Tecnologia e negócios

A Estação Espacial ganhou o último painel solar novo

Em 5 de novembro de 2026, dois astronautas instalaram o oitavo e último painel enrolável da ISS. A energia da estação sobe de 160 para 215 quilowatts.

Publicado em 5 min de leitura
Compartilhar:
Vista ao longo de dois painéis solares enroláveis da Estação Espacial, apontando para a Terra coberta de nuvens
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. O que é um painel que se desenrola
  2. Por que os painéis velhos precisavam de ajuda
  3. Os números do reforço
  4. Cinco anos de obra, parcela por parcela
  5. Por que reformar uma estação que vai ser desativada

No dia 5 de novembro de 2026, dois astronautas passaram quase sete horas do lado de fora da Estação Espacial Internacional para instalar o oitavo e último painel solar enrolável da estação. Com ele, uma obra que começou em 2021 chegou ao fim: a capacidade de geração de energia da estação sobe de 160 para cerca de 215 quilowatts, um aumento de 34%.

Quem fez o serviço foram o astronauta da NASA Anil Menon e o astronauta da Agência Espacial Canadense Joshua Kutryk. A caminhada espacial durou 6 horas e 59 minutos e terminou às 15h35 no horário da costa leste dos Estados Unidos, ou 17h35 em Brasília — o que significa, pela conta da duração, que os dois saíram da escotilha por volta das 10h36 de Brasília.

O que é um painel que se desenrola

Os painéis originais da estação são rígidos: pranchas articuladas que se abrem como uma sanfona gigante. Os novos, chamados de painéis solares enroláveis (a NASA usa a sigla iROSA, de International Space Station Roll-Out Solar Array), funcionam de outro jeito.

Eles viajam para o espaço enrolados num cilindro, como uma esteira de praia ou uma persiana. Já no lugar, duas hastes de material composto, que ficam comprimidas em espiral dentro do rolo, se esticam sozinhas ao serem liberadas e vão desenrolando o painel. Não há motor nenhum nesse movimento: a energia está guardada na própria haste torcida, como num brinquedo de corda.

A vantagem é dupla. Enrolado, o painel ocupa uma fração do espaço de um painel rígido equivalente — e espaço dentro de uma nave de carga é o recurso mais caro que existe. E, uma vez aberto, ele gera mais energia por metro quadrado, porque as células solares melhoraram muito desde os anos 1990.

Por que os painéis velhos precisavam de ajuda

A estação tem oito painéis solares originais, que juntos conseguem gerar até 160 quilowatts enquanto estão sob luz direta do Sol. O primeiro par foi aberto em dezembro de 2000, e o conjunto completo ficou pronto em 2009.

O detalhe é que painel solar envelhece. A radiação, os ciclos de calor e frio a cada 90 minutos de órbita e os impactos de micropartículas vão degradando as células, que passam a entregar menos do que entregavam novas. Depois de duas décadas, a perda já era grande o bastante para preocupar.

A solução escolhida é elegante: em vez de remover os painéis antigos, trabalho arriscadíssimo, os novos foram montados na frente deles, cobrindo parte da área. Os painéis velhos continuam funcionando com a parte que ficou exposta, e os novos aproveitam a estrutura, o sistema que gira os painéis atrás do Sol e a fiação que já existiam. Segundo a NASA, a reforma devolve a cada painel reforçado aproximadamente a geração que ele tinha quando foi instalado — um ganho de 20% a 30% por painel.

Dois astronautas trabalhando na instalação de um painel solar enrolável, pequeno e escuro, montado na frente dos painéis brancos originais da estação
Junho de 2021: Shane Kimbrough e Thomas Pesquet instalam um dos primeiros painéis enroláveis na viga P6. Dá para ver a ideia inteira na foto — os painéis novos, escuros e bem menores, montados na frente dos painéis brancos originais, que são gigantes. Foto: NASA/JSC

Os números do reforço

Item Valor
Painéis originais 8
Geração dos originais, sob luz do Sol até 160 kW
Painéis enroláveis instalados 8
Geração de cada painel novo mais de 20 kW
Capacidade total agora cerca de 215 kW
Ganho 55 kW, ou 34%

Dados da NASA. O cálculo da variação percentual é nosso.

Para dar escala a 215 quilowatts: é o mesmo que manter ligados ao mesmo tempo cerca de 39 chuveiros elétricos de 5.500 watts. Parece muito, mas é o que mantém vivos os sistemas de suporte à vida, as bombas, os computadores, as antenas, os congeladores de amostras e dezenas de experimentos científicos de uma estrutura de 109 metros — descrita em O que é a Estação Espacial Internacional?.

E a energia não serve só para o momento. Durante cerca de um terço de cada volta, a estação passa pela sombra da Terra, e tudo precisa funcionar com baterias carregadas na parte iluminada. Por que uma bateria comum não daria conta desse serviço está explicado em Por que uma bateria comum não funciona na Lua?.

Cinco anos de obra, parcela por parcela

Esta não foi uma reforma feita de uma vez. Os painéis enroláveis foram subindo aos pares em naves de carga, desde junho de 2021, quando Shane Kimbrough e Thomas Pesquet instalaram os primeiros na viga P6 — a cena da foto acima.

Cada instalação exige uma ou duas caminhadas espaciais, e muitas vezes uma caminhada anterior só para montar o suporte onde o painel novo vai encaixar. A foto que abre este artigo, por exemplo, é de 18 de março de 2026, numa saída dedicada exatamente a isso: preparar o berço de um painel que só chegaria depois.

É assim que se reforma algo a 400 quilômetros de altura. Nada de guindaste: dois seres humanos de traje pressurizado, presos por cabos, apertando parafusos com luvas grossas, com o relógio correndo por causa do oxigênio e da bateria do traje.

Por que reformar uma estação que vai ser desativada

A pergunta é justa. A ISS tem data para acabar: a previsão é que seja desativada por volta de 2030, como conta A Estação Espacial vai cair? O fim da ISS em 2030. Faz sentido gastar caminhadas espaciais e cargueiros com painel novo?

Faz, por dois motivos. O primeiro é que a estação precisa funcionar bem até o último dia, e com energia sobrando, não contada: boa parte da ciência de maior valor está sendo feita agora, e equipamento científico consome bastante. O segundo é que energia é o gargalo de quase tudo — mais potência disponível significa mais experimentos rodando ao mesmo tempo e mais capacidade para receber as naves comerciais que a visitam.

Há ainda um terceiro motivo, menos óbvio. O que vier depois da ISS vai precisar dessa tecnologia funcionando e testada em voo, e os projetos em disputa estão em Qual estação espacial vai substituir a ISS?. Painel enrolável é leve, compacto no lançamento e simples de abrir — exatamente o que uma estação menor, lançada em poucas peças, vai querer.

Perguntas frequentes

O que é o iROSA da Estação Espacial?

É o painel solar enrolável da estação, sigla em inglês para International Space Station Roll-Out Solar Array. Ele sobe enrolado num cilindro e se abre sozinho no espaço, puxado por hastes de material composto que estavam comprimidas em espiral. Cada um gera mais de 20 quilowatts.

Quantos painéis solares novos a Estação Espacial recebeu?

Oito. O último foi instalado em 5 de novembro de 2026, numa caminhada espacial de 6 horas e 59 minutos feita por Anil Menon, da NASA, e Joshua Kutryk, da Agência Espacial Canadense. Com ele, a série de reforço de energia foi concluída.

Quanta energia a Estação Espacial gera agora?

A capacidade de geração passou de cerca de 160 quilowatts, com os oito painéis originais sob luz do Sol, para aproximadamente 215 quilowatts depois da instalação dos oito painéis enroláveis. É um aumento de 55 quilowatts, ou 34%.

Os painéis antigos foram retirados?

Não. Os novos foram montados na frente dos antigos, cobrindo parte da área. Os originais continuam gerando com a parte que ficou exposta, e os novos aproveitam a estrutura, o mecanismo que gira os painéis atrás do Sol e a fiação que já existiam.

Por que os painéis solares da estação perderam potência?

Por envelhecimento natural. A radiação, os ciclos de calor e frio a cada volta de 90 minutos e os impactos de micropartículas degradam as células solares ao longo dos anos. Os painéis originais começaram a ser abertos em dezembro de 2000.

Gostou? Compartilhe: WhatsAppFacebookTelegramX

Leia também

Mais em Tecnologia
  • Tecnologia

    O que é uma vela solar e ela funciona mesmo?

    Uma vela solar é uma folha gigante, fina e espelhada que uma nave abre no espaço para ser empurrada pela luz do Sol. Não é força do vento, não é painel solar gerando…

    ·7 min de leitura
  • Tecnologia

    O que é a órbita Molniya e por que ela existe

    A órbita Molniya é uma órbita muito alongada, com volta completa em cerca de 12 horas e inclinação de 63,4 graus, inventada pelos russos para resolver um problema que o Brasil…

    ·7 min de leitura
  • Tecnologia

    O que é uma sonda espacial? A explicação simples

    Uma sonda espacial é uma nave-robô que viaja até outro mundo sem ninguém dentro. Ela sai da Terra, cruza o espaço por meses ou anos, chega perto de um planeta, de uma lua, de…

    ·7 min de leitura
  • Tecnologia

    O que é um satélite e como ele funciona?

    Satélite é qualquer corpo que gira em volta de outro maior. A Lua é um satélite natural da Terra; a Terra é um satélite do Sol. Quando a gente diz "satélite" no dia a dia,…

    ·6 min de leitura