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Qual estação espacial vai substituir a ISS?

A NASA abriu em 9 de outubro de 2026 a disputa pelas estações privadas que vão ocupar o lugar da ISS. Veja quem concorre e quais são os prazos.

Publicado em 7 min de leitura
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A Estação Espacial Internacional inteira vista de fora, com os painéis solares abertos e a curvatura azul da Terra ao fundo
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. O que a NASA anunciou em 9 de outubro de 2026
  2. Por que a ISS precisa de substituta
  3. Quem está na disputa
  4. Quanto dinheiro já foi gasto nisso
  5. O calendário, e por que não dá para confiar em calendário
  6. O que pode dar errado
  7. O que muda para quem olha o céu do Brasil

Ainda não existe uma estação escolhida para substituir a Estação Espacial Internacional. O que existe é uma disputa, e ela entrou numa fase decisiva: em 9 de outubro de 2026, a NASA publicou o edital final pedindo às empresas americanas que apresentem seus planos para projetar, construir, testar, certificar e operar estações espaciais comerciais. As propostas têm de chegar até 8 de dezembro de 2026, e a NASA espera assinar os contratos na primavera do hemisfério norte de 2027, ou seja, entre março e junho.

A mudança de modelo é a parte importante: a NASA não quer mais ser dona de uma estação. Ela quer ser cliente de uma — como quem deixa de comprar o carro e passa a chamar o aplicativo.

O que a NASA anunciou em 9 de outubro de 2026

O comunicado tem nome e número: RELEASE26-086. Nele, a agência diz que busca "planos da indústria americana para a próxima geração de estações espaciais comerciais em órbita baixa da Terra" e que pretende manter presença humana nessa faixa "muito depois de a Estação Espacial Internacional se aposentar".

O desenho do contrato, nas palavras da própria NASA:

  • É de preço fixo, com vários vencedores — ou seja, mais de uma empresa é contratada, e cada uma sabe de antemão quanto vai receber.
  • Numa primeira etapa, serão escolhidas duas ou mais empresas para o desenvolvimento inicial.
  • Depois vem uma disputa entre elas para o projeto final, teste, avaliação, certificação e, por fim, a prestação do serviço, que pode ficar com uma ou mais das contratadas.

O administrador da NASA, Jared Isaacman, citado no comunicado, deixou claro o que preocupa a agência: "a oportunidade é significativa, mas a economia, no fim das contas, precisa fechar". E acrescentou que a NASA quer ver "planos críveis, execução técnica forte e empresas preparadas para investir".

Essa frase sobre a economia não é retórica. O problema central dessas estações nunca foi técnico: é saber quem mais, além da NASA, vai pagar para usar um laboratório em órbita.

Por que a ISS precisa de substituta

A Estação Espacial Internacional está em órbita desde 1998 e é habitada sem interrupção desde 2000. A NASA diz que ela chega ao fim da vida operacional em 2030.

Os módulos mais antigos passaram quase trinta anos em órbita, e manter no ar uma estrutura desse tamanho vai ficando mais caro a cada ano. O plano de como ela vai descer, e onde vai cair, está em A Estação Espacial vai cair? O fim da ISS em 2030.

Se nada substituir a ISS, os Estados Unidos ficam, por um tempo, sem laboratório tripulado em órbita — enquanto a estação chinesa Tiangong continua funcionando. Esse é o pano de fundo político de toda a pressa, e ele aparece também em EUA x China: a nova corrida pela Lua.

Quem está na disputa

Quatro nomes aparecem nos documentos da NASA, e vale saber o que é cada um antes de ler qualquer manchete:

Projeto Empresa Ideia central
Starlab Starlab Space, que reúne Voyager, a antiga Nanoracks e a Northrop Grumman Uma estação de um módulo grande de habitação e laboratório, mais um módulo de serviço menor, lançada direto para a órbita
Orbital Reef Blue Origin, com a Sierra Space Um "parque industrial de uso misto" em órbita, pensado para alugar espaço a vários clientes
Axiom Station Axiom Space Começa acoplada à ISS e depois se solta, virando uma estação independente
Haven Vast Estações menores, com a primeira pensada como demonstração

A Axiom é a única que não parte do zero: o contrato dela, de 2020, prevê acoplar pelo menos um módulo habitável à ISS e depois soltá-lo antes de a estação velha ser desativada. É a estratégia mais conservadora da lista, porque a empresa não precisa resolver sozinha energia, controle de órbita e banheiro desde o primeiro dia.

A Sierra Space desenvolve o LIFE, um habitat inflável: ele sobe dobrado, cabendo na ogiva de um foguete, e é inflado em órbita. Parece frágil e não é — a parede é feita de camadas de tecido sintético de altíssima resistência, e a NASA já testa um módulo desse tipo acoplado à ISS, chamado BEAM, desde 2016.

Dois astronautas flutuando dentro de um módulo inflável acoplado à Estação Espacial, com paredes escuras de tecido e tubos de ventilação laranja
Dois tripulantes dentro do BEAM, o módulo inflável de fabricação privada acoplado à Estação Espacial. Ele sobe dobrado e é inflado em órbita — a mesma ideia que algumas estações comerciais pretendem usar em escala maior. Foto: NASA/Peggy Whitson

Quanto dinheiro já foi gasto nisso

Em dezembro de 2021, a NASA assinou os primeiros acordos, num total de 415,6 milhões de dólares: 130 milhões para a Blue Origin, 160 milhões para a Nanoracks e 125,6 milhões para a Northrop Grumman.

O arranjo mudou no meio do caminho. A Northrop Grumman desistiu de fazer uma estação própria e se juntou ao time da Starlab, para fornecer carga e engenharia. A empresa recebeu 36,6 milhões pelas metas que chegou a cumprir, e a NASA remanejou o resto: a Blue Origin ganhou mais 42 milhões, chegando a 172 milhões; a Starlab ganhou mais 57,5 milhões, chegando a 217,5 milhões.

Somando tudo, a NASA comprometeu até aqui pouco mais de 400 milhões de dólares — dinheiro de desenvolvimento, não de compra de estação pronta. É muito dinheiro e, ao mesmo tempo, pouco para o que se pretende construir, e é exatamente por isso que o edital de outubro cobra que as empresas também invistam do próprio bolso. O modelo de contratar serviço em vez de construir a própria nave já foi testado com as cápsulas que levam astronautas à estação, e é a mesma lógica de preço que aparece em Quanto custa uma viagem ao espaço em 2026.

O calendário, e por que não dá para confiar em calendário

Aqui a honestidade importa mais que a animação. A NASA não divulgou data de lançamento de nenhuma dessas estações, e as empresas já remarcaram as suas várias vezes.

O que está publicado e tem data firme é só isto:

Quando O quê
9 de outubro de 2026 NASA publica o edital final
8 de dezembro de 2026 Prazo para as propostas
Entre março e junho de 2027 Previsão de assinatura dos contratos
2030 Ano em que a NASA diz que a ISS encerra a operação

Tudo o mais é previsão. Cronograma espacial atrasa por regra, e este tem um ingrediente a mais: as empresas precisam levantar dinheiro privado, e isso depende de clientes que ainda não existem.

O que pode dar errado

Três riscos aparecem nos próprios documentos da agência.

A conta pode não fechar. É o que a frase do administrador admite. Pesquisa farmacêutica, fabricação de fibra óptica em microgravidade e turismo são os mercados citados há anos, e nenhum deles provou ainda que paga a conta de manter gente viva em órbita.

Pode haver um vazio. Se a ISS sair em 2030 e a primeira estação comercial atrasar dois anos, não há plano B anunciado. É um cenário que a NASA evita comentar.

O serviço pode ser menor. Nada garante que as novas estações tenham o volume, a potência elétrica e a tripulação permanente da ISS. Elas podem ser visitadas por temporadas, em vez de habitadas sem parar — o que mudaria a natureza das Expedições, aquelas equipes de seis meses descritas em O que é uma Expedição da Estação Espacial?.

O que muda para quem olha o céu do Brasil

Na prática, pouco e muito ao mesmo tempo.

Pouco, porque uma estação comercial em órbita baixa vai passar sobre o Brasil do mesmo jeito que a ISS passa hoje, como um ponto brilhante que cruza o céu em silêncio — veja Como ver a Estação Espacial passar sobre a sua cidade.

Muito, porque um laboratório privado funciona com outras regras. Universidades e empresas brasileiras que queiram fazer um experimento em microgravidade deixariam de depender de um acordo entre agências estatais e passariam a comprar o serviço, como se compra tempo num laboratório qualquer. Se o preço cair, isso abre uma porta que hoje está fechada para quase todo mundo fora do eixo das grandes agências.

Vale também temperar a expectativa de quem sonha com passagem. Essas estações não são hotéis: a maior parte do espaço é laboratório, e o turismo, quando entra, entra a preços que você encontra em Turismo espacial: as empresas que já vendem passagem.

Perguntas frequentes

Qual estação vai substituir a ISS, afinal?

Nenhuma foi escolhida ainda. Em outubro de 2026, a NASA abriu o edital final e espera assinar contratos na primeira metade de 2027, com duas ou mais empresas na etapa inicial. Os nomes na disputa são Starlab, Orbital Reef, Axiom Station e Haven.

A ISS vai mesmo acabar em 2030?

É a data que a NASA publica hoje. O prazo da estação já foi esticado mais de uma vez ao longo dos anos, então não é impossível que mude de novo — mas desta vez há um veículo específico sendo construído para derrubá-la em segurança, o que torna o fim bem mais concreto.

O Brasil participa de alguma dessas estações?

Não há participação brasileira anunciada em nenhum dos projetos. O país é parceiro de programas espaciais americanos em outras frentes, descritas em O Brasil tem programa espacial? O que a AEB faz.

Uma estação privada pode cobrar para levar turista?

Pode, e é parte do plano de negócios de todas elas. A NASA já autoriza missões privadas de curta duração à própria ISS, com tripulações pagantes acompanhadas por um astronauta experiente.

E a estação chinesa?

A Tiangong opera desde 2022, é bem menor que a ISS e não faz parte desse processo: é um programa estatal independente, sem ligação com a NASA. Se as estações comerciais atrasarem, ela pode ficar, por um período, como a única estação permanentemente habitada em órbita.

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