Dá, mas é tão raro que todas as vezes em que deu certo com astronautas foram com o mesmo aparelho: o telescópio Hubble, visitado cinco vezes entre 1993 e 2009. Nenhum outro satélite científico jamais recebeu manutenção humana em órbita. O resto da indústria vem tentando fazer isso com robôs, e em 29 de outubro de 2026 a NASA publicou a edição deste ano do catálogo que acompanha o assunto: um documento de 368 páginas com tudo o que existe de concreto no mundo para consertar, montar e fabricar coisas no espaço.
A sigla desse campo é ISAM, do inglês para "serviço, montagem e fabricação no espaço". Em português simples: oficina em órbita.
As cinco vezes que deu certo
O Hubble foi lançado em 24 de abril de 1990 e é um caso único na história. Ele foi projetado desde o começo para ser visitado pelo ônibus espacial, com corrimãos, parafusos padronizados e módulos trocáveis. Resultado:
| Missão | Datas |
|---|---|
| Serviço 1 | 2 a 13 de dezembro de 1993 |
| Serviço 2 | 11 a 21 de fevereiro de 1997 |
| Serviço 3A | 19 a 27 de dezembro de 1999 |
| Serviço 3B | 1º a 12 de março de 2002 |
| Serviço 4 | 11 a 24 de maio de 2009 |
A foto de capa é da primeira delas, feita a partir do ônibus espacial Endeavour: a astronauta Kathryn C. Thornton trabalhando no Hubble em 8 de dezembro de 1993, na quarta caminhada espacial de uma missão de onze dias. Aquela foi a visita que corrigiu o defeito do espelho e salvou o telescópio — história contada em Telescópio Hubble: o que é e o que ele já descobriu.
Depois de 2009 a conta mudou: o ônibus espacial foi aposentado e, com ele, o único veículo capaz de chegar ao Hubble, agarrá-lo com um braço robótico e devolvê-lo à órbita.

Por que é tão difícil com qualquer outro satélite
A resposta curta é que quase nenhum satélite foi feito para ser consertado.
Pense na diferença entre um carro e um celular colado. O carro tem capô, parafusos acessíveis e peças padronizadas, porque alguém decidiu lá atrás que ele seria aberto a cada dez mil quilômetros. O celular moderno é colado, lacrado e com bateria interna: o projeto parte do princípio de que ninguém vai abrir.
A frota de satélites é majoritariamente celular colado. Não tem alça para o robô agarrar, não tem bocal de abastecimento, não tem conector pensado para outra mão que não a do técnico de fábrica. Esse é, inclusive, um dos motivos oficiais que a NASA registrou ao encerrar a própria missão que tentaria provar o contrário — a agência citou uma mudança no setor, que se afastou da ideia de reabastecer naves que não foram preparadas para isso.
E há o detalhe de que a oficina teria de alcançar o paciente. Cada satélite está numa órbita diferente, e mudar de órbita custa combustível, que é justamente o recurso escasso lá em cima.
O catálogo de 368 páginas, publicado em 29 de outubro de 2026
O documento se chama State of Play ("estado da arte", em tradução livre) e a NASA o publica desde 2021. A edição de 2026 tem 368 páginas e organiza tudo o que existe na área em 11 campos de atuação, da manipulação por braço robótico ao reabastecimento e à montagem de estruturas. Ele serve ao mesmo tempo de catálogo e de mapa do caminho.
Quem toca o trabalho na NASA é a equipe do portfólio de tecnologia ISAM, no Centro de Pesquisa Langley, liderada por Dale Arney. A frase dele no anúncio resume o motivo de o calhamaço ter engordado: "o campo em si se expandiu mais do que linearmente desde que começamos". Outro integrante, John Mulvaney, descreve o documento como "um documento colaborativo" — ele é montado com contribuições de quem desenvolve a tecnologia, dentro e fora dos Estados Unidos. Participam os centros Ames, Glenn, Marshall, Kennedy e Johnson, além de desenvolvedores internacionais.
A regra que torna o catálogo honesto
Esta é a melhor parte, e vale para qualquer leitor cansado de promessa de tecnologia.
Para entrar no documento, é preciso ter metal. O critério de aceitação exige que exista hardware fisicamente construído — seja um protótipo de bancada em terra, seja uma demonstração já feita em voo. Conceito sem equipamento é adiado para a revisão do ano seguinte.
Ou seja: o que está nas 368 páginas é o que alguém já construiu e pode mostrar. Não é uma lista de ideias. Num campo cheio de animação de computador e anúncio de startup, isso é um filtro severo — e é o que torna o documento útil para quem precisa decidir onde colocar dinheiro.
O robô que ia fazer tudo sozinho, e foi cancelado
A história mais instrutiva dessa área é a do OSAM-1, a missão da NASA que ia demonstrar o serviço robótico completo. O plano era ambicioso: a nave se aproximaria sozinha de um satélite do governo americano já em órbita, o agarraria, o reabasteceria e o mudaria de lugar para prolongar a vida dele.
O equipamento era impressionante:
| Peça | O que faria |
|---|---|
| Dois braços robóticos | Agarrar o satélite e operar as ferramentas |
| Braço SPIDER, de 5 metros | Montar peças em órbita (terceiro braço da nave) |
| Antena de 3 metros | Ser montada no espaço a partir de 7 pedaços, e transmitir de verdade |
| Viga de 10 metros | Ser fabricada em órbita, em material composto leve |
Repare na última linha. Não era montar uma peça levada pronta: era fabricar uma viga de dez metros no espaço, maior do que caberia em qualquer foguete já montada.

O fim veio depois de uma revisão independente do projeto, numa decisão que a página da NASA data de 29 de fevereiro — a página não escreve o ano, mas cita o orçamento do ano fiscal de 2024 na mesma passagem. A agência listou três motivos: dificuldades contínuas de técnica, custo e prazo; a tal virada do setor contra o reabastecimento de naves não preparadas; e a falta de um parceiro comprometido com a missão. O Congresso americano ainda tinha destinado US$ 227 milhões ao projeto no orçamento daquele ano e pediu que a agência avaliasse uma versão reduzida, com lançamento em 2026. A avaliação concluiu que o plano enxuto trazia risco significativo ao sucesso da missão, e o cancelamento foi mantido: em 4 de setembro a NASA comunicou o Congresso, e em 1º de outubro começou o encerramento ordenado. Depois disso, a agência abriu uma consulta ao mercado para tentar aproveitar o equipamento já construído.
É um lembrete útil de quanto custa a diferença entre protótipo e missão — assunto de Quanto custa um telescópio espacial? Os números da NASA.
Para que serve uma oficina em órbita
Se é tão difícil, por que insistir? O anúncio da NASA cita três ganhos esperados.
O primeiro é o mais impressionante: telescópios maiores do que qualquer foguete. Hoje o tamanho de um observatório espacial é limitado pela largura da carenagem, a casca que protege a carga no alto do foguete. Se der para montar peça por peça lá em cima, esse teto some.
O segundo é poder atualizar equipamento comercial em órbita, trocando um componente velho em vez de lançar um satélite novo — o que também muda a conta de quando vale a pena aposentar um aparelho, discutida em O que a NASA faz com um satélite quando ele se aposenta.
O terceiro é a aplicação militar americana, de manter ativos em órbita móveis e resistentes.
Vale encerrar com a comparação que a própria NASA escolheu: a capa do documento de 2026 traz a foto de um astronauta no braço robótico do ônibus espacial, durante a primeira visita ao Hubble, em 1993. Trinta e três anos depois, aquela continua sendo a referência do que já se conseguiu fazer — e o resto é o que se está tentando repetir sem mandar gente junto.




