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O que é a órbita Molniya e por que ela existe

A antena de TV no Brasil fica parada apontando para o norte. Na Sibéria isso não funciona. Entenda a órbita torta que os russos inventaram para resolver.

Publicado em 7 min de leitura
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Satélite de comunicação como um ponto escuro em órbita acima da Terra azul coberta de nuvens, com o preto do espaço acima do horizonte
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. O problema que a órbita parada não resolve
  2. A solução: uma órbita bem torta
  3. A lei que faz o satélite se demorar lá em cima
  4. Os números, lado a lado
  5. O ângulo de 63,4 graus
  6. Quem usa isso hoje
  7. E o Brasil, que não tem esse problema

A órbita Molniya é uma órbita muito alongada, com volta completa em cerca de 12 horas e inclinação de 63,4 graus, inventada pelos russos para resolver um problema que o Brasil simplesmente não tem: a órbita geoestacionária, a que mantém o satélite parado no céu, funciona mal para quem mora muito longe do equador. Num país como a Rússia, o satélite "parado" fica tão baixo no horizonte que qualquer morro atrapalha. A solução foi abandonar a ideia de ficar parado e trocá-la por outra: fazer o satélite subir muito alto sobre o hemisfério norte e demorar para descer.

O problema que a órbita parada não resolve

A órbita mais famosa das telecomunicações é a geoestacionária. Um satélite colocado a cerca de 36.000 km acima da superfície — ou 42.164 km contados do centro da Terra — dá uma volta em 23 horas, 56 minutos e 4 segundos, exatamente o tempo que a Terra leva para girar uma vez. Como os dois giram juntos, o satélite parece imóvel no céu. É por isso que a antena parabólica de TV não precisa de motor: ela é apontada uma vez e fica ali para sempre, como explicamos em O que é uma órbita? E por que existem várias.

Só que esse truque tem uma condição escondida: o satélite precisa estar sobre o equador. Se ele saísse do plano equatorial, deixaria de parecer parado e começaria a desenhar um oito no céu.

E aí vem a consequência geométrica. Quem está no equador vê o satélite geoestacionário bem no alto, quase a pino. Quem está em São Paulo o vê alto, mas inclinado para o norte. Quem está em Moscou, a 55 graus de latitude, o vê baixo, raspando o horizonte. E quem mora mais ao norte ainda, numa cidade russa do Ártico, pode simplesmente não vê-lo: o satélite fica abaixo da linha do horizonte, escondido pela própria curvatura da Terra.

A NASA descreve isso sem rodeios no catálogo de órbitas que publica: as latitudes bem ao norte e bem ao sul ficam na borda do campo de visão de um satélite geoestacionário, e é exatamente essa lacuna que a órbita Molniya existe para preencher.

A solução: uma órbita bem torta

Em vez de um círculo sobre o equador, a Molniya é uma elipse bastante alongada e bastante inclinada. A NASA registra os dois números que a definem: inclinação de 63,4 graus e excentricidade de 0,722.

Vale traduzir o segundo número, porque ele é o coração da coisa. Excentricidade é o quanto uma órbita foge do círculo. Zero é um círculo perfeito. Quanto mais perto de 1, mais achatada e alongada é a elipse. Um valor de 0,722 é muito alto: significa que o satélite passa pertinho da Terra num extremo da órbita e muito, muito longe no outro.

A analogia que funciona é a de uma pedra atirada bem forte para cima. Ela sai rápido, vai perdendo velocidade conforme sobe, fica quase parada no ponto mais alto — aquele instante em que parece flutuar — e depois desce acelerando de novo. A Molniya faz isso, só que a "pedra" é um satélite e o ponto mais alto fica sobre a Rússia.

A lei que faz o satélite se demorar lá em cima

Aqui está o detalhe que transforma uma órbita torta numa solução de engenharia.

Num percurso elíptico, o satélite não anda sempre na mesma velocidade. Perto da Terra, onde a gravidade é mais forte, ele corre. Longe, onde a gravidade é mais fraca, ele se arrasta. É a mesma regra que vale para todas as órbitas e que a própria NASA resume assim no catálogo: órbitas mais altas se movem mais devagar.

O resultado prático é espetacular. Como o satélite passa correndo pelo trecho baixo e se arrasta pelo trecho alto, ele gasta cerca de dois terços de cada volta sobre um único hemisfério. Em números: numa volta de 12 horas, são aproximadamente 8 horas úteis sobre a região que interessa e 4 horas do outro lado, passando depressa.

Oito horas é tempo suficiente para que o esquema funcione com poucos satélites. Com três deles espaçados na mesma órbita, sempre há um "estacionado" lá em cima, e a antena no chão só precisa trocar de alvo três vezes por dia — bem mais barato do que manter uma constelação inteira, como a que atende o Brasil pela internet via satélite descrita em Starlink no Brasil: preço, velocidade e se vale a pena.

Satélite de comunicação com seu estágio superior branco e dourado, recém-solto do porão do ônibus espacial, flutuando sobre um tapete de nuvens brancas
Um satélite de comunicação com o foguete que vai empurrá-lo até a órbita alta. Chegar aos 36.000 km é a parte cara: o satélite é solto em órbita baixa e precisa subir por conta própria. Foto: NASA/JSC

Os números, lado a lado

A Molniya fica mais fácil de entender quando aparece ao lado das outras órbitas do mesmo catálogo da NASA.

Órbita Altura Tempo de uma volta Para que serve
Baixa (exemplo: satélite Aqua) Cerca de 705 km Cerca de 99 minutos Observar a Terra de perto
Semissíncrona (GPS) Cerca de 20.200 km da superfície 12 horas Navegação
Molniya Elipse: baixa de um lado, muito alta do outro Cerca de 12 horas Comunicação em latitude alta
Geoestacionária Cerca de 36.000 km da superfície 23 h 56 min 4 s TV, meteorologia, comunicação

Repare que a Molniya e a órbita do GPS têm o mesmo período de 12 horas e servem para coisas completamente diferentes. A do GPS é quase circular, então o satélite anda sempre na mesma velocidade e cruza o céu sem parar — o que é justamente o que a navegação precisa, como contamos em Como o GPS sabe onde você está (satélites explicados). A Molniya é esticada, então o satélite se demora. Mesma duração, comportamentos opostos.

O ângulo de 63,4 graus

Esse número aparece sempre, sem variação, em toda descrição dessa órbita. Não é um ângulo redondo nem uma escolha de conveniência: é um valor específico, com duas casas de precisão, que caracteriza a família Molniya.

Uma honestidade aqui: a página da NASA que traz o número não explica por que esse ângulo em particular, e não vamos inventar uma explicação para preencher a lacuna. O que o catálogo diz é que a combinação de alta inclinação com alta excentricidade é o que define a órbita, e que ela foi inventada pelos russos. O efeito prático, esse sim está documentado: o satélite percorre sempre o mesmo caminho sobre o solo a cada 24 horas, o que permite planejar as antenas de terra com antecedência.

Quem usa isso hoje

A órbita leva o nome dos satélites de comunicação soviéticos que a estrearam, e segue em uso. A NASA cita dois usuários: satélites de comunicação russos e os satélites da Sirius, empresa de rádio por assinatura que atende o território norte-americano, incluindo o Alasca.

O caso do Alasca é o resumo do problema inteiro: é território dos Estados Unidos, mas fica tão ao norte que o satélite geoestacionário americano, parado sobre o equador, já não serve direito.

E o Brasil, que não tem esse problema

Esta é a parte em que a geografia trabalha a nosso favor. O Brasil vai de cerca de 5 graus norte, em Roraima, a 33 graus sul, no Chuí. É tudo perto do equador em comparação com a Rússia, o Canadá ou a Escandinávia.

Para quem mora aqui, o satélite geoestacionário aparece confortavelmente alto no céu, e isso tem uma consequência que está na casa de milhões de brasileiros: a antena parabólica aponta para o norte e nunca se mexe. Ninguém no Brasil precisa de um prato giratório perseguindo satélite, nem de três satélites revezando em órbita torta. A órbita Molniya é uma solução brilhante para um problema que não é nosso.

E a mesma proximidade do equador que resolve a vida da antena de TV é o que torna o litoral do Maranhão tão valioso para lançar foguetes — a vantagem explicada em Alcântara: por que a base brasileira é cobiçada no mundo todo. Estar perto da linha do equador ajuda duas vezes: para receber sinal de cima e para mandar carga para cima.

Perguntas frequentes

O que é a órbita Molniya?

É uma órbita muito alongada e inclinada 63,4 graus, com volta completa em cerca de 12 horas, criada pelos russos para dar cobertura de comunicação a regiões muito ao norte. Como o satélite se move devagar na parte alta da elipse, ele passa cerca de dois terços de cada volta sobre o mesmo hemisfério.

Por que a órbita geoestacionária não serve para a Rússia?

Porque o satélite geoestacionário precisa ficar sobre o equador. Visto de latitudes muito altas, ele aparece baixo no horizonte, onde morros, prédios e a própria curvatura da Terra atrapalham o sinal. Em regiões árticas ele pode nem aparecer acima do horizonte.

Qual é a diferença entre a Molniya e a órbita do GPS?

As duas levam cerca de 12 horas para dar uma volta, mas a do GPS é quase circular, a cerca de 20.200 km de altura, e o satélite atravessa o céu em velocidade constante. A Molniya é uma elipse bem alongada, e o satélite desacelera na parte alta, demorando-se sobre a região que precisa atender.

Por que a antena parabólica no Brasil fica parada?

Porque ela aponta para um satélite geoestacionário, que gira junto com a Terra e por isso parece imóvel no céu. Como o Brasil fica perto do equador, esse satélite aparece bem alto, com sinal limpo. Em países muito ao norte ou muito ao sul esse arranjo perde qualidade.

Quantos satélites são necessários numa órbita Molniya?

Como cada satélite passa cerca de dois terços da volta de 12 horas sobre a região de interesse, poucos bastam para dar cobertura contínua — na prática, um pequeno grupo revezando na mesma órbita. A antena no chão troca de satélite algumas vezes por dia, acompanhando quem está "estacionado" lá em cima naquele momento.

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