No dia 5 de novembro de 2026, dois astronautas passaram quase sete horas do lado de fora da Estação Espacial Internacional para instalar o oitavo e último painel solar enrolável da estação. Com ele, uma obra que começou em 2021 chegou ao fim: a capacidade de geração de energia da estação sobe de 160 para cerca de 215 quilowatts, um aumento de 34%.
Quem fez o serviço foram o astronauta da NASA Anil Menon e o astronauta da Agência Espacial Canadense Joshua Kutryk. A caminhada espacial durou 6 horas e 59 minutos e terminou às 15h35 no horário da costa leste dos Estados Unidos, ou 17h35 em Brasília — o que significa, pela conta da duração, que os dois saíram da escotilha por volta das 10h36 de Brasília.
O que é um painel que se desenrola
Os painéis originais da estação são rígidos: pranchas articuladas que se abrem como uma sanfona gigante. Os novos, chamados de painéis solares enroláveis (a NASA usa a sigla iROSA, de International Space Station Roll-Out Solar Array), funcionam de outro jeito.
Eles viajam para o espaço enrolados num cilindro, como uma esteira de praia ou uma persiana. Já no lugar, duas hastes de material composto, que ficam comprimidas em espiral dentro do rolo, se esticam sozinhas ao serem liberadas e vão desenrolando o painel. Não há motor nenhum nesse movimento: a energia está guardada na própria haste torcida, como num brinquedo de corda.
A vantagem é dupla. Enrolado, o painel ocupa uma fração do espaço de um painel rígido equivalente — e espaço dentro de uma nave de carga é o recurso mais caro que existe. E, uma vez aberto, ele gera mais energia por metro quadrado, porque as células solares melhoraram muito desde os anos 1990.
Por que os painéis velhos precisavam de ajuda
A estação tem oito painéis solares originais, que juntos conseguem gerar até 160 quilowatts enquanto estão sob luz direta do Sol. O primeiro par foi aberto em dezembro de 2000, e o conjunto completo ficou pronto em 2009.
O detalhe é que painel solar envelhece. A radiação, os ciclos de calor e frio a cada 90 minutos de órbita e os impactos de micropartículas vão degradando as células, que passam a entregar menos do que entregavam novas. Depois de duas décadas, a perda já era grande o bastante para preocupar.
A solução escolhida é elegante: em vez de remover os painéis antigos, trabalho arriscadíssimo, os novos foram montados na frente deles, cobrindo parte da área. Os painéis velhos continuam funcionando com a parte que ficou exposta, e os novos aproveitam a estrutura, o sistema que gira os painéis atrás do Sol e a fiação que já existiam. Segundo a NASA, a reforma devolve a cada painel reforçado aproximadamente a geração que ele tinha quando foi instalado — um ganho de 20% a 30% por painel.

Os números do reforço
| Item | Valor |
|---|---|
| Painéis originais | 8 |
| Geração dos originais, sob luz do Sol | até 160 kW |
| Painéis enroláveis instalados | 8 |
| Geração de cada painel novo | mais de 20 kW |
| Capacidade total agora | cerca de 215 kW |
| Ganho | 55 kW, ou 34% |
Dados da NASA. O cálculo da variação percentual é nosso.
Para dar escala a 215 quilowatts: é o mesmo que manter ligados ao mesmo tempo cerca de 39 chuveiros elétricos de 5.500 watts. Parece muito, mas é o que mantém vivos os sistemas de suporte à vida, as bombas, os computadores, as antenas, os congeladores de amostras e dezenas de experimentos científicos de uma estrutura de 109 metros — descrita em O que é a Estação Espacial Internacional?.
E a energia não serve só para o momento. Durante cerca de um terço de cada volta, a estação passa pela sombra da Terra, e tudo precisa funcionar com baterias carregadas na parte iluminada. Por que uma bateria comum não daria conta desse serviço está explicado em Por que uma bateria comum não funciona na Lua?.
Cinco anos de obra, parcela por parcela
Esta não foi uma reforma feita de uma vez. Os painéis enroláveis foram subindo aos pares em naves de carga, desde junho de 2021, quando Shane Kimbrough e Thomas Pesquet instalaram os primeiros na viga P6 — a cena da foto acima.
Cada instalação exige uma ou duas caminhadas espaciais, e muitas vezes uma caminhada anterior só para montar o suporte onde o painel novo vai encaixar. A foto que abre este artigo, por exemplo, é de 18 de março de 2026, numa saída dedicada exatamente a isso: preparar o berço de um painel que só chegaria depois.
É assim que se reforma algo a 400 quilômetros de altura. Nada de guindaste: dois seres humanos de traje pressurizado, presos por cabos, apertando parafusos com luvas grossas, com o relógio correndo por causa do oxigênio e da bateria do traje.
Por que reformar uma estação que vai ser desativada
A pergunta é justa. A ISS tem data para acabar: a previsão é que seja desativada por volta de 2030, como conta A Estação Espacial vai cair? O fim da ISS em 2030. Faz sentido gastar caminhadas espaciais e cargueiros com painel novo?
Faz, por dois motivos. O primeiro é que a estação precisa funcionar bem até o último dia, e com energia sobrando, não contada: boa parte da ciência de maior valor está sendo feita agora, e equipamento científico consome bastante. O segundo é que energia é o gargalo de quase tudo — mais potência disponível significa mais experimentos rodando ao mesmo tempo e mais capacidade para receber as naves comerciais que a visitam.
Há ainda um terceiro motivo, menos óbvio. O que vier depois da ISS vai precisar dessa tecnologia funcionando e testada em voo, e os projetos em disputa estão em Qual estação espacial vai substituir a ISS?. Painel enrolável é leve, compacto no lançamento e simples de abrir — exatamente o que uma estação menor, lançada em poucas peças, vai querer.




