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Como a NASA conversa com sondas a bilhões de km daqui

A Voyager transmite com 22 watts, menos que a lâmpada da geladeira, e a NASA escuta. Como funciona a rede de antenas gigantes que fala com as sondas.

Publicado em 8 min de leitura
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Seis antenas parabólicas brancas da rede que a NASA usa para conversar com sondas no espaço profundo, iluminadas à noite num vale de mato baixo perto de Madri
Foto: MDSCC/INTA, Francisco "Paco" Moreno
Neste artigo
  1. Por que o sinal chega tão fraco
  2. Três antenas, 120 graus de distância
  3. Como se escuta um sussurro desses
  4. A conversa que demora quase um dia
  5. 160 bits por segundo: mais lento que a internet discada
  6. Quando uma antena não basta
  7. O gargalo: 40 missões para três estações

A resposta curta: por rádio comum, com antenas absurdamente grandes e receptores absurdamente sensíveis. Não existe truque novo nem tecnologia secreta. A NASA conversa com a Voyager 1, a 26 bilhões de quilômetros daqui, usando o mesmo tipo de onda que leva o sinal da rádio FM do seu carro.

O que impressiona é a escala do problema. A Voyager transmite com 22 watts — menos que a lâmpada da geladeira da sua casa. Quando esse sinal chega aqui, depois de quase um dia inteiro de viagem, ele está tão diluído que a potência recebida é de aproximadamente um bilionésimo de um bilionésimo de watt. Um número com dezoito zeros depois da vírgula.

E, ainda assim, todo dia a NASA escuta.

Por que o sinal chega tão fraco

Um transmissor de rádio não manda a energia num feixe perfeito. Ele espalha, e o espalhamento cresce com o quadrado da distância: dobrou a distância, o sinal fica quatro vezes mais fraco.

Pense na lanterna do celular apontada para a parede. Encostada, o círculo de luz é pequeno e forte. A três metros, o mesmo tanto de luz está espalhado num círculo enorme e pálido. A Voyager é uma lanterna apontada de 26 bilhões de quilômetros: quando o círculo de luz chega aqui, ele tem milhares de vezes o tamanho da Terra, e a antena recolhe só o pedacinho que cabe no prato dela.

Para dar dimensão ao número: se você quisesse acumular a energia que uma antena recolhe da Voyager até juntar o tanto que um grão de açúcar libera ao cair de um centímetro de altura sobre a mesa, precisaria escutar sem parar por quase dois mil anos.

Não existe amplificador que conserte isso depois. A única saída é capturar mais sinal — e capturar sinal é o que um prato grande faz.

Três antenas, 120 graus de distância

A rede se chama Deep Space Network, ou Rede do Espaço Profundo, e é operada pelo Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA. Ela nasceu de um memorando de dezembro de 1963 e está em operação contínua desde então.

O desenho dela resolve um problema óbvio: a Terra gira. Uma antena só perderia a sonda de vista por 12 horas todo dia. A solução foi construir três complexos espaçados igualmente ao redor do planeta, a 120 graus de longitude um do outro:

Complexo Onde fica Fuso aproximado
Goldstone Deserto de Mojave, Califórnia (EUA) Brasília −5 h
Madri Robledo de Chavela, Espanha Brasília +5 h
Camberra Tidbinbilla, Austrália Brasília +13 h

Com esse arranjo, sempre tem pelo menos um dos três de frente para o céu profundo. Quando a Terra tira Goldstone de vista, Madri já está entrando; quando Madri sai, Camberra assume. A sonda nunca fica sozinha.

Cada complexo tem uma antena gigante de 70 metros de diâmetro — um prato do tamanho de um prédio de 20 andares deitado, com massa de milhares de toneladas — mais várias antenas de 34 metros.

Antena parabólica branca de 70 metros vista de baixo, apontada para cima, com a estrutura de treliça bem visível e um céu cheio de estrelas ao fundo
A antena de 70 metros de Goldstone, no deserto da Califórnia. É uma das três desse tamanho no mundo, e a estrutura toda gira para acompanhar a sonda enquanto a Terra roda. Foto: NASA/JPL-Caltech

Uma curiosidade que mostra como a coisa é frágil: a antena de Camberra, a DSS-43, é a única no planeta capaz de enviar comandos para a Voyager 2. Por causa da trajetória que a sonda tomou depois de passar por Netuno, em 1989, ela desceu para o sul do plano do Sistema Solar e só é alcançada do hemisfério sul. Quando aquela antena entrou em reforma, em 2020, a NASA ficou meses sem poder mandar uma única ordem para a nave — só ouvindo.

Como se escuta um sussurro desses

Três truques fazem o impossível virar rotina.

O prato grande. Uma parabólica funciona como uma bacia que recolhe chuva: quanto maior a boca, mais água cai dentro. O prato de 70 metros concentra tudo o que cai nele num único ponto, onde fica o receptor. Uma antena de TV por assinatura tem 60 centímetros; a de Goldstone recolhe mais de 13 mil vezes mais sinal.

O frio. Todo componente eletrônico produz ruído por conta própria, só por estar em temperatura ambiente — é o chiado de um rádio fora de estação. Num sinal tão fraco, esse chiado engoliria tudo. Por isso os amplificadores da rede ficam mergulhados em hélio líquido e trabalham a poucos graus acima do zero absoluto, por volta de 260 graus negativos. Gelando o aparelho, o chiado dele quase some, e o sussurro da sonda aparece.

A paciência. Como o sinal é fraco, manda-se a informação bem devagar e repete-se cada pedaço de um jeito que permita reconstruir o que se perdeu. É a mesma lógica de gritar bem devagar e soletrando para alguém do outro lado de um campo de futebol.

Antena parabólica branca de 34 metros fotografada de perto à noite, com o prato inclinado, a base metálica iluminada por refletores e máquinas de obra ao pé da estrutura
Uma antena de 34 metros da rede, em Madri, ainda na fase final de montagem. As antenas menores são hoje o grosso da rede e trabalham em conjunto. Foto: NASA/JPL-Caltech

A conversa que demora quase um dia

Nada disso contorna o limite mais duro de todos: nenhum sinal viaja mais rápido que a luz. Isso muda completamente o jeito de operar uma sonda.

Destino Tempo do sinal, só ida
Lua 1,3 segundo
Marte de 3 a 22 minutos
Júpiter de 35 a 52 minutos
Saturno de 1h10 a 1h27
Netuno cerca de 4 horas
Voyager 1 cerca de 24 horas

Tempos calculados a partir das distâncias reais de cada corpo; os intervalos existem porque a distância muda conforme a Terra e o planeta se movem nas órbitas.

A consequência prática é enorme: não existe controle remoto no espaço profundo. Quando o rover pousa em Marte, a equipe na Terra assiste a algo que já aconteceu há 10 minutos. Se der errado, deu errado há 10 minutos e não há nada a fazer. É por isso que pousos em Marte são totalmente automáticos e a sala de controle só bate palma ou fica em silêncio — o assunto aparece em Quanto tempo leva para chegar a Marte.

Com a Voyager é ainda mais estranho: um comando enviado hoje de manhã chega lá amanhã de manhã, e a confirmação de que ele funcionou volta só depois de amanhã. Dois dias para saber se um botão foi apertado. A situação atual da sonda está em Onde está a Voyager 1 hoje? A nave mais distante de nós.

160 bits por segundo: mais lento que a internet discada

O sinal da Voyager 1 chega hoje a cerca de 160 bits por segundo. Para comparação: a internet discada dos anos 1990, aquela do barulho do modem, chegava a 56 mil bits por segundo — 350 vezes mais rápida.

Nessa velocidade, baixar uma única foto de celular de 3 megabytes levaria mais de 40 horas de transmissão contínua — quase dois dias inteiros de antena para uma foto só. Por isso a Voyager não manda mais imagens: só dados de campo magnético e de partículas, que são medidas curtas, em números.

Sondas mais novas e mais próximas têm situação bem melhor. As de Marte enviam megabits por segundo quando estão bem posicionadas, e boa parte dos dados dos robôs na superfície não vai direto para a Terra: sobe primeiro para um satélite em órbita de Marte, que tem antena maior e transmite depois. É a mesma ideia de quem sobe no morro para pegar sinal de celular.

Quando uma antena não basta

Quando o sinal está no limite, a rede usa uma técnica chamada combinação de antenas: várias parabólicas apontam para a mesma sonda ao mesmo tempo e os sinais são somados eletronicamente, com correção precisa do atraso entre elas. O resultado equivale a um prato bem maior do que qualquer um deles sozinho.

Foi assim que se conseguiu receber os dados da passagem da Voyager 2 por Netuno, em 1989, quando o sinal já era fraco demais para uma antena só. Em 2024, as seis antenas de Madri — a da foto de capa deste artigo — trabalharam combinadas pela primeira vez.

A mesma tecnologia de escuta de sinais fraquíssimos aparece na busca por transmissões de outras civilizações, contada em Sinais de alienígenas: o que a ciência já captou de verdade, e é prima da que permite a um aparelho no seu bolso ouvir satélites a 20 mil quilômetros, explicada em Como o GPS sabe onde você está (satélites explicados).

O gargalo: 40 missões para três estações

O problema mais sério da rede hoje não é técnico: é fila.

A Deep Space Network atende cerca de 40 missões ao mesmo tempo, e outras dezenas devem ser lançadas nos próximos anos. Cada sonda precisa de horas de antena por semana, e as antenas são poucas, velhas e caras de manter. As maiores nasceram como pratos de 64 metros entre os anos 1960 e 1970 e só foram ampliadas para 70 metros no fim dos anos 1980, justamente para dar conta da chegada da Voyager 2 a Netuno. Hoje elas passam por reformas longas, durante as quais a capacidade da rede inteira cai.

O resultado é que tempo de antena virou moeda disputada. Missões antigas, como as Voyager, competem por horas com missões novas e caras. A NASA vem construindo antenas de 34 metros novas para aliviar o gargalo, apostando na combinação delas em vez de novos pratos gigantes — sai mais barato e é mais flexível.

Há ainda uma aposta para o futuro: comunicação por laser em vez de rádio. Um feixe de luz se espalha muito menos que uma onda de rádio, o que permitiria taxas dezenas de vezes maiores. Os primeiros testes a longa distância já foram feitos com sucesso, mas laser exige céu sem nuvem e mira extremamente precisa, então a expectativa é que ele complemente o rádio, não que o substitua.

Perguntas frequentes

Como a NASA se comunica com as sondas espaciais?

Por ondas de rádio, usando a Deep Space Network: três complexos de antenas parabólicas gigantes instalados na Califórnia, na Espanha e na Austrália, espaçados igualmente ao redor do planeta para que sempre haja um deles voltado para o céu profundo. Cada complexo tem uma antena de 70 metros e várias de 34 metros, com receptores resfriados a quase 260 graus negativos para captar sinais fraquíssimos.

Quanto tempo demora o sinal da Voyager chegar à Terra?

Cerca de 24 horas em cada sentido, já que a sonda está a aproximadamente 26 bilhões de quilômetros. Uma pergunta enviada hoje só tem resposta depois de amanhã. Esse tempo cresce um pouco todo ano, porque a Voyager continua se afastando a cerca de 17 quilômetros por segundo.

Por que não usam satélites ou internet para falar com as sondas?

Porque não existe infraestrutura fora da Terra. Satélites de comunicação comuns ficam em órbita terrestre e foram feitos para sinais fortes a curtíssima distância, nada comparável a bilhões de quilômetros. A internet também não ajuda: ela é feita de cabos e antenas aqui embaixo. Para o espaço profundo, só rádio direto — e antenas do tamanho de um campo de futebol.

Dá para ouvir a Voyager com uma antena caseira?

Não. Nem com um radiotelescópio amador de bom porte. O sinal é dezenas de milhões de vezes mais fraco do que qualquer equipamento fora de uma rede profissional consegue separar do ruído. Fazem falta o prato de dezenas de metros, os amplificadores criogênicos e o conhecimento exato da frequência e da posição da sonda.

O Brasil tem antenas desse tipo?

O Brasil não tem estação da Deep Space Network, que só opera nos três complexos originais. O país tem, porém, estações de rastreio de satélites em Cuiabá e em Alcântara, e o rádio-observatório de Itapetinga, em Atibaia (SP), com uma antena de 13,7 metros usada em radioastronomia. São instalações de outra categoria: servem para satélites em órbita da Terra e para pesquisa, não para conversar com sondas interplanetárias.

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