Todo mundo que já tentou dar partida no carro numa manhã muito fria sabe que bateria não gosta de frio. Agora multiplique isso: no polo sul da Lua, a temperatura durante a noite despenca para cerca de −200 °C. Uma bateria de celular ou de carro elétrico levada para lá não ficaria só preguiçosa — o líquido dentro dela congelaria, e o estrago seria permanente.
É por isso que a NASA está desenvolvendo um tipo diferente de bateria, sem líquido nenhum por dentro, e em 14 de outubro de 2026 a agência divulgou os resultados dos testes mais recentes: as células protótipo funcionaram de 80 °C positivos até 60 °C negativos, e seguiram funcionando, com desempenho um pouco menor, até −80 °C. É a primeira vez que se prova isso.
O problema está no líquido
Uma bateria de íon de lítio — a do seu celular, do seu notebook, da furadeira, do carro elétrico — tem três partes essenciais: dois eletrodos e, entre eles, um eletrólito, que é o meio por onde as partículas carregadas viajam de um lado para o outro. Nas baterias comuns, esse eletrólito é líquido.
E é esse líquido que cria três problemas de uma vez fora da Terra:
- No frio extremo, ele congela. Resfriada às temperaturas da noite lunar, a bateria pode ser danificada de forma irreversível.
- No calor, ela para. A NASA aponta que, aquecida às temperaturas do dia lunar, que chegam a 100 °C, a bateria comum simplesmente deixa de funcionar até esfriar.
- No vácuo, ele evapora. Exposto ao vácuo do espaço, o líquido vai embora.
Some a isso a exigência de não pegar fogo. Dentro de uma cabine pressurizada, com oxigênio e sem bombeiro por perto, um incêndio de bateria é um problema de outra ordem. O comportamento do fogo em gravidade zero, aliás, é tão diferente do daqui que surpreende, como mostra Como o fogo queima no espaço? A chama vira uma bola.
A ideia: trocar o líquido por um sólido
O projeto da NASA se chama SPEARS, sigla em inglês para algo como "energia em estado sólido para adaptabilidade e resistência em ambientes extremos". Ele é liderado pelo centro de pesquisas Glenn, em Cleveland, com testes no centro Langley, na Virgínia, e participação do centro Ames, na Califórnia, que desenvolve os equipamentos para levar essas baterias ao espaço.
A mudança é conceitualmente simples: substituir o eletrólito líquido por um material sólido, de cerâmica ou de polímero. Como sólido não congela do jeito que um líquido congela, nem evapora no vácuo, os três problemas da lista acima desaparecem de uma vez. E, sem líquido inflamável, o risco de incêndio cai.
A analogia que ajuda: é a diferença entre transportar leite numa garrafa aberta e transportar leite em pó. O conteúdo que interessa continua lá; o que muda é que um deles não vaza, não evapora e não vira pedra quando congela.

O que os testes mostraram
Os protótipos — pequenas células no formato de moeda — passaram por testes de vácuo térmico no centro Langley, câmaras que reproduzem o vácuo e as temperaturas do espaço ao mesmo tempo. Os resultados divulgados pela NASA:
| Condição testada | Resultado |
|---|---|
| Até 80 °C positivos | Funcionou bem |
| Até 60 °C negativos | Funcionou bem |
| Até 80 °C negativos | Funcionou com desempenho um pouco reduzido |
| Exposição de 100 °C a −170 °C | Não sofreu dano |
"Provamos, pela primeira vez, que essas células conseguem funcionar a 80 graus Celsius negativos", disse Yi Lin, responsável pelos testes no Langley.
O segundo resultado é tão importante quanto o primeiro, e é fácil passar batido: a bateria sobreviveu ao vaivém entre 100 °C e −170 °C sem estragar. Numa missão lunar, o equipamento não escolhe a temperatura — ele atravessa o dia e a noite da Lua ciclo após ciclo. Aguentar o extremo uma vez é pouco; aguentar a oscilação é o que vale.
Vale a ressalva, que a própria NASA faz: nem a bateria de estado sólido funciona enquanto está a −170 °C. A diferença é que ela não se destrói no processo. Para voltar a operar, basta aquecê-la.
O detalhe que economiza peso de foguete
Esse "basta aquecê-la" parece pouco e é, na verdade, o ponto mais valioso de toda a história.
Hoje, manter uma bateria viva num ambiente extremo exige um sistema de controle térmico que a mantenha aquecida o tempo todo — tubulação, isolamento, radiadores, energia gasta continuamente. Com a bateria de estado sólido, a NASA diz que bastam aquecedores pequenos, acionados só na hora de usar.
Menos sistema térmico significa projeto mais leve, custo menor e missão mais longa. E em voo espacial, peso é a moeda de tudo: cada quilo que não sobe é um quilo que pode virar outra coisa. É o mesmo raciocínio que explica por que a NASA vai buscar água na própria Lua em vez de levá-la, como se conta em Tem água na Lua? Onde está o gelo e quanto tem.

Onde essas baterias vão trabalhar
A lista de usos que a NASA imagina é bem concreta:
- Furadeiras e ferramentas que precisem funcionar dentro de crateras em sombra permanente, onde o Sol nunca bate;
- Jipes-robôs capazes de explorar esses mesmos fundos de cratera escuros;
- Kits de emergência de astronauta, que têm de funcionar na hora, sem aviso;
- Instrumentos científicos de longa duração, deixados para trabalhar sozinhos por anos.
Repare no padrão: são todos equipamentos móveis ou isolados, longe de uma fonte de energia grande. Para a base em si, a aposta é outra, e está explicada em Por que a NASA quer um reator nuclear na Lua?. As sondas que vão para longe do Sol têm ainda uma terceira solução, descrita em Por que as sondas da NASA usam energia nuclear?.
Essas crateras escuras do polo sul são justamente o destino das próximas missões tripuladas, pelo motivo mais prático possível: é lá que está o gelo. O plano está em Artemis III: quando vamos pisar na Lua de novo.
O que pode sobrar disso aqui embaixo
Há um detalhe desta história que costuma se repetir na pesquisa espacial. O projeto SPEARS nasceu de um trabalho anterior voltado à aviação, e a equipe já fala em levar a tecnologia de volta para aplicações terrestres.
"O mercado potencial para baterias de estado sólido é muito amplo", disse Ji Su, cientista de materiais poliméricos do Langley. "Automóveis, celulares, aparelhos de comunicação, drones — qualquer coisa que precise de fonte de energia portátil."
E há uma flexibilidade útil, explicada por Yi Lin com uma comparação do dia a dia: dá para ajustar a química trocando os materiais dos eletrodos, "assim como a química do seu fone de ouvido é diferente da química do seu celular, que é diferente da química do seu carro". A mesma base sólida serve para priorizar energia, potência ou durabilidade, conforme o uso.
O projeto começou em 2026 e está na fase de desenvolvimento de tecnologia, com a possibilidade de parceria comercial depois. Em outras palavras: é promissora e é cedo. Não existe ainda uma bateria dessas rodando na Lua.




