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Por que as sondas da NASA usam energia nuclear?

A 5 vezes a distância do Sol, um painel solar quase não funciona. Veja como um punhado de plutônio mantém a Voyager viva há 49 anos.

Publicado em 8 min de leitura
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Os dois geradores de radioisótopo da sonda Voyager, cilindros escuros com aletas, montados numa estrutura de teste antes do lançamento
Foto: NASA/JPL-Caltech
Neste artigo
  1. A luz do Sol some muito mais rápido do que parece
  2. O que é, afinal, um gerador de radioisótopo
  3. Os números do gerador que está em Marte agora
  4. Não é um reator, e a diferença importa
  5. Quem usa painel e quem usa plutônio
  6. É seguro lançar plutônio num foguete?
  7. O preço: a energia acaba devagar, e a missão morre junto

As sondas que vão longe usam energia nuclear por um motivo muito simples: a luz do Sol acaba. Não de repente, mas rápido — a intensidade cai com o quadrado da distância, e em Júpiter já sobra menos de 4% do que chega à Terra. Em vez de painéis solares, essas missões levam um gerador de radioisótopo, um bloco fechado de plutônio-238 que produz calor ao se desintegrar e transforma parte desse calor em eletricidade. Não é um reator, não tem reação em cadeia e não pode ser desligado. É o que mantém a Voyager 1 falando com a Terra há 49 anos.

A luz do Sol some muito mais rápido do que parece

A conta que explica tudo tem uma linha só: se você dobra a distância até o Sol, a luz que chega numa mesma área cai para um quarto. É a mesma regra do abajur do quarto — afastar dois passos não deixa a página metade mais escura, deixa quatro vezes mais escura.

Aplicando isso ao Sistema Solar, com a distância Terra–Sol valendo 1 (é a chamada unidade astronômica, ou UA, cerca de 150 milhões de km):

Onde Distância do Sol Luz solar disponível
Terra 1 UA 100%
Marte 1,52 UA 43%
Júpiter 5,2 UA 3,7%
Saturno 9,5 UA 1,1%
Urano 19,2 UA 0,27%
Netuno 30,1 UA 0,11%
Plutão 39,5 UA 0,064%
Voyager 1 hoje 171,8 UA 0,0034%

Em Plutão, um painel solar rende um milésimo e meio do que renderia na Terra. Para uma sonda que precisa de umas centenas de watts, isso exigiria uma área de painel maior que um campo de futebol — que teria de ser dobrada, lançada e desdobrada sem falhar. Ninguém faz isso.

O que é, afinal, um gerador de radioisótopo

Um radioisótopo é uma variedade instável de um elemento químico: com o tempo, os átomos dele se desmancham sozinhos e liberam energia nesse processo. O plutônio-238 é um radioisótopo que se desmancha de um jeito muito conveniente para o espaço: solta principalmente partículas alfa, que são barradas por uma folha de papel, e quase nada de raio gama, que é o tipo penetrante e perigoso. Ou seja: é fácil de blindar.

Essa desintegração aquece o material. O plutônio-238 de um gerador fica permanentemente a algumas centenas de graus, sem chama, sem combustível e sem nada girando. Em volta dele vão centenas de termopares — pares de metais diferentes que geram uma pequena voltagem quando um lado está quente e o outro frio. Junte muitos termopares e você tem eletricidade de verdade.

A analogia mais próxima do dia a dia é um saco de areia quente na praia: ele não faz nada, não tem botão, só vai devolvendo calor por horas. A diferença é que o plutônio-238 faz isso por décadas.

Técnicos de macacão branco encaixando o gerador de radioisótopo na traseira do jipe-robô Perseverance, numa sala limpa
O gerador é literalmente aparafusado na traseira do jipe-robô. O calor que sobra dele também serve para manter os instrumentos aquecidos nas noites marcianas de −80 °C. Foto: NASA/JPL-Caltech/KSC/DOE

Os números do gerador que está em Marte agora

O modelo em uso hoje se chama MMRTG, sigla em inglês para gerador termoelétrico de radioisótopo multimissão. É o mesmo que alimenta os jipes-robôs Curiosity e Perseverance. Os números são da própria NASA:

O que Quanto Comparação do dia a dia
Combustível 4,8 kg de dióxido de plutônio Menos que um botijão pequeno de gás, em peso
Calor produzido ~2.000 watts Um secador de cabelo ligado, sem parar, para sempre
Eletricidade no começo ~110 watts Menos do que consome uma televisão grande
Vida de projeto 14 anos, mais 3 de estoque Curiosity já passou disso e continua

Olhe de novo para as duas linhas do meio: 2.000 watts de calor entram, 110 watts de eletricidade saem. O rendimento é de 5,5% — ou seja, 95% da energia vira calor jogado fora. Um painel solar converte uma fatia bem maior da energia que recebe. Em eficiência pura, o gerador nuclear é, de longe, a pior máquina das duas. Ele ganha em outra coisa: funciona no escuro, na poeira, no frio e por décadas, sem nenhuma peça móvel.

E aquele calor "jogado fora" não é totalmente desperdiçado: ele aquece a eletrônica do jipe-robô durante as noites marcianas, quando a temperatura despenca. Um jipe a energia solar precisaria gastar a própria eletricidade só para não congelar.

Não é um reator, e a diferença importa

Muita gente lê "energia nuclear no espaço" e imagina uma usina em miniatura. Não é isso.

Uma usina nuclear funciona por fissão: um nêutron quebra um átomo pesado, isso solta outros nêutrons, que quebram outros átomos, numa reação em cadeia que precisa ser controlada o tempo todo. Um gerador de radioisótopo não tem nada disso. Ele usa o decaimento natural: cada átomo se desmancha na hora dele, sem influência dos vizinhos, e ninguém pode acelerar nem frear o processo.

A consequência prática é que não existe botão de liga e desliga. Desde o dia em que o plutônio é encapsulado, na fábrica, ele já está produzindo calor — dentro do galpão, dentro do foguete, no caminho e no destino. Não pode derreter, não pode explodir e não pode disparar. Simplesmente vai esfriando devagar, durante o resto da vida útil.

Quem usa painel e quem usa plutônio

A escolha não é ideológica, é aritmética. Quando dá para usar painel solar, usa-se painel solar: é mais barato, o plutônio-238 é raro e caro de produzir, e o processo de aprovação de uma missão nuclear é longo.

O contraste mais bonito é o da Europa Clipper, que foi para Júpiter a energia solar e mostrou o preço disso. Cada uma das duas asas dela tem 14,2 m de comprimento por 4,1 m de altura, e a sonda aberta mede mais de 30 metros de ponta a ponta, o comprimento de uma quadra de basquete. Todo esse tamanho serve para produzir, em Júpiter, cerca de 700 watts — o consumo de um micro-ondas pequeno. Três geradores MMRTG, que cabem juntos num armário, entregariam metade disso sem nenhuma asa.

Missão Fonte de energia Por quê
Estação Espacial e satélites Painel solar Estão em órbita da Terra, com luz de sobra
Juno, em Júpiter Painel solar (3 asas de 9 m) Órbita escolhida para ficar sempre no Sol
Europa Clipper Painel solar (30,5 m de envergadura) Deu certo, mas exigiu as maiores asas já feitas
Curiosity e Perseverance Gerador de radioisótopo Poeira e noite marciana matariam um painel
Voyager 1 e 2, New Horizons Gerador de radioisótopo Longe demais: a luz não dá conta
Cassini, Galileo Gerador de radioisótopo Anos de trabalho a 9,5 UA do Sol

A NASA já lançou 24 missões com esse tipo de gerador em 57 anos, e cinco continuam funcionando: Voyager 1, Voyager 2, New Horizons, Curiosity e Perseverance. E a lista deve crescer: o foguete que vai decolar de Marte no projeto de trazer amostras para a Terra também foi redesenhado para usar um gerador de radioisótopo no lugar de painéis, justamente para atravessar a estação de tempestades de poeira.

Um foguete Atlas V decolando de Cabo Canaveral com o mar ao fundo, levando a sonda New Horizons
O lançamento da New Horizons em janeiro de 2006. Ela leva cerca de 11 kg de óxido de plutônio a bordo, segundo o Departamento de Energia dos Estados Unidos Foto: NASA/KSC

É seguro lançar plutônio num foguete?

É a pergunta certa, e a resposta honesta tem duas partes.

A primeira é que o material não vai solto. O plutônio vai em forma cerâmica, parecida com uma pastilha dura, e não em pó — cerâmica quebra em pedaços grandes, não vira poeira respirável. Cada pastilha é revestida de irídio, um metal que só derrete acima de 2.660 °C, e vai dentro de blocos projetados para aguentar tanto a explosão de um foguete quanto a reentrada na atmosfera e a batida no chão. Todo lançamento com material nuclear passa por uma revisão de segurança em três níveis, envolvendo NASA, Departamento de Energia, agência ambiental e outros órgãos americanos.

A segunda parte é que risco zero não existe, e a própria NASA publica o histórico, que vale conhecer inteiro:

  • 1964. O lançamento do satélite Transit 5-BN-3 foi abortado na subida. O gerador queimou na reentrada como o projeto da época previa e espalhou o plutônio na alta atmosfera. Naquele tempo, desintegrar era considerado o comportamento desejado em caso de acidente.
  • 1968. O lançamento do satélite meteorológico Nimbus B-1 foi abortado logo depois da decolagem. Desta vez o gerador conteve o combustível, o recipiente foi recuperado inteiro e o plutônio foi reaproveitado numa missão seguinte.
  • 1970. O módulo lunar da Apollo 13, que levava um gerador, caiu em água profunda no Pacífico. Não se detectou liberação de radiação.

Ou seja: houve um acidente com dispersão, há sessenta anos, com um projeto que hoje não existe mais — e desde a mudança de filosofia a contenção funcionou nas duas vezes em que foi testada de verdade. É pouco para garantir qualquer coisa e é honesto o bastante para não fingir que o assunto é trivial.

O preço: a energia acaba devagar, e a missão morre junto

O plutônio-238 tem meia-vida de 88 anos: a cada 88 anos, metade dos átomos já se desmanchou. Isso parece confortável, mas o gerador envelhece mais rápido que o combustível, porque os termopares também se degradam.

A Voyager 1 é o exemplo vivo. Ela perde cerca de 4 watts por ano, e a NASA vem desligando instrumento por instrumento para esticar o que sobra. É por isso que uma nave que funciona perfeitamente pode simplesmente ficar sem energia para ligar o transmissor. A história completa dessa conta regressiva está em Onde está a Voyager 1 hoje? A nave mais distante de nós, e o desafio de ouvir um sinal tão fraco está em Como a NASA conversa com sondas a bilhões de km daqui.

Vale também a comparação de tempo: uma sonda que leva anos só para chegar ao destino precisa de uma fonte que ainda esteja de pé na chegada. Quanto tempo é isso, na prática, está em Quanto tempo leva para chegar a Júpiter e a Saturno?. E a sonda que hoje orbita Júpiter a energia solar, mostrando que dá para fugir do plutônio quando a órbita ajuda, aparece em Europa: a lua de Júpiter com um oceano escondido.

Perguntas frequentes

O que é um RTG, o gerador que a NASA usa nas sondas?

RTG é a sigla em inglês de gerador termoelétrico de radioisótopo. É um bloco fechado com plutônio-238, que produz calor ao se desintegrar naturalmente, cercado por termopares que convertem parte desse calor em eletricidade. Não tem peça móvel, não precisa de luz e funciona por décadas.

Uma sonda com energia nuclear pode explodir?

Não. Um gerador de radioisótopo não faz reação em cadeia, que é o mecanismo das usinas e das bombas. Ele só aproveita o calor de átomos que se desmancham sozinhos, um a um. Não existe jeito de acelerar esse processo, então não existe explosão nuclear possível.

Por que a NASA não usa painel solar em todas as missões?

Porque a luz do Sol cai com o quadrado da distância. Em Júpiter sobram 3,7% da luz que chega à Terra e em Plutão sobram 0,064%. Além disso, painel não funciona à noite, não funciona coberto de poeira e não aquece a eletrônica no frio — três problemas que um jipe-robô em Marte enfrenta todo dia.

Quanto tempo dura a energia de uma sonda nuclear?

O projeto atual prevê 14 anos, mas na prática dura muito mais: todas as missões da NASA com esse tipo de gerador foram estendidas além do prazo original. As Voyager foram lançadas em 1977 e continuam transmitindo em 2026, com a potência caindo cerca de 4 watts por ano.

Quantas missões já usaram energia nuclear no espaço?

Vinte e quatro missões da NASA voaram com geradores de radioisótopo em 57 anos de uso. Cinco continuam ativas: Voyager 1, Voyager 2, New Horizons, Curiosity e Perseverance.

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