A órbita Molniya é uma órbita muito alongada, com volta completa em cerca de 12 horas e inclinação de 63,4 graus, inventada pelos russos para resolver um problema que o Brasil simplesmente não tem: a órbita geoestacionária, a que mantém o satélite parado no céu, funciona mal para quem mora muito longe do equador. Num país como a Rússia, o satélite "parado" fica tão baixo no horizonte que qualquer morro atrapalha. A solução foi abandonar a ideia de ficar parado e trocá-la por outra: fazer o satélite subir muito alto sobre o hemisfério norte e demorar para descer.
O problema que a órbita parada não resolve
A órbita mais famosa das telecomunicações é a geoestacionária. Um satélite colocado a cerca de 36.000 km acima da superfície — ou 42.164 km contados do centro da Terra — dá uma volta em 23 horas, 56 minutos e 4 segundos, exatamente o tempo que a Terra leva para girar uma vez. Como os dois giram juntos, o satélite parece imóvel no céu. É por isso que a antena parabólica de TV não precisa de motor: ela é apontada uma vez e fica ali para sempre, como explicamos em O que é uma órbita? E por que existem várias.
Só que esse truque tem uma condição escondida: o satélite precisa estar sobre o equador. Se ele saísse do plano equatorial, deixaria de parecer parado e começaria a desenhar um oito no céu.
E aí vem a consequência geométrica. Quem está no equador vê o satélite geoestacionário bem no alto, quase a pino. Quem está em São Paulo o vê alto, mas inclinado para o norte. Quem está em Moscou, a 55 graus de latitude, o vê baixo, raspando o horizonte. E quem mora mais ao norte ainda, numa cidade russa do Ártico, pode simplesmente não vê-lo: o satélite fica abaixo da linha do horizonte, escondido pela própria curvatura da Terra.
A NASA descreve isso sem rodeios no catálogo de órbitas que publica: as latitudes bem ao norte e bem ao sul ficam na borda do campo de visão de um satélite geoestacionário, e é exatamente essa lacuna que a órbita Molniya existe para preencher.
A solução: uma órbita bem torta
Em vez de um círculo sobre o equador, a Molniya é uma elipse bastante alongada e bastante inclinada. A NASA registra os dois números que a definem: inclinação de 63,4 graus e excentricidade de 0,722.
Vale traduzir o segundo número, porque ele é o coração da coisa. Excentricidade é o quanto uma órbita foge do círculo. Zero é um círculo perfeito. Quanto mais perto de 1, mais achatada e alongada é a elipse. Um valor de 0,722 é muito alto: significa que o satélite passa pertinho da Terra num extremo da órbita e muito, muito longe no outro.
A analogia que funciona é a de uma pedra atirada bem forte para cima. Ela sai rápido, vai perdendo velocidade conforme sobe, fica quase parada no ponto mais alto — aquele instante em que parece flutuar — e depois desce acelerando de novo. A Molniya faz isso, só que a "pedra" é um satélite e o ponto mais alto fica sobre a Rússia.
A lei que faz o satélite se demorar lá em cima
Aqui está o detalhe que transforma uma órbita torta numa solução de engenharia.
Num percurso elíptico, o satélite não anda sempre na mesma velocidade. Perto da Terra, onde a gravidade é mais forte, ele corre. Longe, onde a gravidade é mais fraca, ele se arrasta. É a mesma regra que vale para todas as órbitas e que a própria NASA resume assim no catálogo: órbitas mais altas se movem mais devagar.
O resultado prático é espetacular. Como o satélite passa correndo pelo trecho baixo e se arrasta pelo trecho alto, ele gasta cerca de dois terços de cada volta sobre um único hemisfério. Em números: numa volta de 12 horas, são aproximadamente 8 horas úteis sobre a região que interessa e 4 horas do outro lado, passando depressa.
Oito horas é tempo suficiente para que o esquema funcione com poucos satélites. Com três deles espaçados na mesma órbita, sempre há um "estacionado" lá em cima, e a antena no chão só precisa trocar de alvo três vezes por dia — bem mais barato do que manter uma constelação inteira, como a que atende o Brasil pela internet via satélite descrita em Starlink no Brasil: preço, velocidade e se vale a pena.

Os números, lado a lado
A Molniya fica mais fácil de entender quando aparece ao lado das outras órbitas do mesmo catálogo da NASA.
| Órbita | Altura | Tempo de uma volta | Para que serve |
|---|---|---|---|
| Baixa (exemplo: satélite Aqua) | Cerca de 705 km | Cerca de 99 minutos | Observar a Terra de perto |
| Semissíncrona (GPS) | Cerca de 20.200 km da superfície | 12 horas | Navegação |
| Molniya | Elipse: baixa de um lado, muito alta do outro | Cerca de 12 horas | Comunicação em latitude alta |
| Geoestacionária | Cerca de 36.000 km da superfície | 23 h 56 min 4 s | TV, meteorologia, comunicação |
Repare que a Molniya e a órbita do GPS têm o mesmo período de 12 horas e servem para coisas completamente diferentes. A do GPS é quase circular, então o satélite anda sempre na mesma velocidade e cruza o céu sem parar — o que é justamente o que a navegação precisa, como contamos em Como o GPS sabe onde você está (satélites explicados). A Molniya é esticada, então o satélite se demora. Mesma duração, comportamentos opostos.
O ângulo de 63,4 graus
Esse número aparece sempre, sem variação, em toda descrição dessa órbita. Não é um ângulo redondo nem uma escolha de conveniência: é um valor específico, com duas casas de precisão, que caracteriza a família Molniya.
Uma honestidade aqui: a página da NASA que traz o número não explica por que esse ângulo em particular, e não vamos inventar uma explicação para preencher a lacuna. O que o catálogo diz é que a combinação de alta inclinação com alta excentricidade é o que define a órbita, e que ela foi inventada pelos russos. O efeito prático, esse sim está documentado: o satélite percorre sempre o mesmo caminho sobre o solo a cada 24 horas, o que permite planejar as antenas de terra com antecedência.
Quem usa isso hoje
A órbita leva o nome dos satélites de comunicação soviéticos que a estrearam, e segue em uso. A NASA cita dois usuários: satélites de comunicação russos e os satélites da Sirius, empresa de rádio por assinatura que atende o território norte-americano, incluindo o Alasca.
O caso do Alasca é o resumo do problema inteiro: é território dos Estados Unidos, mas fica tão ao norte que o satélite geoestacionário americano, parado sobre o equador, já não serve direito.
E o Brasil, que não tem esse problema
Esta é a parte em que a geografia trabalha a nosso favor. O Brasil vai de cerca de 5 graus norte, em Roraima, a 33 graus sul, no Chuí. É tudo perto do equador em comparação com a Rússia, o Canadá ou a Escandinávia.
Para quem mora aqui, o satélite geoestacionário aparece confortavelmente alto no céu, e isso tem uma consequência que está na casa de milhões de brasileiros: a antena parabólica aponta para o norte e nunca se mexe. Ninguém no Brasil precisa de um prato giratório perseguindo satélite, nem de três satélites revezando em órbita torta. A órbita Molniya é uma solução brilhante para um problema que não é nosso.
E a mesma proximidade do equador que resolve a vida da antena de TV é o que torna o litoral do Maranhão tão valioso para lançar foguetes — a vantagem explicada em Alcântara: por que a base brasileira é cobiçada no mundo todo. Estar perto da linha do equador ajuda duas vezes: para receber sinal de cima e para mandar carga para cima.




