Ainda não existe uma estação escolhida para substituir a Estação Espacial Internacional. O que existe é uma disputa, e ela entrou numa fase decisiva: em 9 de outubro de 2026, a NASA publicou o edital final pedindo às empresas americanas que apresentem seus planos para projetar, construir, testar, certificar e operar estações espaciais comerciais. As propostas têm de chegar até 8 de dezembro de 2026, e a NASA espera assinar os contratos na primavera do hemisfério norte de 2027, ou seja, entre março e junho.
A mudança de modelo é a parte importante: a NASA não quer mais ser dona de uma estação. Ela quer ser cliente de uma — como quem deixa de comprar o carro e passa a chamar o aplicativo.
O que a NASA anunciou em 9 de outubro de 2026
O comunicado tem nome e número: RELEASE26-086. Nele, a agência diz que busca "planos da indústria americana para a próxima geração de estações espaciais comerciais em órbita baixa da Terra" e que pretende manter presença humana nessa faixa "muito depois de a Estação Espacial Internacional se aposentar".
O desenho do contrato, nas palavras da própria NASA:
- É de preço fixo, com vários vencedores — ou seja, mais de uma empresa é contratada, e cada uma sabe de antemão quanto vai receber.
- Numa primeira etapa, serão escolhidas duas ou mais empresas para o desenvolvimento inicial.
- Depois vem uma disputa entre elas para o projeto final, teste, avaliação, certificação e, por fim, a prestação do serviço, que pode ficar com uma ou mais das contratadas.
O administrador da NASA, Jared Isaacman, citado no comunicado, deixou claro o que preocupa a agência: "a oportunidade é significativa, mas a economia, no fim das contas, precisa fechar". E acrescentou que a NASA quer ver "planos críveis, execução técnica forte e empresas preparadas para investir".
Essa frase sobre a economia não é retórica. O problema central dessas estações nunca foi técnico: é saber quem mais, além da NASA, vai pagar para usar um laboratório em órbita.
Por que a ISS precisa de substituta
A Estação Espacial Internacional está em órbita desde 1998 e é habitada sem interrupção desde 2000. A NASA diz que ela chega ao fim da vida operacional em 2030.
Os módulos mais antigos passaram quase trinta anos em órbita, e manter no ar uma estrutura desse tamanho vai ficando mais caro a cada ano. O plano de como ela vai descer, e onde vai cair, está em A Estação Espacial vai cair? O fim da ISS em 2030.
Se nada substituir a ISS, os Estados Unidos ficam, por um tempo, sem laboratório tripulado em órbita — enquanto a estação chinesa Tiangong continua funcionando. Esse é o pano de fundo político de toda a pressa, e ele aparece também em EUA x China: a nova corrida pela Lua.
Quem está na disputa
Quatro nomes aparecem nos documentos da NASA, e vale saber o que é cada um antes de ler qualquer manchete:
| Projeto | Empresa | Ideia central |
|---|---|---|
| Starlab | Starlab Space, que reúne Voyager, a antiga Nanoracks e a Northrop Grumman | Uma estação de um módulo grande de habitação e laboratório, mais um módulo de serviço menor, lançada direto para a órbita |
| Orbital Reef | Blue Origin, com a Sierra Space | Um "parque industrial de uso misto" em órbita, pensado para alugar espaço a vários clientes |
| Axiom Station | Axiom Space | Começa acoplada à ISS e depois se solta, virando uma estação independente |
| Haven | Vast | Estações menores, com a primeira pensada como demonstração |
A Axiom é a única que não parte do zero: o contrato dela, de 2020, prevê acoplar pelo menos um módulo habitável à ISS e depois soltá-lo antes de a estação velha ser desativada. É a estratégia mais conservadora da lista, porque a empresa não precisa resolver sozinha energia, controle de órbita e banheiro desde o primeiro dia.
A Sierra Space desenvolve o LIFE, um habitat inflável: ele sobe dobrado, cabendo na ogiva de um foguete, e é inflado em órbita. Parece frágil e não é — a parede é feita de camadas de tecido sintético de altíssima resistência, e a NASA já testa um módulo desse tipo acoplado à ISS, chamado BEAM, desde 2016.

Quanto dinheiro já foi gasto nisso
Em dezembro de 2021, a NASA assinou os primeiros acordos, num total de 415,6 milhões de dólares: 130 milhões para a Blue Origin, 160 milhões para a Nanoracks e 125,6 milhões para a Northrop Grumman.
O arranjo mudou no meio do caminho. A Northrop Grumman desistiu de fazer uma estação própria e se juntou ao time da Starlab, para fornecer carga e engenharia. A empresa recebeu 36,6 milhões pelas metas que chegou a cumprir, e a NASA remanejou o resto: a Blue Origin ganhou mais 42 milhões, chegando a 172 milhões; a Starlab ganhou mais 57,5 milhões, chegando a 217,5 milhões.
Somando tudo, a NASA comprometeu até aqui pouco mais de 400 milhões de dólares — dinheiro de desenvolvimento, não de compra de estação pronta. É muito dinheiro e, ao mesmo tempo, pouco para o que se pretende construir, e é exatamente por isso que o edital de outubro cobra que as empresas também invistam do próprio bolso. O modelo de contratar serviço em vez de construir a própria nave já foi testado com as cápsulas que levam astronautas à estação, e é a mesma lógica de preço que aparece em Quanto custa uma viagem ao espaço em 2026.
O calendário, e por que não dá para confiar em calendário
Aqui a honestidade importa mais que a animação. A NASA não divulgou data de lançamento de nenhuma dessas estações, e as empresas já remarcaram as suas várias vezes.
O que está publicado e tem data firme é só isto:
| Quando | O quê |
|---|---|
| 9 de outubro de 2026 | NASA publica o edital final |
| 8 de dezembro de 2026 | Prazo para as propostas |
| Entre março e junho de 2027 | Previsão de assinatura dos contratos |
| 2030 | Ano em que a NASA diz que a ISS encerra a operação |
Tudo o mais é previsão. Cronograma espacial atrasa por regra, e este tem um ingrediente a mais: as empresas precisam levantar dinheiro privado, e isso depende de clientes que ainda não existem.
O que pode dar errado
Três riscos aparecem nos próprios documentos da agência.
A conta pode não fechar. É o que a frase do administrador admite. Pesquisa farmacêutica, fabricação de fibra óptica em microgravidade e turismo são os mercados citados há anos, e nenhum deles provou ainda que paga a conta de manter gente viva em órbita.
Pode haver um vazio. Se a ISS sair em 2030 e a primeira estação comercial atrasar dois anos, não há plano B anunciado. É um cenário que a NASA evita comentar.
O serviço pode ser menor. Nada garante que as novas estações tenham o volume, a potência elétrica e a tripulação permanente da ISS. Elas podem ser visitadas por temporadas, em vez de habitadas sem parar — o que mudaria a natureza das Expedições, aquelas equipes de seis meses descritas em O que é uma Expedição da Estação Espacial?.
O que muda para quem olha o céu do Brasil
Na prática, pouco e muito ao mesmo tempo.
Pouco, porque uma estação comercial em órbita baixa vai passar sobre o Brasil do mesmo jeito que a ISS passa hoje, como um ponto brilhante que cruza o céu em silêncio — veja Como ver a Estação Espacial passar sobre a sua cidade.
Muito, porque um laboratório privado funciona com outras regras. Universidades e empresas brasileiras que queiram fazer um experimento em microgravidade deixariam de depender de um acordo entre agências estatais e passariam a comprar o serviço, como se compra tempo num laboratório qualquer. Se o preço cair, isso abre uma porta que hoje está fechada para quase todo mundo fora do eixo das grandes agências.
Vale também temperar a expectativa de quem sonha com passagem. Essas estações não são hotéis: a maior parte do espaço é laboratório, e o turismo, quando entra, entra a preços que você encontra em Turismo espacial: as empresas que já vendem passagem.




