautas de traje branco trabalhando sobre o corpo prateado do Hubble, presos ao braço robótico do ônibus espacial
Jeffrey Hoffman, preso ao braço robótico do Endeavour, instala a nova câmera no Hubble em 7 de dezembro de 1993. Foi na primeira dessas visitas que o defeito do espelho foi corrigido. Foto: NASA/JSC

O que a NASA pediu às empresas, em três opções

O pedido de 29 de outubro não encomenda nada: ele pergunta. E pergunta sobre três caminhos diferentes, nas palavras do próprio documento:

Opção O que seria feito Para quê
Subir a órbita Uma nave acopla ao Hubble e o leva a uma altitude maior Ganhar anos ou décadas de vida
Fazer manutenção Trocar ou melhorar peças já em órbita Recuperar capacidade perdida
Encerrar com controle Reentrada controlada ou descarte em órbita de cemitério Evitar queda descontrolada

O chefe da NASA, Jared Isaacman, resumiu assim: "o Hubble ainda tem ciência importante pela frente, e nós deveríamos olhar para toda oportunidade razoável de mantê-lo entregando o máximo de tempo possível". Nicky Fox, responsável pela diretoria de ciência da agência, foi mais direta sobre o motivo da pressa: a indústria comercial "evoluiu rapidamente nos últimos anos" em captura e manutenção de satélites em órbita — algo que o site já contou em Dá para consertar um satélite quebrado no espaço?.

Cinco visitas, 32 astronautas, quatro naves

Antes de 2011, consertar o Hubble era rotina planejada. Foram cinco missões de serviço, com 32 astronautas no total, usando quatro ônibus espaciais diferentes: Discovery, Endeavour, Columbia e Atlantis.

Missão Datas O que ficou famosa por fazer
SM1 2 a 13 de dezembro de 1993 Corrigiu o defeito do espelho
SM2 11 a 21 de fevereiro de 1997 Ampliou a faixa de luz observada
SM3A 19 a 27 de dezembro de 1999 Emergência: trocou giroscópios queimados
SM3B 1º a 12 de março de 2002 Nova câmera e painéis solares
SM4 11 a 24 de maio de 2009 A última visita; consertos finais

Vale notar o caso da SM3A. Em novembro de 1999 o quarto de seis giroscópios do Hubble falhou, e o telescópio precisava de pelo menos três para fazer ciência. Ele entrou em hibernação e ficou esperando socorro — a NASA partiu a terceira missão em duas metades só para chegar mais rápido. Hoje o Hubble opera com um giroscópio só, guardando os outros como reserva, decisão tomada justamente para esticar a vida útil.

Duas páginas da NASA, duas datas diferentes

Aqui vale uma honestidade que o leitor merece. A página de perguntas frequentes do Hubble, atualizada em junho de 2026, diz que a reentrada "não é esperada antes de meados da década de 2030". Já o comunicado de 30 de outubro de 2026 — o mais recente e o mais específico — fala em 2033 a 2034.

As duas são da NASA e as duas estão no ar. A diferença é que a primeira é uma estimativa genérica e a segunda vem de uma análise feita para fundamentar a consulta às empresas. Usamos a segunda, mas quem for conferir na fonte vai achar as duas.

A mesma página de perguntas frequentes já adiantava o plano técnico: um módulo de propulsão seria acoplado ao telescópio, e aí uma de duas coisas aconteceria — reentrada controlada sobre o Oceano Pacífico Sul, a mesma região isolada onde a Estação Espacial deve cair, explicada em A Estação Espacial vai cair? O fim da ISS em 2030; ou um empurrão para uma órbita bem mais alta, deixando o telescópio inativo lá em cima por mais algumas décadas.

O que se perde se ninguém for

Dá para medir o que está em jogo. Em mais de 36 anos de operação, o Hubble fez mais de 1,7 milhão de observações e rendeu mais de 23 mil artigos científicos revisados por outros cientistas. Não existe livro-texto de astronomia hoje que não tenha alguma coisa vinda dele.

E ele continua sendo uma máquina difícil de substituir. A NASA descreve a precisão de apontamento do telescópio com uma comparação própria: 0,007 segundo de arco, o equivalente a acertar com um laser a cabeça do presidente Roosevelt gravada numa moeda de dez centavos a 320 quilômetros de distância.

O James Webb também não é um substituto direto, e o motivo está na ficha técnica dos dois. O Hubble enxerga do ultravioleta ao infravermelho próximo — de 115 a 2.500 nanômetros, segundo a NASA —, enquanto o Webb foi construído para o infravermelho. São faixas diferentes de luz, para perguntas diferentes. Se quiser a ficha completa do telescópio, ela está em Telescópio Hubble: o que é e o que ele já descobriu.

O que esperar daqui para a frente

Um pedido de informações não é contrato, nem promessa, nem data de lançamento. É a NASA levantando a mão e perguntando quem consegue. O que se sabe com segurança, hoje:

  • As respostas das empresas vão até 30 de novembro de 2026.
  • Se alguma proposta virar missão, ela precisa voar até 2032.
  • Sem missão nenhuma, o telescópio reentra entre 2033 e 2034, com margem que depende do Sol.

Nada disso impede o Hubble de trabalhar enquanto isso. Ele segue observando, com um giroscópio, a 480 quilômetros de altura, e segue entregando imagem.

Perguntas frequentes

O Hubble vai cair na Terra?

Em algum momento, sim, se nada for feito. A NASA estima a reentrada para 2033 ou 2034. Mas a agência deixou claro, desde antes, que o plano não é deixar isso acontecer de qualquer jeito: ou o telescópio é empurrado para uma órbita mais alta, ou é derrubado de forma controlada sobre o Pacífico Sul, longe de gente.

Por que o Hubble não sobe sozinho?

Porque ele não tem motor. O telescópio foi projetado para ser visitado e reposicionado pelo ônibus espacial, e os ônibus foram aposentados em 2011. Os giroscópios que ele tem servem para apontar o telescópio, não para mudar a órbita.

Quando a NASA decide o que fazer?

Não há data anunciada para a decisão. O prazo conhecido é o das respostas das empresas, 30 de novembro de 2026. A agência diz apenas que a missão, se existir, precisa ocorrer até 2032.

Alguém pode consertar o Hubble de novo?

Tecnicamente é uma das três opções da consulta. Só que nenhuma nave comercial em operação hoje foi projetada para acoplar e fazer manutenção num telescópio que não foi feito para receber esse tipo de visita. É exatamente isso que a NASA está tentando descobrir ao perguntar ao mercado.

O Hubble ainda funciona em 2026?

Funciona. Opera em modo de um giroscópio desde junho de 2024, o que reduz a agilidade para trocar de alvo, mas não a qualidade das imagens. Ele acumula mais de 1,7 milhão de observações e mais de 23 mil artigos científicos.

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